Atentado em Nice

“Leve mais armas”, escreveu por SMS o terrorista de Nice minutos antes do atentado

Nos dias anteriores, Lahouaiej Bouhlel passou com seu caminhão duas vezes pelo lugar do ataque

Policiais franceses patrulham o centro de Nice. GIANLUCA BATTISTA / QUALITY (reuters_live)

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A mensagem foi enviada do telefone celular de Lahouaiej Bouhle encontrado na cabine do caminhão depois que a polícia matou a tiros o terrorista, que acabou no banco do passageiro depois de fazer vários disparos que não alcançaram os agentes. O receptor era seu amigo, integrante do grupo mais próximo a Lahouaiej Bouhlel e com quem cometia pequenos delitos comuns.

Depois de analisar o celular e descobrir essa mensagem, uma unidade especial antiterrorista de cinquenta homens participou da operação para prender Choukri e outros três amigos do terrorista. Foi um deles que disse à polícia que Lahouaiej Bouhlel havia se radicalizado nas últimas semanas.

As fontes indicam que, apesar de inicialmente essas quatro detenções terem ocorrido pela suspeita de que eram cúmplices de Lahouaiej Bouhlel, os investigadores acreditam que não se trata de uma célula jihadista nem têm nada a ver com atividades terroristas, mas com simples crimes comuns, para os quais chegaram a utilizar armas de fogo. Uma delas, uma pistola de calibre 7.65, foi encontrada no interior do caminhão.

O autor do ataque que custou a vida de 84 pessoas em Nice na quinta-feira passou em duas ocasiões em dias prévios pela zona do atentado com o caminhão que utilizou para atropelar as pessoas. Fontes da investigação indicaram que as duas passagens do veículo foram gravadas por câmeras de segurança.

O terrorista, motorista por profissão, havia alugado o veículo três dias antes do atentado, ocorrido na noite do dia 14, durante os fogos de artifício que a multidão observava da Promenade des Anglais. Foi esse local que Lahouaiej Bouhlel percorreu nos dias 12 e 13 e ao qual regressou no dia 14 para investir contra centenas de pessoas, até ser abatido por disparos da polícia.

Forças especiais de segurança prenderam neste domingo outra duas pessoas do entorno do terrorista. Trata-se de um homem e uma mulher. Já são sete os detidos, entre os quais se inclui sua ex-mulher, Hajer, que estava prestes a concluir a tramitação do divórcio, depois de sofrer maus-tratos do marido.

O Estado Islâmico (EI) se responsabilizou no sábado pelo atentado e qualificou Mohamed Lahouaiej Bouhlel, nascido em Túnis e com permissão de residência na França, como um de seus “soldados”. O grupo jihadista difundiu através de seus canais habituais um vídeo no qual inclui imagens de atentados como os de Bruxelas, Orlando e Nice. “Quem será o próximo?”, diz uma voz em off.

O Governo francês acredita que o terrorista, que não era religioso praticante, experimentou um processo de radicalização muito rápido e recente, provavelmente através da Internet.

Seus amigos interrogados fizeram referência a que, nas últimas semanas, Lahouaiej Bouhlel, de 31 anos, dizia comportar-se de acordo com estritas normas do islã, apesar de que, ao longo dos últimos anos, nunca ia a mesquitas nem respeitava o Ramadã. Pelo contrário, tomava bebidas alcoólicas habitualmente e era uma pessoa violenta. Em março foi condenado a seis meses de prisão por bater com um bastão de beisebol em outro motorista com o qual teve um incidente de trânsito.

"Quem será o próximo?", disse uma voz em off em um vídeo difundido pelo Estado Islâmico na noite de sábado

O primeiro-ministro Manuel Valls afirmou que os atentados terroristas continuarão ocorrendo na França durante muito mais tempo. “O terrorismo faz parte de nossas vidas”, disse ao Journal du Dimanche, e é preciso estar consciente de que “outras vidas serão ceifadas”. No entanto, Valls alerta sobre a tentação de buscar soluções rápidas, às vezes passando por cima da lei. “Vejo na escalada de propostas que aumenta a tentação de pôr em questão o Estado de Direito.”

Valls se referiu assim às críticas que surgiram da direita e da extrema direita à política antiterrorista do Governo e às medidas propostas em casos como o do candidato norte-americano Donald Trump, que propunha a expulsão dos muçulmanos de seu país. “A resposta ao Estado Islâmico não pode ser a trumpenização das mentes.”

Para Valls, os políticos que censuram o esquema de segurança em Nice ou que pedem mais linha dura são “irresponsáveis”, pois deles se espera “dignidade” em momentos tão dramáticos para o país. A essas críticas se somou o sindicato policial Alliance, que se queixou de que havia poucos agentes deslocados para a proteção na Promenade des Anglais (cinquenta). “É muito difícil deter um caminhão de 19 toneladas em grande velocidade”, havia dito na sexta-feira um representante desse mesmo sindicato.

Nos hospitais de Nice continuam internadas 85 pessoas, 18 delas em estado crítico, segundo informou neste domingo a ministra da Saúde, Marisol Touraine. Um dos mais graves é um menino.