Tiroteios em Dallas

A complexa fratura racial

Os problemas internos dos Estados Unidos perseguem o presidente Barack Obama onde quer que ele vá

O presidente Obama se dirige à mídia em Varsóvia.
O presidente Obama se dirige à mídia em Varsóvia.JONATHAN ERNST (REUTERS)

Os mais otimistas acreditaram que, com a vitória de um afro-americano nas eleições presidenciais de 2008, os Estados Unidos entrariam em um período de paz racial. Se o líder máximo era negro, a cor da pele deixaria de importar e o racismo, o mal fundacional do país, se tornaria marginal. Obama nunca acreditou nessas fantasias. Os fatos se encarregaram de desmenti-las. Os anos de Obama foram anos de desigualdades econômicas que as minorias sofreram de forma cruel. Também uma sucessão de episódios de violência policial contra pessoas negras, episódios conhecidos graças à facilidade do acesso a telefones com câmeras e à difusão nas redes sociais.

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Obama, como homem negro que sofreu discriminação no passado e a quem alguns cidadãos continuam vendo como um estrangeiro, assumiu um papel delicado. Esforçou-se para ser o presidente de todos os cidadãos dos EUA, independentemente de sua raça, etnia ou credo. Ao mesmo tempo, toda vez que se conhecem notícias de um novo assassinato por tiros da polícia, é capaz de colocar-se na pele das vítimas como nenhum político branco já conseguiu fazer. Outro equilíbrio: deve aparecer como defensor dos direitos civis —o movimento Black Lives Matter (As vidas negras importam) é o último elo na corrente de lutas pelos direitos dos negros— e ao mesmo tempo defender a honra da maioria dos policiais que, de boa-fé, preservam a ordem pública.

A concatenação de explosões violentas —as mortes de afro-americanos pelos tiros da polícia na Louisianna e em Minnesota e o ataque armado contra policiais em Dallas, capital informal da violência política nos EUA— cria uma dinâmica inédita em anos recentes. Ocorre em meio a uma campanha eleitoral na qual um dos candidatos atiça os ressentimentos contra as minorias. Convém recordar que o magnata Trump colocou nas bases de sua carreira política, anos antes de anunciar sua candidatura, o questionamento de que o presidente realmente tivesse nascido nos EUA e estivesse legitimado para exercer seu cargo, uma teoria da conspiração com traços racistas explícitos.

Obama atravessou o Atlântico para ajudar a pacificar uma Europa fraturada pelo referendo britânico e pelas incertezas quanto ao projeto comum, e se vê capturado pelas perturbadoras notícias que chegam de seu país. Os complicados problemas internos —a violência policial, o fácil acesso a armas bélicas, o populismo desenfreado— condicionam a influência da primeira potência mundial. Toda política local é global.