Crise migratória

Encontrados 117 cadáveres de náufragos em praia na Líbia

Os corpos estão esturricados pelo sol e em avançado estado de decomposição

Vários cadáveres apareceram em uma praia a oeste de Trípoli.EFE | Vídeo: QUALITY

O mar Mediterrâneo conheceu mais um dia terrível nesta sexta-feira, embora as dimensões da tragédia ainda não estejam claras. Cadáveres de pelo menos 117 migrantes foram encontrados nas últimas horas em praias da costa oeste da Líbia, segundo informou na noite de quarta-feira em sua página no Facebook a seção da Meia Lua Vermelha na cidade líbia de Zuara. Os migrantes teriam se afogado depois de sua embarcação virar durante travessia em direção à Itália. Até o momento, enquanto as autoridades costeiras de Zuara efetuam uma operação de resgate de possíveis sobreviventes, não se sabe quando o naufrágio ocorreu e quantas pessoas estavam na embarcação.

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Nos últimos dias, com a chegada de um clima mais favorável, multiplicou-se o número de embarcações que partem das praias líbias em direção aos litorais europeus. Segundo estimativa do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) com base em entrevistas feitas com migrantes resgatados, só na semana passada 800 migrantes se afogaram ao tentar cruzar o Mediterrâneo em direção à Itália.

Em sua página no Facebook, a Meia Lua Vermelha publicou dez fotografias em que se veem várias pessoas transportando cadáveres envolvidos com sacos plásticos brancos e depositando-os em uma ambulância estacionada na praia. Al Kamis al Bossaifi, porta-voz da organização humanitária na Líbia, afirmou à agência EFE que a maioria das pessoas encontradas mortas parecem ser migrantes oriundo da África subsaariana. O fato de os corpos já estarem em um estado avançado de decomposição dificulta, no entanto, a sua identificação.

A notícia trágica coincide com o naufrágio de uma embarcação com centenas de migrantes ocorrido cerca de 100 quilômetros ao sul da ilha de Creta, na Grécia, segundo informação da guarda costeira do país. Até a manhã desta sexta-feira, 340 pessoas tinham sido salvas de uma embarcação que afundava. Além disso, pelo menos quatro cadáveres foram resgatados.

Apesar dos fortes ventos existentes na região, as equipes de resgate, que utilizam cinco navios, um avião e dois helicópteros, intensificaram o trabalho de busca de dezenas de possíveis sobreviventes. Segundo declarações dadas pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) à agência AFP, até 700 pessoas podem ter embarcado nesse barco. Os guardas costeiros gregos, porém, se recusam a fazer especulações sobre esse dado. Até o momento, ainda não se conhece a nacionalidade dos migrantes salvos e das vítimas, bem como de onde teria partido a embarcação de madeira que os transportava.

Desde a assinatura de um acordo entre a União Europeia e a Turquia prevendo o repatriamento maciço de migrantes e refugiados que chegam às costas gregas, teme-se que o tráfego das embarcações se desvie no sentido da chamada rota central, que liga as costas líbias às italianas. Por essa via, a viagem é bem mais longa, e, portanto, mais perigosa do que partindo da Turquia. Por isso, a partida de embarcações diminui consideravelmente nos meses de inverno. As máfias que organizam o tráfico de refugiados e migrantes conseguem atuar com bastante liberdade na Líbia, já que o país se vê consumido por uma situação de caos desde a queda do regime de Gadafi, com a existência de três Governos paralelos.

“A maioria dos migrantes resgatados nos últimos meses tem origem subsaariana. Há poucos refugiados sírios, já que a Líbia e os países vizinhos enrijeceram a sua política de concessão de vistos”, explica Mohamed Elshabik, coordenador de emergências da ONG Médicos Sem Fronteiras, que mantém um escritório em Zarzis, uma cidade da Tunísia localizada a cerca de 40 quilômetros da fronteira com a Líbia. Fontes dessa organização confirmam a ocorrência de um naufrágio na costa líbia, embora afirmem que nenhum cadáver chegou a aparecer nas praias tunisianas.

De acordo com os cálculos do ACNUR, somente neste ano cerca de 200.000 pessoas fizeram o percurso em direção às costas europeias em embarcações precárias a partir da Turquia, Líbia ou Egito, com 2.510 mortes, ante as 1.855 registradas no mesmo período do ano passado. A agência da ONU estima que cerca de 880 pessoas morreram somente na semana passada nos diversos naufrágios ocorridos no mar Mediterrâneo, enquanto outras 14.000 foram resgatadas.

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