Sete são indiciados por envolvimento em estupro coletivo de jovem no Rio

Entre os suspeitos está o chefe do tráfico da favela onde o crime aconteceu e um menor de idade

Menor que foi vítima de estupro coletivo deixa o Hospital Souza Aguiar, acompanhada da mãe.
Menor que foi vítima de estupro coletivo deixa o Hospital Souza Aguiar, acompanhada da mãe. Gabriel de Paiva (Ag. O Globo)

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Entre os indiciados está Raí de Souza, de 22 anos, que manteve relações sexuais consentidas com a vítima na madrugada do crime e que está preso desde o 30 de maio. Ele, que em seu primeiro depoimento à polícia se apresentou sorrindo ante as câmaras e negou ter participado do crime, vai responder por estupro de vulnerável, mas também pela produção e transmissão de cenas pornográficas da adolescente. Os crimes estão castigados com penas máximas de 15, 8 e 6 anos de prisão, respectivamente. O celular do Raí foi, de fato, a principal fonte de investigação e onde foram achados os vídeos e as mensagens trocadas com outros envolvidos para combinar seus depoimentos. “A apreensão do celular foi muito importante, até para delimitar as personalidades de cada um [dos envolvidos]”, disse a delegada do caso Cristiana Bento.

Outro dos indiciados que responderá também pelos crimes de estupro e produção das imagens é o cinegrafista Rafael Belo, de 41 anos. O rosto de Belo, que também está preso, aparece em uma das fotos tomadas junto a vítima desacordada e aparece num dos vídeos introduzindo objetos na vagina da menor.

Com o encerramento do inquérito foi pedida a prisão preventiva para mais cinco homens que estariam foragidos: o traficante Moisés Camilo Lucena, o Canário, identificado pela vítima como um dos homens que a segurou durante a violação, e o chefe do tráfico da comunidade onde o crime aconteceu, Sergio Luiz da Dilva, o Da Russa. Não há provas de que o Da Russa tenha participado do estupro, mas será indiciado pelo crime de estupro por ele ter conhecimento do que estava acontecendo, pois o quartel-general do tráfico fica do lado do lugar conhecido como abatedouro, onde a menina foi estuprada.

Outros dois jovens, Michel Brasil e Marcelo Miranda, de 20 e 18 anos, não responderão pelo estupro de vulnerável, mas sim por serem os primeiros em divulgar as imagens. Por último, a polícia procura um menor, o Perninha, também envolvido no tráfico de drogas e que responderá, como menor, aos crimes de estupro de vulnerável, produção e transmissão das cenas pornográficas da adolescentes.

No começo do inquérito, o jovem foi identificado por Raí de Souza como o Jefinho, mas as conversas contidas no seu celular, que ele escondeu em casa de um amigo, demonstraram que tanto Rafa como Raí combinaram seus depoimentos para proteger o menor. O jogador de futebol e ex-namorado da vítima que chegou a ser preso, Lucas Perdomo, foi excluído da denúncia pois não foi demonstrada sua participação.

Os problemas dos indiciados não terminam aqui. Parte dos resultados da investigação desse caso passaram à Delegacia de Combate às Drogas, onde serão investigados os indícios que relacionam a grande parte dos acusados com o tráfico.

Comoção e controvérsias

A delegada assumiu o inquérito no dia 29, após o afastamento do colega Alessandro Thiers, da divisão de crimes informáticos, que questionou a existência do estupro e foi acusado pela então advogada da adolescente de constrangê-la em depoimento. Nesta sexta, Bento reafirmou que o crime, que provocou forte comoção e marchas de mulheres em várias cidades, passará à história porque fez pensar a sociedade “sobre o conceito e a cultura de estupro” no Brasil, que busca “culpar a vítima o despenalizar o agressor”. A delegada disse acreditar que os indícios colhidos por ela são suficientes para conseguir a condenação dos suspeitos. "Espero que esse caso tenha uma punição exemplar. Esse caso serve como alerta para toda a comunidade. A mulher não é uma coisa, tem que ser respeitada e praticar sexo com adolescente desacordada, que não pode oferecer resistência é crime. Eles não têm consciência de que houve um estupro ali", disse a delegada.

Cronologia do caso

21 de maio: De madrugada, a vítima de 16 vai com uma amiga num baile funk na comunidade do Barão, na zona Oeste do Rio. Ali se encontra com Raí e Lucas. A adolescente manteve relações sexuais consentidas com Raí em uma casa abandonada da comunidade, enquanto sua amiga ficava com Lucas. Por volta das 10h da manhã, Lucas, Raí e a amiga abandonam a casa deixando a adolescente no local. Encontrada pelo traficante Moisés Camilo de Lucena, o Canário, foi levada para o local conhecido como abatedouro, onde aconteceu o estupro.

22 de maio: À noite, Raí aparece no abatedouro e, acompanhado de Rafael Belo, o Perninha e o Canário, abusam da jovem e a gravam desacordada. A vítima declarou que o dois homens a seguravam enquanto outros dois a estupraram.

24-25 de maio. Os vídeos começam a se espalhar e chegam à família da jovem.

26 de maio. A adolescente presta seu primeiro depoimento ao delegado Alexandre Thiers, que acabou sendo afastado do caso no dia 29 de maio por constranger à vítima com questionamentos sobre as preferencias sexuais da jovem. O novo destino de Thiers, que está de férias, ainda não foi definido.

27 de maio: A jovem presta mais depoimentos e Lucas Perdomo e Raí se apresentam na delegacia.

30 de maio: A Polícia Civil monta uma operação para prender seis envolvidos no crime. Raí e Lucas, que foi liberado das depois por falta de provas, sao detidos. O resto estão foragidos.

31 de maio: A vítima entra no programa de proteção a testemunhas e abandona o Estado, sob outra identidade, com a família.

1 de junho: Rafael Belo é preso após se apresentar na delegacia. O inquérito continua com ordens de busca e apreensão e perícias no lugar do crime e nos materiais apreendidos.

17 de junho: O inquérito conclui com a participação de cinco pessoas no estupro e acusação de mais dois jovens por divulgar às imagens.

A pergunta que Bento mais ouviu nesses dias foi se realmente foram 33 os agressores da adolescente - como deram a entender as primeiras postagens do vídeo nas redes sociais e como a vítima afirmou no seu primeiro depoimento. Bento afirmou que esse número é pouco provável e explicou que a adolescente, que mudou de Estado sob a proteção do programa de testemunhas, pode ter tido uma falsa memória devido ao trauma. O caso, como lembrou a delegada, não é único no Rio, que registra um estupro a cada duas horas. Antes de assumir a investigação que chocou o Brasil, Bento acabava de concluir um caso parecido que correu sem holofotes: uma menina de 13 anos estuprada por quatro milicianos.

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