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Bem-vindo ao Brasil, meu amigo Karl Ove

Parece impossível se aproximar tanto de alguém sem desenvolver algum tipo de amizade

O norueguês Karl Ove.
O norueguês Karl Ove.Claudio Álvarez

Bem-vindo ao Brasil, meu amigo Karl Ove. Vai desculpando a intimidade, você não me conhece, mas é como se eu te conhecesse há uns 20 anos, e olha que eu mal terminei de ler o primeiro volume da sua luta.

É engraçado, mas parece impossível se aproximar tanto de uma pessoa sem desenvolver algum tipo de amizade. Que essa aproximação ainda possa ser feita por meio de um livro, hoje em dia, é algo espantoso — e a verdade é que provavelmente nunca haverá nada, fora o contato humano direto e constante, capaz de aproximar tanto quanto a literatura.

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Karl Ove Knausgård, o "Marcel Proust nórdico”, é como você me foi apresentado. É um cartão de visita perigoso, a gente fica desconfiado. Mas, quatro volumes em busca do tempo perdido depois, Marcel ainda não me deixou chegar tão perto quanto você permitiu em um único livro. Não é qualquer memória ou romance autobiográfico, portanto, que permite tanta intimidade.

Vai ver é esse clima de reality show do Minha Luta que leva a gente a seguir espiando para saber até onde vai a exposição auto-depreciativa voluntária, que eu não sei dizer ainda se é algum tipo de pedido público de desculpas ou a mera tentativa de conviver com os próprios defeitos enquanto ganha algum dinheiro e satisfação intelectual com isso. Ou talvez a gente siga lendo por conta do fascínio do "baseado em fatos reais" — se é que você conta toda a verdade mesmo, e lembra de tudo com tantos detalhes sem precisar romantizar — na esperança de distinguir o que em nós é normal ou uma peculiaridade impublicável

Pois bem, você publica o impublicável sobre sua vida, seus choros ridículos outrora escondidos, suas derrotas, sua fraquezas, seus sentimentos mesquinhos e injustos com pessoas que só querem o seu bem, a tentativa brega do seu pai de recomeçar a vida tarde demais com uma mulher mais jovem, a brutalidade dele na relação com os filhos, o dia em que ele debochou cruelmente da sua língua presa — por que contar a história da língua presa? Sabia que dizem por aí que você tem uma obsessão por fezes? — eu ainda não cheguei nessa parte.

Mas eu não quero te julgar Karl — posso te chamar só de Karl? Porque você já faz isso muito bem, com muito mais naturalidade e honestidade do que eu tinha visto até abrir A morte do pai. Além do mais, depois de começar a ler o livro, por mais incômodo que seja, vez ou outra, se confrontar com esse strip tease da alma, a gente passa a acreditar que essa é a única forma possível de se escrever sobre si mesmo. E mesmo que não fosse: nossa amizade chegou naquele ponto em que eu consigo encontrar virtudes até nos seus defeitos.

Em tempos de acirramento político, de batalhas navais ideológicas em poças d'água, é bom lembrar — e seu livro fez isso comigo — que aquele seu amigo de infância que virou um monstro inquisidor nas redes sociais continua sendo o mesmo moleque que tinha medo de dormir com a luz apagada. Só mudou o motivo do medo dele, além da quantidade de feridas que ele acumulou ao longo da vida. As coisas também vão tensas assim na Noruega e na Suécia?

Bem, isto tudo foi apenas para agradecer sua coragem, celebrar sua irresponsabilidade de expor a própria vida e a privacidade das pessoas mais próximas e reconhecer seu estilo, constatar o seu sucesso e desejar que você tenha uma boa estadia no Brasil e que seja muito bem tratado na Festa Literária Internacional de Paraty. Se sentir que a luta precisa continuar, não deixa de contar como foi o passeio por aqui, no volume sete ou oito.

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