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Por que o dólar está caindo este ano?

Moeda norte-americana perdeu 19% do valor frente ao real nos primeiro semestre de 2016

Dólar registrou uma queda de 11% frente ao real no mês de junho.
Dólar registrou uma queda de 11% frente ao real no mês de junho.

No início do ano, o dólar cruzou a temida barreira dos 4 reais e chegou a ser cotado a 4,16 reais, o maior valor da história do Plano Real, implementado em 1994. A forte desvalorização do real refletia naquele momento a insegurança em relação ao cenário político-econômica do país. De lá pra cá, no entanto, a trajetória se inverteu, e, no mês de junho, a moeda norte-americana registrou uma queda de 11%, o maior recuo mensal desde abril de 2003, sendo cotada a menos de 3,20 reais. Mas por que o valor do dólar caiu tanto?

A queda acentuada não possui apenas uma causa, mas uma combinação de fatos externos e domésticos que dão força ao real, que já soma uma valorização de 19% nos primeiros seis meses do ano. Segundo analistas ouvidos pelo EL PAÍS, a forte arrancada da moeda brasileira no fim do mês passado foi influenciada pelos desdobramentos provocados pela instabilidade gerada pelo Brexit, mas também está relacionada às apostas que a taxa de juros no Governo interino de Michel Temer seguirá alta, a menor intervenção do Banco Central no câmbio,  e a uma maior confiança dos agentes financeiros na economia do país, sob nova direção desde que a presidenta Dilma Rousseff foi afastada no dia 12 de maio.

Desde que assumiu o comando do Banco Central, Ilan Goldfajn, vem dando sinais que não cortará a atual taxa básica de juros (Selic) de 14,5% - considerada bastante alta em relação a outros países da Europa e a dos EUA - , já que precisa dela para tentar abaixar a inflação atual de 8,84% para 4,5%. Juros mais altos elevam o custo do crédito para os brasileiros e o da produção, valor que acaba sendo repassado para os preços de produtos e serviços que consumimos diariamente. Dessa forma, a tendência é que, em um cenário em que os preços estão mais caros, as pessoas diminuam o consumo, o que, pela lei da oferta e a procura, faz com que a inflação caia.

É hora de comprar dólar?

Embora a desvalorização do dólar tenha sido elevada no último mês, os especialistas ainda recomendam cautela na compra da moeda americana para quem, por exemplo, está planejando uma viagem para o exterior. Como não é possível prever a tendência para os próximos dias, o mais recomendado é que a compra seja feita aos poucos.

"Quem quer comprar para uma viagem pode ser um bom momento sim. Mas no curto prazo pode ter espaço para uma queda maior, por isso, o bom mesmo é comprar pouco a pouco, porque há uma gama de fatores", diz o economista Luiz Castelli, da Go Associados. 

Ao mesmo tempo, o Governo tem indicado que não quer interferir na desvalorização do dólar, já que a queda do câmbio também pode contribuir para diminuir o índice de preços. Quando o dólar fica mais barato, vários produtos importados também se tornam mais baratos, afetando toda a cadeia produtiva. Segundo Miguel Daoud, diretor da Global Financial Advisor, o Governo tem feito poucas operações para controlar o valor da moeda norte-americana porque lhe convém o benefício que o dólar mais barato pode trazer.

"Temer não está dando sinais que reduzirá fortemente o déficit fiscal, não está cortando despesa, mas fala em levar a inflação para o centro da meta. Ele mostra que quer o dólar desvalorizado em relação ao real para aumentar o poder de compra dos brasileiros", explica. Ainda segundo Daoud, com a manutenção do juros alto, investidores tendem a trocar papéis atrelados a moeda americana por títulos atrelados a Selic, já que são mais rentáveis. Dessa forma, a demanda pelo dólar cai e faz o seu valor diminuir.

Para Olavo Souza, gerente de operações da corretora Mirae Asset, a estratégia de usar o dólar mais desvalorizado para reduzir a inflação não é a mais indicada. "É como um cobertor curto, você aquece uma parte, mas destampa outra. A inflação dá uma caída, porém, deixando a moeda mais valorizada, o país se torna mais caro e menos competitivo para o exterior, o que deve afetar a balança comercial", explica. Com o dólar mais fraco, os exportadores recebem menos reais com o comércio internacional, que negocia com a moeda americana. Por outro lado, as empresas brasileiras têm, em média 40% das suas dívidas atreladas ao dólar. Por isso, a queda barateia o custo dos empréstimos.

Humor dos mercados internacionais

O economista acredita, no entanto, que a maior parte da valorização do real no último mês tem a ver com a questão do humor dos mercados internacionais e, principalmente, com o efeito Brexit. "A decisão da saída do Reino Unido da União Europeia criou uma série de incertezas, uma fuga de capitais da Europa e passou uma percepção para o mercado de que os países emergentes com juros mais altos, como o Brasil, seriam uma boa alternativa", explica.

Souza ressalta, porém, que ainda é cedo para dizer se a desvalorização do dólar continuará durante este ano. "A tendência é que o mundo continue perdido nos próximos meses, ele ainda está assentando a ideia do que é o Brexit. A desvalorização da libra (que atingiu sua menor cotação nesta semana) desalinhou muita coisa".

Nesta semana, por exemplo, o movimento foi de valorização da moeda americana frente ao real, após o Banco Central decidir intervir na queda da divisa. Mas, nesta sexta-feira, o dólar voltou a recuar frente ao real,repercutindo a maior confiança dos agentes do mercado no ajuste fiscal após o Governo ter anunciado um rombo das contas públicas de 2017 menor que a deste ano. Nesta quinta-feira, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirmou que prevê um déficit de 139 bilhões para o próximo ano.

O recuo também foi turbinado pelo movimento nos mercados globais com a divulgação, na sexta-feira, do aumento na criação de vagas de emprego nos Estados Unidos e também pela ausência da intervenção do BC brasileiro.

A tendência do real, na opinião do economista, é que ele volte a seguir o movimento das moedas dos países emergentes, em que a economia depende das commodities. No ano passado,o real acabou se descolando dessas moedas por causa dos problemas internos. "Com a crise político-econômica do ano passado, o real se desvalorizou muito frente ao dólar em relação às moedas emergentes. Passado esse momento e com a possibilidade do impeachment, o real se valorizou mais, porque está recuperando a perda do ano passado, mas, no longo prazo, essas moedas andam juntas", explica.

O Brexit também contribui para que a possível alta de juros nos EUA - tão discutida no último ano - seja adiada. Com o clima de incerteza global, a cautela em tomar a decisão aumentou ainda mais, o que também ajuda a valorizar o real, já que faz com que os investidores continuem mantendo seus investimentos em países como o Brasil, onde a taxa de juros é elevada, gerando alta rentabilidade.

Na opinião de Sérgio Valle, da MB Associados, a provável decisão do afastamento da presidenta Dilma Rousseff que deve acontecer em agosto, juntamente com as medidas do ajuste que serão levadas ao Congresso podem apreciar ainda mais o real. "O grande risco que era o cenário conturbado da Dilma passou, o novo Governo ainda que não tenha consolidado muitas medidas mostra ser reformista, o que pode gera mais confiança do mercado", diz o economista que não descarta a possibilidade do dólar chegar a ser cotado neste ano a 3 reais.

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