Jogos Olimpícos

Medalhista faz gesto de protesto em maratona e teme represália na Etiópia

"Se não me matarem, vão me prender", disse Feyisa Lilesa, após criticar repressão ao povo oromo em seu país nos Jogos

O atleta etíope Feyisa Lilesa fez um gesto de protesto contra o seu Governo ao obter a medalha de prata na maratona dos Jogos Olímpicos 2016, no domingo, no Rio. Nos últimos metros antes de alcançar a linha de chegada na segunda posição, Lilesa cruzou os pulsos sobre a cabeça, um gesto típico do grupo étnico oromo – que, segundo ativistas, sofre forte perseguição política e policial. O regulamento olímpico proíbe explicitamente protestos ou gestos com conotação política.

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Lilesa, de 26 anos, é natural da região de Oromia, na fronteira com a Somália. O povo oromo, de maioria cristã, protagonizou nas últimas semanas duros protestos antigovernamentais que terminaram com a morte de mais de cem manifestantes. Esse grupo étnico, formado por mais de 35 milhões de indivíduos distribuídos por Etiópia, Quênia e Somália, critica o Governo de Adis Abeba por supostamente desrespeitar os direitos humanos, fazer detenções e execuções arbitrárias, distribuir injustamente a riqueza e marginalizar politicamente esse povo na Etiópia.

Lilesa repetiu seu gesto na entrevista coletiva, na qual disse que teme por sua vida caso retorne à Etiópia. “O Governo etíope está assassinando o povo oromo, também o está privando das suas terras e de seus recursos. Eu, como oromo, concordo com esses protestos. Meus familiares estão presos e, se ousassem falar de direitos humanos, acabariam executados”. Ele acrescentou que ainda não sabe se voltará à Etiópia ou se irá morar em outro país. “Se não me matarem, vão me prender”, disse.

Sobre uma possível sanção do Comitê Olímpico Internacional, o maratonista disse: “Não posso fazer nada a respeito. Senti que devia fazer o gesto, tenho um problema muito grave no meu país e não tenho a opção de protestar no meu país”.

O Congresso Federalista Oromo – um partido oposicionista que defende os direitos dessa etnia – denuncia a morte de mais de 400 manifestantes nos protestos do começo de agosto em Oromia, uma cifra admitida como válida pela ONG Human Rights Watch, mas que nem a Reuters nem outras agências de notícias puderam confirmar de forma independente.

“O Governo etíope está assassinando o povo oromo. Se não me matarem, vão me prender”

Apesar da proibição à propaganda política, religiosa ou racial nos Jogos, a ação da Lilesa não foi o único protesto a ganhar destaque nesta Olimpíada. A espectadora iraniana Darya Safai levou um cartaz criticando o Governo de Teerã por proibir as mulheres de assistirem a jogos de vôlei no país. Nos Jogos de 1968, Tommie Smith e John Carlos, dois atletas americanos, subiram ao pódio dos 200 metros rasos com o punho erguido e cerrado, envolto numa luva negra. Smith e Carlos recordaram ao mundo que os negros, nos Estados Unidos e em muitas outras sociedades, continuavam sendo cidadãos de segunda classe.