Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

Pelo direito de não ser uma ‘boa mãe’

O que diferencia uma mulher que foi mãe daquela que não o foi?

Día de la Madre Madonna y Rocco
Madonna, um enésimo caso da mãe questionada por todos pelo seu relacionamento com o filho, o adolescente Rocco.

Sou mãe há alguns anos. Tem gente que me diz: “você não parece uma mãe”, e me pergunto que aspecto tem uma mãe. Suponho que eu deveria cortar o cabelo e usar roupas compradas no supermercado para “parecer uma mãe” para essas pessoas. Eu tampouco me sinto mãe, pelo menos não o tempo todo. Na verdade, eu inclusive me aproveito disso, e quando me relaciono com um cara na faixa dos vinte anos, desses obcecados com milfs (mother I’d like to fuck, “mãe que eu gostaria de foder”, em tradução livre), e ele me pergunta, eu rapidamente respondo: “Sim, eu tenho dois filhos”. As pessoas não fazem ideia de como pega bem para se relacionar com esses jovens o fato de ser mãe. Se me dissessem isso quando eu tinha vinte e poucos anos (e não era mãe) e eu não teria acreditado.

Alguns, depois da relação sexual, chegaram a me dizer “não se nota que você já teve filhos”. Isso me faz pensar sobre o que eles entendem – o que as pessoas entendem – por ser mãe: Que tenho de padecer uma infinita dilatação vaginal pelo resto dos meus dias? Que meu corpo tem de responder de uma forma específica e diferente? Eu realmente não sei.

"Eu não sei em que se diferencia uma mãe de uma mulher que só é filha. Eu não noto nenhuma diferença em mim."

Eu não sei em que se diferencia uma mãe de uma mulher que só é filha. Eu não noto nenhuma diferença em mim. É claro, existe a experiência. Mas se eu não tivesse vivido a maternidade, suponho que teria alimentado a minha vida com outras coisas. Não tenho nenhuma maneira de sabê-lo. Por isso não consigo entender a transcendência que ultimamente tem essa história de maternidade. Florescem artigos questionando tudo de um lado e do outro. É claro que é uma coisa legal isso de ter filhos. (E se não se tem um companheiro, como no meu caso, já se torna uma experiência louquíssima). Mas aqui entre nós: não é para tanto. Realmente não.

O que são três ou quatro anos pendentes dos nossos filhotinhos? Nada, eu garanto. É muito, é legal, é felicidade. Mas não é para ficar tão orgulhosa disso. Eu também sou escorpião e vegetariana, mas a minha vida não é definida só por isso.

O que acontece é que vivemos em uma sociedade mercantil e capitalista que precisa dar nome, estereotipar e definir tudo o que vivemos. E ao perder a união tribal que existia entre várias gerações, vivemos desconectadas (e desconectados) da nossa própria natureza. Não estamos acostumados a ver a amamentação, mas sim o vagão silencioso dos trens. Não conhecemos os tipos de choro de um bebê, mas distinguimos cada ingrediente em uma experiência gourmet. Não ocorre a ninguém cheirar um recém-nascido para relaxar, mas sim pagar por uma sessão de yoga. E, claro, as nossas prioridades (convenientemente disfarçadas de liberação) entram em conflito com a maternidade, uma espécie de maldição impossível de administrar em nosso mundo civilizado.

A Internet está cheia de conselhos, teorias e especialistas em maternidade. Há verdadeiras guerras sobre criação, conciliação em matéria de trabalho ou pediatria. Há até mesmo uma batalha aberta entre as chamadas boas mães e as mães ruins, que na verdade esconde interesses perversos em confrontar, dividir e designar as mulheres que decidiram ter filhos. (Com patrocínios e marcas no meio disso, é claro). Portanto, graças a esse absurdo parece normal que as mães fiquem obcecadas, que postem fotos de seus bebês, que sofram por cada detalhe, que joguem em suas costas uma responsabilidade impossível. Porque a maternidade nos é vendida como um jogo muito bonito no qual temos de sofrer um montão, “mas compensa”. Bem, vejam: não.

Eu sou mãe e reivindico meu direito de viver isso sem opressão. Sem julgamentos. Sem sofrimento. Porque se não fosse mãe estou certa de que seria tão feliz quanto sou sendo mãe. Não sou uma vítima, não vivo na Índia, estuprada e sem vontade. Eu escolhi ter filhos como poderia ter escolhido ter peixinhos coloridos ou estudar arquitetura. Passei noites sem dormir, hospitalizações infantis, beijos, abraços e também muita incompreensão. Claro que, em outras áreas da minha vida, também tive todo tipo de experiências que me fizeram crescer. E me fizeram ser o que sou. Mãe e não mãe. Sem mais.

"Daria a sensação de que é verdade essa bobagem de que ‘ser mãe muda a sua vida’. Eu acho que muda se você não tem uma vida anterior."

Às vezes, dando uma olhada na imprensa, no que dizem as amigas ou as redes sociais, daria a sensação de que é verdade essa bobagem de que “ser mãe muda a sua vida”. Eu acho que muda se você não tem uma vida anterior porque, de repente, temos uma preocupação que preenche tudo. Nesses casos, as vidas se tornam obsessivas, pequenas e estéreis. E se chega a uma certa idade vazia, porque nos dedicamos a uma coisa só, sem cultivar nenhuma outra. E isso sim é que é uma tragédia. Também é triste que as mães que se julgam liberadas ataquem aquelas que desejam ficar em casa com seus bebês, escolhendo uma opção humana e consciente. Chega de julgamentos e exigências, por favor... Se tirarmos o sumo desses primeiros anos da maternidade, se aprendermos com o nosso bebê, se o penduramos pela fralda e não o soltarmos, eu garanto que pouco a pouco arrumaremos tempo e vontade para usar as mãos em outras coisas. Tudo é mais fácil e natural do que nos mostra a cultura dos nossos dias.

Aparentemente, sou uma mãe despreocupada. Não me importo se meus filhos estejam muito bem vestidos ou sujos, com restos do chocolate na boca. Jamais os castiguei e sempre fizeram o que tiveram vontade. Acredito em uma coisa chamada “apego”: no amor, respeito e no carinho como o vínculo principal entre os seres humanos. Eu fiz o calendário de vacinas como achei mais conveniente, amamentei quando eles pediam durante anos, cancelei centenas de eventos, séries e planos da minha agenda... Eu também os deixei aos cuidados de todo tipo de gente para ir trabalhar. E sempre me senti julgada. Pediatras, amigas, casais, família e a vizinha do quinto andar. Todos se arrogam o direito de opinar sobre a minha maternidade. E tudo porque, em vez de adaptar a criação dos dois filhos a essa vida louca, vivi meus dias improvisando de acordo com meus próprios desejos. Sem culpas estranhas, com muita insônia e muitas risadas também. Sem saber dirigir, sem trabalho estável, sem horários ou regras. Eu me adaptei. (Na minha maternidade, procuro que o sistema seja reduzido ao mínimo). Como pude, soube e acreditei ser conveniente. E errando um montão, claro.

A Internet está cheia de teorias e regras impossíveis, mas também encontrei na Internet comunidades de mães maravilhosas, fóruns de conexão que servem para recuperar o relato tribal, o desabafo, o ânimo... O agradável pátio de vizinhos, onde se reúnem as “mães desastre”, julgadas e felizes, que escolhemos voluntariamente o nosso status. E rimos muito quando os outros pensam que isso é uma condenação ou um horror. E muito mais quando nos taxam de tolas por acreditarmos no amor como a instrução principal na criação dos filhos.

Ser mãe é um choque. Como a primeira vez que se usa droga, ou quando viajamos para uma cultura diferente. Mas nada mais (e nada menos). As mães fazem as coisas bem, porque ter filhos em si não é nenhuma maldade. É o sistema que está errado e nos faz mal. Assim, embora me chamem de “mãe ruim”, irresponsável, louca ou incoerente, vou continuar a ignorar os julgamentos alheios, porque além de pouco me importarem tampouco são tão importantes. Tenho milhares de coisas em que pensar e apenas uma delas é a maternidade.

A coisa boa do apego é que ele cria indivíduos independentes e curiosamente desapegados. Hoje eu tenho filhos pré-adolescentes que entram e saem de casa com suas próprias chaves, que escolhem como vão se vestir, denunciam casos de bullying, fazem muita lição de casa e eu sempre digo que eles têm de brincar mais. E eu... Eu não sou uma mãe que sofre. Eu desfruto. Com meus filhos sujos e desalinhados ou com um cara de vinte e poucos anos na cama.

"Embora me chamem de ‘mãe ruim’, irresponsável, louca ou incoerente, vou continuar a ignorar os julgamentos alheios, porque pouco me importam."

MAIS INFORMAÇÕES