ANÁLISE

Lula cai do cavalo

O que fica claro é que a potência emergente padece de um profundo mergulho no fracasso

Cartaz com imagens de Dilma e Lula durante o protesto do dia 13 de março.
Cartaz com imagens de Dilma e Lula durante o protesto do dia 13 de março. NACHO DOCE (REUTERS)

Em 2010 o então presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva deixava o poder com 87% de aprovação popular; colocava uma caretaker, Dilma Rousseff, para o caso de lhe apetecer ser de novo o candidato. Dizia o oficialismo que havia posto mais de 30 milhões de compatriotas na classe média e reduzido dramaticamente a fome e a pobreza; sua sucessora era eleita e depois reeleita em 2014, mas sempre honrando as preferências do ex-operário metalúrgico. O país, que parecia convencido de ter chegado lá, organizava a Copa do Mundo de futebol e se preparava para outro tanto este ano com os Jogos Olímpicos. Hoje, em contrapartida, promotores públicos pedem a prisão preventiva do grande líder por ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro, e ele é submetido a uma breve e humilhante detenção para interrogatório. São já três anos de retrocesso da renda per capita, a inflação é de 10% e as grandes cifras de política inclusiva parecem as Cuentas del Gran Capitán; 61% dos entrevistados declaram que jamais votariam no ex-presidente; manifestações oceânicas pedem que a justiça atue e que Rousseff renuncie, acusada de irregularidades econômicas e ameaçada de impeachment ou julgamento político; lulistas e antilulistas se enfrentam nas ruas; e a Copa ficou longe de ser um sucesso de transparência e austeridade orçamentária.

Ambas teorias merecem atenção: a direita considera que já chega com quatro mandatos, Lula e Dilma; e a corrupção é um mal endêmico

A essa sucessão de cenários se pode aplicar, no entanto, uma dupla medida igualmente explicativa. Ou bem se trata de um complô da direita midiática, dirigido por um adversário reconhecido de Lula, o juiz Sérgio Moro, contra uma plataforma considerada progressista; ou a moderada esquerda brasileira é tão corrupta como o que a terra dá.

Sobre o primeiro será preciso ponderar que a conspiração seria só local porque o capitalismo reinante não chegou a criticar o líder petista por mais do que um tíbio afeto pelo chavismo, e sua sucessora, melhor ainda, tenta fazer um ajuste do que há de mais neoliberal para a economia brasileira. Quanto à corrupção, a chamada operação Lava Jato levou à prisão dezenas de altos funcionários, políticos e empresários, acusados de lucrar com os dividendos da Petrobras, a empresa pública que conduz o negócio do petróleo. Ambas teorias merecem atenção: a direita brasileira pode considerar que já chega com quatro mandatos, Lula e Rousseff, dois cada um, mais um possível quinto se o veterano político for de novo candidato; e a corrupção é um mal endêmico em um país com um Congresso habitado por 28 partidos, onde é preciso ficar fazendo e desfazendo alianças para poder governar.

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O próprio Lula parecia validar a segunda hipótese, embora se apresentando como vítima do irreparável em uma conversa com José Mujica, que revelam os jornalistas Danza e Tulbovitz, na qual, segundo relata o ex-presidente uruguaio, teve “que lidar com coisas imorais, porque era a única forma de governar... com angústia e um pouco de culpa”. Declarações tão sumamente interpretáveis tiveram que ser desmentidas ou matizados pelos jornalistas da revista Búsqueda, de Montevideo. Mas o que, de qualquer modo, fica claro é que a potência emergente brasileira padece de um profundo mergulho no fracasso. Vamos ver como se sairão os Jogos.