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Celso Amorim: “Somos vistos como ponto de equilíbrio do continente. Não podemos perder isso”

Ex- chanceler, cujas políticas foram criticadas por Serra, diz que "radicalização" do discurso é prejudicial

Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores sob Lula e Dilma (2004-11), foi o mais longevo chanceler da história do Itamaraty. Com a chegada do Governo interino de Michel Temer, vê as bases da política externa que ele representou serem alvo de críticas do atual titular da pasta, José Serra, que considera a gestão anterior "partidária", leniente com os Governos de esquerda da região e sem resultados comerciais. Nesta entrevista por telefone ao EL PAÍS, Amorim analisa as mudanças.

Antônio Araújo (Ag. Câmara)

Pergunta. Quais as perspectivas diplomáticas do Brasil hoje, sob nova direção, mais à direita?

Resposta. Mesmo os países que se beneficiam, do ponto de vista político, dessa nova tendência, vão ser cuidadosos. Porque o que está acontecendo no Brasil é algo muito contestável. Às vezes, os procedimentos podem ser legais, mas o conteúdo não. Uma coisa é mudar um presidente com um consenso nacional, outra é você ter uma mudança de projeto. Quem votou contra a Dilma não fez isso pelas pedaladas fiscais, nem por causa dos decretos, mas porque tem ódio do PT. O que dá um sabor de golpe a toda essa situação é que estamos trocando um projeto consagrado nas urnas por um projeto oposto. De fora para dentro, isso é preocupante também. Por isso, o presidente da OEA se manifestou, assim como o secretário-geral da Unasul. Os Governos de outros países estão cuidadosos, não querem dizer nada que pareça um endosso.

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P. O que se espera, a seu ver, da política externa do país sob o novo ministro, José Serra?

R. Temo, por exemplo, que haja uma menor integração da América do Sul. Há uma total falta de entendimento sobre o que significa o Mercosul. Não se trata de uma mera negociação comercial. Quando ele nasceu, ainda nos tempos do Sarney, era um projeto de paz na região e de democracia, como os países haviam acabado de sair de golpes militares. Esse imediatismo comercialista que eu percebo em vários setores me parece muito perigoso. O Brasil conquistou um prestígio no mundo – e todos reconhecem isso – também por uma ação muito forte na integração sul-americana, em novas parcerias com árabes, africanos, BRICs etc. Em função de algumas dessas coisas, ele passou a ser procurado pela União Europeia. Quando o Brasil lançou a campanha mundial contra a fome e a pobreza gozava de um enorme soft power. De agora em diante, vamos estar muito carentes de soft power.

P. O ministro Serra promoveu uma mudança rápida de postura do ministério, reagindo duramente às declarações de países como Venezuela e El Salvador – que convocaram seus embaixadores por entender que o que está em curso é um golpe. O que você opina a esse respeito?

R. Fico muito preocupado. É muito importante que o Brasil não perca a credibilidade. O país passou a ser visto como ponto de equilíbrio na América Latina nos últimos anos. Se o discurso se radicalizar e adotar uma atitude altaneira, como se fôssemos melhores, vamos sair perdendo. Ser maior em tamanho não significa ser melhor, e isso ficou claro para a região a partir do Governo Lula.

P. Além de estar carentes de soft power, há risco de perdemos o que foi construído?

R. No período em que fui ministro das Relações Exteriores, o Brasil se tornou uma espécie de referência para todos. Ouvi isso de países de posições ideológicas diferentes: “o Brasil é um porto seguro para nós”, “o presidente Lula nos ajuda na intermediação dos problemas”. Era comum. Hoje, não vejo ninguém dizer que precisa reforçar a integração sul-americana, nem com a África etc. Tudo isso é apontado como se fosse um grande erro. Acho que as pessoas ficam maravilhadas com a ideia de negociar com os Estados Unidos e a União Europeia, mas indo com tanto afã, elas terminam entregando todas as suas joias e não recebem em troca nem bijuterias. É o que temo: o enfraquecimento da posição negociadora do país. Não sou contra essas negociações, mas têm que ser feitas direito, fortalecendo o Mercosul.

"Acho que as pessoas ficam maravilhadas com a ideia de negociar com os Estados Unidos e a União Europeia, mas indo com tanto afã, elas terminam entregando todas as suas joias e não recebem em troca nem bijuterias"

O Brasil não vai desaparecer, obviamente. Mas não se pode causar danos importantes. Se o Mercosul for flexibilizado, como já se disse, e cada país negociar pelo seu lado, o projeto será enfraquecido. Agora, é claro que somos um país grande, com muitas qualidades. Vamos continuar sendo um ator razoavelmente de peso no cenário internacional, mas acho que viveremos um momento de empobrecimento nesse campo.

P. Como será sediar os Jogos Olímpicos diante do mundo com um Governo interino?

R. Vivemos um momento muito delicado e difícil, porque o novo Governo terá de lutar para se estabilizar. Mas, falando especificamente do evento, acho que tudo transcorrerá bem. Os Jogos motivam as pessoas e, por outro lado, há um interesse mundial. Os estrangeiros que vêm para cá estão mais preocupados – erroneamente, a meu ver – com águas poluídas, zika etc. Agora acredito que seria muito difícil no atual contexto que o Brasil, se fosse candidato, recebesse as Olimpíadas. Esse convite foi fruto do poder brando de que gozava o país antes.

P. Como você compara o atual momento político no Brasil com o que acontece no resto da América Latina?

R. Em parte, há na região uma tendência à direita, porque todos os países sofreram com a queda dos preços das commodities. Uma situação em que você podia distribuir renda, criando uma nova classe média, e ao mesmo tempo manter a velha classe média satisfeita, hoje em dia é mais difícil. Como diz o ditado: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. Esse é um panorama comum a todos. No Brasil, o que acontece hoje é um pouco reflexo dessa luta social que existe contra o distributivismo, contra uma política mais voltada às classes mais pobres, aos negros, às mulheres... Mas o fato é que as pessoas ficam mais agarradas aos seus privilégios quando a situação econômica aperta. Precisa muita determinação para que não haja uma regressão nesses avanços sociais.

P. Você foi chanceler do Governo Itamar. É possível encontrar semelhanças entre o Governo de Itamar, depois da saída de Collor em 1992, e o atual Governo Temer?

"Há na região uma tendência à direita, porque todos os países sofreram com a queda dos preços das commodities"

R. A saída do Collor e a entrada do Itamar uniram o país. Agora, a saída da Dilma e a entrada do Temer têm o país dividido. O Collor não foi substituído por alguém de uma linha diferente. O Itamar era mais nacionalista, tinha uma sensibilidade social mais aguçada... mas politicamente não era de corrente oposta. Agora sai uma coligação em que o PT era o centro e entra uma coligação de partidos de oposição. Então, a mudança é muito grande. Dada a recessão econômica também há a tendência de que os movimentos sociais se tornem mais rigorosos. A presença do PT no Governo amortecia isso.

P. Ainda assim, Temer pode se inspirar em Itamar em algum aspecto?

R. Não quero fazer análises de comportamento pessoal, mas acho que Temer age de maneira muito diferente. O Itamar ficou recluso, sem fazer publicamente articulações de como seria o Governo. Hoje a ansiedade por poder é grande. Outra coisa é que, no passado, a agenda econômica era óbvia, de combate à inflação, que foi o grande feito dele. Agora, o cenário é mais complexo.

P. Indo além das dificuldades óbvias, porque o momento é de crise, quais aspectos positivos você vê na atual situação em que o país se encontra?

R. Até agora, com raras exceções, acho que as investigações foram muito direcionadas. É importante ter investigações sérias, com instrumentos sérios – que aliás foram criados no Governo do PT. Como pode passar na cabeça de alguém que o presidente Lula seja o chefe de uma operação criminosa, como se diz, e ao mesmo tempo tenha criado todos os instrumentos para a investigação – dando mais autonomia à Polícia Federal, criando a lei da delação premiada no Governo Dilma...

O que talvez possa acontecer de positivo a partir de tudo isso é uma reforma política, mas ainda não vejo como. O Brasil tem um grande problema no seu sistema eleitoral, com grande influência do poder econômico. A outra coisa é a fragmentação partidária, que não segue nenhuma linha ideológica. A meu ver, é preciso proibir todo financiamento privado e permitir só o público, com a adequada fiscalização. Para fazer isso, é preciso líderes capazes de pensar o futuro do país, para além do futuro dos seus partidos.

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