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Reações ao estupro coletivo da jovem carioca mostram um país indignado

Fortes movimentos nas redes sociais e reações oficiais vêm à tona enquanto o crime é investigado

O estupro coletivo de uma jovem de 16 anos, mãe de um menino de três, gerou uma enxurrada de reações nas redes sociais e em organizações sociais desde que veio à tona, em 25 de maio. Em breve, é esperado que ela tome as ruas, com uma série de protestos que começam a ser convocados em diferentes cidades brasileiras, especialmente no Rio de Janeiro, onde a barbárie aconteceu. O crime – que, segundo o depoimento da jovem e o de sua mãe, foi premeditado pelos 33 homens envolvidos, provavelmente incluindo o namorado da vítima – caiu na Internet por obra dos próprios agressores, orgulhosos do que haviam feito, e só então chegou às autoridades. Depois, apareceu na imprensa nacional e inclusive na internacional.

Estupro coletivo no Rio
Ativistas reagem ao crime registrado no Rio.

As mensagens que circulam são de repúdio à selvageria que chocou o Brasil e o resto do mundo – apesar de muitos terem compartilhado criminosamente as imagens da violência sofrida pela menina em seus perfis pessoais antes do caso explodir. Poucas horas depois que isso aconteceu, na quinta, a hashtag #EstuproNuncaMais começou a escalar o ranking de tendências do dia no Twitter, onde tudo começou. Nesta sexta, foi a vez da campanha #EstuproNãoÉCulpaDaVítima, que reage aos fartos comentários machistas que atribuem à vítima a culpa pelo que ocorreu, encabeçar os trending topics.

No Facebook, além de um filtro para fotos de perfil que foi disponibilizado com os dizeres “Eu luto pelo fim da cultura do estupro”, circulam convites diversos a manifestações solidárias à jovem carioca e em prol da integridade das mulheres. O mais compartilhado até o momento, com organização de militantes feministas, é o Por Todas Elas – que convoca a sociedade para sair às ruas em 1 de junho em cidades como São PauloBelo Horizonte, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Especialmente no Rio, haverá uma agenda quase diária de atos a partir desta sexta, 27 (na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), até o sábado 4 de junho (na estação do sistema de transporte BRT de Santa Cruz, na zona oeste).

A presidenta afastada, Dilma Rousseff, foi uma das que adotou já na quinta-feira o avatar da foto e também postou em seu perfil oficial: “Presto minha total solidariedade à jovem, menor de idade, estuprada por vários homens no Rio de Janeiro. Além de cometerem o crime, os agressores ainda divulgaram fotos e vídeos da vítima, desacordada, na internet. Uma barbárie”.

Nesta sexta, uma primeira medida oficial foi tomada pelo presidente interino a respeito do escândalo desatado há dois dias. Michel Temer acionou seu ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, que convocou para a próxima terça-feira, 31 de maio, uma reunião com todos os secretários de justiça dos Estados. O objetivo, segundo o anúncio feito pela reportagem do canal Globonews, é disponibilizar todos os meios disponíveis de investigação para identificar os envolvidos e também discutir formas de controle e combate efetivos desses crimes. Além disso, o presidente interino anunciou a criação de um departamento na Polícia Federal para combater crimes contra a mulher. No Rio, o deputado Marcelo Freixo (PSOL), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, está acompanhando o caso.

Antes disso, algumas notas categóricas de rejeição ao crime e aos que muitos chamam de cultura nacional do estupro já tinham sido emitidas por organizações sociais como a ONU Mulheres e Ordem dos Advogados do Brasil. Esta última, através da Seccional do Rio de Janeiro e da Comissão Permanente OAB Mulher, ofereceu assistência jurídica à família da jovem carioca e declarou que “precisamos lutar contra a violência em cada lar, em cada comunidade, em cada bairro. A revolta e a mobilização são claros indícios de que a indignação social se faz fortemente presente”.

Ilustração que circula nas redes com o mote #EstuproNãoÉCulpaDaVítima.
Ilustração que circula nas redes com o mote #EstuproNãoÉCulpaDaVítima.

Já a ONU pede que as vítimas não sejam culpadas pelas violações, que ademais, segundo a lei brasileira, configuram crimes hediondos. Cita também o estupro coletivo registrado em Bom Jesus, no Piauí, de uma menina de 17 anos que teve a boca amordaçada com a própria calcinha, e alerta: "Além de serem mulheres jovens, tais casos bárbaros se assemelham pelo fato de as duas adolescentes terem sido atraídas pelos algozes em tramas premeditadas e terem sido violentamente atacadas num contexto de uso de drogas ilícitas", afirma o texto. Em entrevista à Globonews, a advogada brasileira Margarida Pressburger, responsável pelo Subcomitê para Prevenção da Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanas ou Degradantes da ONU, declarou: “A mulher não tem que se defender, tem que ser normalmente respeitada”. Outra organização a se posicionar foi a União Nacional dos Estudantes, cujas diretoras gravaram um vídeo dizendo “não à cultura do estupro”.

Na imprensa internacional, a notícia repercutiu como mais um golpe à imagem do Brasil, nublada pela atual crise política e econômica, e especialmente à do Rio de Janeiro – que em menos de dois meses abrigará os Jogos Olímpicos. O jornal The Times of India titulou sua matéria sobre o assunto com "O Brasil encara sua própria crise de Nirbhaya", em referência ao episódio de 2012 em que uma estudante indiana foi estuprada por uma gangue em um ônibus em movimento em Nova Déli e morreu em decorrência de graves ferimentos internos.

A jovem carioca, que nesta quinta-feira passou por exames médicos e tomou um coquetel de drogas contra doenças venéreas, também se manifestou através das redes sociais, agradecendo as mensagens que recebeu e confessando que na realidade esperava ser condenada pelo ataque que sofreu. “Não dói o útero, dói a alma”, finalizou. Ela deverá passar agora por acompanhamento psicológico na rede municipal.

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