Morre Cauby Peixoto, o maior cantor do rádio brasileiro

Imortalizado pela voz grave e aveludada e pelos paetês, Cauby morreu por causa de uma pneumonia

Cauby Peixoto
Cauby PeixotoMarco Máximo / Divulgação

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Apesar das complicações, o cantor nascido em Niterói, no seio de uma família musical, Cauby Peixoto estava em plena atividade, circulando pelo país ao lado da cantora Ângela Maria. Com a parceira de longa data, ele gravou uma dúzia dos 140 discos gravados ao longo de uma prolífica carreira nacional e internacional. Os dois, que comemoravam separadamente mais de 60 anos de carreira, voltaram a cantar juntos na turnê 120 anos de música, da qual faziam parte sucessos como "Vida de Bailarina", "Gente Humilde" e "Bastidores". A entrevista mais recente que deu foi gravada em uma apresentação no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 3 de maio, e exibida dez dias depois no programa Vídeo Show, da Globo.

Ele estourou em meio à geração dos cantores de rádio, na virada para os anos 1950, mas se lançou na década anterior fazendo shows em boates e programas de calouros como A Hora dos Comerciários, da rádio Tupi. Ganhou mais de dez concursos, cantando hits inesquecíveis como “Conceição” e “Blue Gardenia” – versão brasileira da canção do repertório de Nat King Cole que lhe valeu a entrada no elenco da Rádio Nacional. Cole, por sinal, foi homenageado em um dos últimos discos de Cauby, gravado no ano passado. “Nós temos o mesmo estilo de voz”, dizia, orgulhoso, sobre o cantor norte-americano, com quem se apresentou e de quem se assumia fã.

“Sou um cantor que assumiu o brilho, o paetê e o lamê. Eu gosto dessas coisas”, declarou

Blue Gardenia é o título também de seu primeiro LP, no qual interpretou a música título, além de temas como "Triste melodia", de Di Veras e Chocolate; "Um sorriso e um olhar", de Di Veras e Carlos Lima; "Sem porém nem porque", de Renato César e Nazareno de Brito e "Final de amor", de Cidinho e Haroldo Barbosa.

Cauby, com seu timbre de voz grave e aveludado, deu os primeiros passos na música ainda adolescente. Influenciado por todos os lados – dos pais e irmãos instrumentistas e cantores, ao tio Nonô, músico que popularizou o samba tocado com piano, deixou mais adiante o trabalho como professor e também como comerciante para cantar. Foi um dos primeiros intérpretes nacionais a gravar um rock em português: Rock n’roll em Copacabana. No auge do sucesso, viajou aos Estados Unidos, onde se apresentou algumas vezes e gravou músicas com o nome de Ron Coby em perfeito inglês. A carreira internacional não deslanchou como esperado, mas ele chegou a ser citado pela revista Times como o “Elvis Presley brasileiro”, e o elogio lhe abriu muitas portas. Nos anos 70, Cauby passou por um período de ostracismo, mas voltou à ativa na década seguinte, quando artistas e admiradores como Caetano Veloso compuseram as canções que ele gravou no disco Cauby! Cauby!.

A mística ao redor de Cauby passava por uma mescla única de humildade e carisma com pompa e vaidade. Quem começou a pensar a composição de sua imagem foi o compositor e empresário Di Veras, que o transformou em mito romântico. Uma de suas estratégias era que o cantor usasse belas roupas mal costuradas – para que as fãs pudessem rasgá-las com facilidade nos momentos de tietagem desenfreada.

Mas Cauby Peixoto confirmou em várias entrevistas que o gosto pelas perucas volumosas, maquiagem e roupas de show inclusive no dia a dia era seu mesmo. “Sou um cantor que assumiu o brilho, o paetê e o lamê. Gosto dessas coisas”, chegou a declarar. Ao longo da vida, o cantor mudou várias vezes de estilo, sem nunca perder o charme e a exuberância. Um documentário sobre sua trajetória – Começaria tudo outra vez, de Nelson Hoineff – fala de sua imagem e da dúvida sobre uma possível homossexualidade (que ele nunca assumiu, nem negou). Segundo o estilista responsável por seu estilo, Carlão Saade, “ele não se importava com o que diziam”. Cauby preferia falar de música, de projetos para seguir na ativa e das fãs. “Uma vez encontrei uma escondida debaixo da minha cama!”, contava, orgulhoso.