Advogada de garota carioca: “Vou pedir a saída do delegado do caso”

Eloisa Samy, que acompanha adolescente vítima de estupro, considera conduta imprópria Polícia detém suspeito do crime em operação em comunidade na Zona Oeste do Rio

Mulher participa de ato contra violação de garota carioca no Rio.
Mulher participa de ato contra violação de garota carioca no Rio.Antonio Lacerda (EFE)

Ativista de direitos humanos, a advogada ofereceu assistência jurídica à garota e sua família. Para Samy, a insistência de Thiers de que é necessário um exame de corpo de delito para falar em estupro não é aceitável. "A palavra da vítima basta em caso de estupro de uma mulher. Se tivesse sido um furto de celular, de um relógio, isso não aconteceria. O que precisava além do vídeo mostrando a moça desacordada, nua, para que a palavra da vítima fosse reconhecida e legitimada? As imagens são cristalinas."

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No vídeo publicado na Internet, a moça aparece desacordada em uma cama, enquanto homens a filmam. Um deles exibe sua pelve ensanguentada. "Olha como que tá. Sangrando. Olha onde o trem passou. Onde o trem bala passou de marreta." A divulgação das imagens, em que os envolvidos também mencionam que "mais de 30" a "engravidaram", deram origem à apuração do caso.

Neste sábado, como parte das investigações, 70 policiais militares participaram de operação no Morro do Barão, parte do Complexo São José Operário, na Zona Oeste do Rio, onde as autoridades já haviam localizado a casa onde as imagens foram feitas. Uma pessoa foi detida, mas não havia sido identificada até a publicação deste texto.

Na sexta, três suspeitos de envolvimento no caso prestaram depoimentos e foram liberados. Um deles, Lucas Perdomo Duarte Santos, de 20 anos, que teve relacionamento com a adolescente no ano passado, afirmou à polícia que não manteve com a moça relações sexuais com penetração. Raí de Souza disse ter mantido relações sexuais consentidas com a adolescente e afirmou que as imagens foram feitas por seu celular, mas que não é responsável pela divulgação. Segundo o Estado de S. Paulo, o advogado de Santos, Eduardo Antunes, afirmou que Souza expôs foto da jovem no WhatsApp.

Após prestar depoimentos, todos foram liberados. "A polícia só vai pedir algum tipo de prisão se for comprovada a existência do crime e se houver necessidade", afirmou o delegado Thiers, segundo a Folha. "A gente está investigando se houve consentimento dela, se ela estava dopada e se realmente os fatos aconteceram. A polícia não pode ser leviana de comprar a ideia de estupro coletivo quando na verdade a gente não sabe ainda", disse.

Samy criticou as liberações: "Como essas imagens chegaram na Internet, por mágica? Eles confessaram que compartilharam". Divulgar imagens de menores de idade - a garota tem 16 anos - é crime previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) com pena de prisão de três a seis anos. Em 2009, a lei 12.015 do Código Penal Brasileiro foi alterada e passou a considerar, além da conjunção carnal, atos libidinosos não consentidos como crime de estupro.

Inscrição na casa onde crime ocorreu, no morro do Barão.
Inscrição na casa onde crime ocorreu, no morro do Barão.Polícia Civil do Rio (Divulgação)

Santos e Souza afirmam que a moça não foi estuprada - referindo-se à prática sexual com penetração -  e afirmam que um grupo chegou à casa em que se cometeu o crime na Zona Oeste do Rio após um baile funk. A adolescente diz que, depois de encontrar Souza, acordou no imóvel rodeada de homens armados. De acordo com a advogada Eloísa Samy, o crime aconteceu no domingo, e não na sexta dia 20, como a garota havia dito inicialmente. No primeiro depoimento, ainda de acordo com Samy, ela ainda estava confusa, sob efeito de dopagem. "Ela segue sendo alvo de ameaças verbais no Facebook. O vídeo segue sendo compartilhado. Ela começa a apresentar sinais de síndrome do pânico", afirma a advogada.

"Fui a um baile. Fui ao encontro ao meu ex na casa dele e dormi. Quando acordei, acordei em outra casa. A luz estava acesa e havia um montão de gente em cima de mim", disse, em entrevista ao jornal O Globo. Ela disse ter sido violentada "em todos os lugares em que você possa imaginar", inclusive com objetos. "Tem outro vídeo, só dos objetos... eu chorei e fiquei batendo neles".

Não é a primeira vez que a advogada Eloisa Samy e o delegado Alessandro Thiers se cruzam em um caso. Samy esteve entre as 23 pessoas denunciadas à Justiça e que chegaram a ter a prisão decreta em 2014 sob a acusação de planejar e participar de protestos violentos no Rio durante a Copa do Mundo. Thiers foi o responsável pelo inquérito, que os acusava de formação de quadrilha.

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