O mundo olha para o Rio

A cidade, com todas as contradições, será olhada com lupa a partir das próximas horas

A campeã olímpica de vôlei de praia, Isabel, leva a tocha ao Cristo Redentor.
A campeã olímpica de vôlei de praia, Isabel, leva a tocha ao Cristo Redentor. EFE

Costuma-se dizer que o Rio de Janeiro é uma espécie de espelho do Brasil, o lugar onde se concentram todos os seus estereótipos (praia, natureza, samba, carnaval e alegria) e mazelas (pobreza, crise econômica, violência, abuso policial, trânsito e serviços precários). É para este contraditório Rio, belo e cruel, que o mundo olhará com lupa a partir das próximas horas, quando os 28º Jogos Olímpicos da era moderna serão inaugurados. Após uma certa confusão nas últimas semanas, com a opinião pública mundial apontando os diversos imprevistos, atrasos e gambiarras —o famoso jeitinho— relacionados com a organização do evento, espera-se que os olhares se voltem para as competições em si e que a cidade, duramente criticada inclusive pelos seus próprios moradores, mostre o seu melhor lado e se reconcilie com si mesma.

Até agora, os atletas vêm sendo secundários. O Exército brasileiro vigia ruas e estradas congestionadas, abarrotadas de carros dirigidos por motoristas que observam com inveja a pista reservada para a família olímpica, aparentemente vazia e rápida, mas igualmente lenta e saturada; a recém-inaugurada linha 4 do metrô, que liga a Ipanema turística à Barra olímpica, circula quase vazia; os jornalistas e turistas com senso de aventura passeiam pelas favelas e se perdem, para depois descer apregoando que não há perigo, que os cariocas são encantadores e os ajudaram; os dirigentes do esporte mundial falam sobre doping, criticam e temem engarrafamentos, atrasos, estádios vazios e o recente pedido de empréstimo do Comitê Olímpico Internacional (COI), que não consegue encontrar dinheiro para cobrir os custos operacionais, uma conta diferente daquela relativa à construção das instalações, que gira em torno de 2,3 bilhões de dólares (aproximadamente 7,4 bilhões de reais); já os atletas esperam escondidos, impacientes, sua hora em seus apartamentos na Vila Olímpica, onde se cruzam e se cumprimentam a caminho do refeitório ou do ponto de ônibus que demorará horas para levá-los às suas instalações para treinar.

Nesta quinta-feira, o Rio viveu uma incomum tranquilidade. O feriado que o prefeito Eduardo Paes (PMDB) decretou em cima da hora, por causa da passagem da tocha pela cidade, pareceu servir como uma espécie de último descanso antes da festa ou do caos começarem. Os cariocas passeavam alheios ao evento pelas ruas da Zona Sul, região nobre da cidade. Alguns querem que comecem logo; outros, que acabe logo. A cor olímpica, os cartazes, os anúncios e as referências vão pouco a pouco ocupando os restaurantes e lojas, ao mesmo tempo que os moradores de Copacabana e Ipanema já começaram a dividir o espaço com os turistas de todas as partes do Brasil e do mundo.

A ex-jogadora de voleibol Fernanda, que viajava nesta quinta de São Paulo para o Rio para ver os Jogos, resume o conflito de sentimentos de muitos cariocas e brasileiros neste momento. "Com todos os nossos problemas, com nossa saúde e educação pública péssimos, não estávamos preparados para gastar tanto dinheiro numas olimpíadas", argumenta a esportista, que poderia ser confundida com um membro da delegação brasileira. Com tênis, calça e unhas azuis, camiseta verde, relógio e bolsa amarelos e brincos da bandeira do Brasil, ama esportes e tem ingresso para ver partidas de handebol masculino, vôlei de quadra feminino, vôlei de praia, entre outros, nos próximos dias. "Agora temos que aproveitar a festa!", conclui.

Enquanto a cidade vai ficando olímpica, os problemas de sempre persistem. Na mesma Ipanema turística, os vendedores ambulantes, sejam de comida ou de artesanato, reclamam que os fiscais da prefeitura os impedem de trabalhar. "Os turistas vêm aqui e querem levar alguma lembrança, querem ser bem acolhidos. Ao invés da prefeitura estimular o nosso trabalho e fazer nosso cadastro, mandam os fiscais virem aqui e roubar nossa mercadora. Não apreendem, roubam mesmo, porque eu peço para ver onde está e eles não deixam, dizem que o material foi doado", diz Evandro Mendes, que usa madeira e couro que encontra do lixo para fazer instrumentos como cuíca, maraca, berimbau, entre outros. Ao seu lado, o pintor Marco Antônio discute com um policial militar que lhe havia repreendido. "Mandou eu calar a boca e me foder... Não aturo falta de respeito, sou um cidadão como qualquer outro. Agora, se eu faço isso no morro, já teria levado umas porradas ou tiros", conta este morador da favela do Cantagalo, onde tem um projeto social chamado Rio Alegre Arte.

Como lembrou o jornalista Brian Winter, ex-correspondente da Reuters, neste artigo, o Rio foi escolhido em 2009 para sediar os Jogos num momento em que o país se preparava para crescer 7% no ano seguinte e todos os problemas poderiam ser resolvidos. "Parecia plausível naquela época", diz. Sete anos depois, o Estado do Rio decretou calamidade pública em suas finanças, a Baía de Guanabara continua poluída, a pacificação nas favelas está ameaçada, parte da população promete tomar as ruas contra jogos e contra o Governo interino de Michel Temer... Os obstáculos de hoje não são de hoje, mas de sempre, e sete anos não foram suficientes superá-los. Mas teriam sido caso tudo tivesse dado certo? "O Brasil tentou, não por causa de um cego otimismo, mas porque tinha um sonho real, aparentemente atingível. Acho que merece algum crédito e um pouco de paciência, por terem buscado algo melhor", completa Winter. Em outras palavras, como também costuma-se dizer, "é o que tem pra hoje".

Expectativas no Esporte

C. A., Rio de Janeiro

O mundo, as grandes empresas e as agências de marketing esperam, como em Pequim 2008 e Londres 2012, que Michael Phelps e Usain Bolt, as figuras de dois dos esportes mais olímpicos, natação e atletismo, que nasceram de forma competitiva com os Jogos e devem a eles seu auge e suas lendas, continuem acumulando vitórias. Mas, e a novidade merece destaque por ser extraordinária, aos dois gigantes será obrigatoriamente acrescentada a figura incrível de Simone Biles, a norte-americana que devolverá a ginástica ao lugar que merece, o estrelato olímpico.

Do eterno Michael Phelps acredita-se que conseguirá pelo menos mais três medalhas de ouro para acrescentar às 18 conquistadas entre Atenas 2004, Pequim e Londres, e que passará a figurar –ao lado do lançador de disco Al Oerter e do velocista e saltador Carl Lewis– na lista dos únicos atletas que ganharam quatro medalhas de ouro em quatro jogos consecutivos em uma especialidade ao menos. Usain Bolt busca novamente desatar “sua justa ira” (assim ele define sua motivação para competir) contra os norte-americanos que o provocam. O jamaicano é favorito para conseguir o triplo-triplo, três ouros para somar aos três de Pequim e aos três de Londres nos 100m, 200m e no revezamento. Biles, de 19 anos, chega virgem em relação às competições olímpicas, mas ganhou os três últimos Mundiais: o Rio será sua consagração popular.

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