Análise
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Gasolina na fogueira das vaidades

O pedido desastrado de prisão preventiva do ex-presidente Lula manda dois recados: a Justiça entrou na vitrine e espera-se dela sensatez em suas análises para que seja bem-sucedida

Os promotores do caso de Lula detalham a denúncia.
Os promotores do caso de Lula detalham a denúncia.Miguel Schincariol (AFP)

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O ministro Marco Aurélio de Mello fez dois gestos nesta semana que ganharam ares de nobreza diante da irracionalidade que tomou o Brasil com a crise política. Primeiro, ao cobrar sensatez de grupos pró e contra o Governo para as manifestações do próximo dia 13, num momento de ânimos tão acirrados. Depois, durante a sessão que definiria se o novo ministro da Justiça, Wellington Cesar Lima e Silva, poderia ou não permanecer no cargo por ser um procurador do Estado da Bahia, e as duas funções seriam conflitantes.

Mello se absteve de votar por considerar que a ação que questionava o conflito, impetrada pelo Partido Popular Socialista (PPS), tinha “endereço certo”, insinuando um viés político. “Cabe atuar com serenidade e temperança”, recomendou.

Os três promotores da ação do Ministério Público do Estado de São Paulo que propuseram a prisão preventiva do ex-presidente Lula, a três dias de uma grande manifestação de rua anti-PT, mostraram que a sua compreensão de sociedade não alcança o recado de Mello. O ex-presidente deve sim ser questionado por suas enroladas explicações sobre a posse de um tríplex e esclarecer se beneficiários da Bancoop, a cooperativa que financiou a obra inicialmente, se prejudicaram em detrimento do seu imóvel. Mas choca o fato de Cássio Conserino, José Carlos Blat e Fernando Henrique de Moraes Araújo terem apresentado seus argumentos de uma maneira desastrosa, com trechos por escrito que só conseguiram jogar mais gasolina num ambiente de intensa polarização que está sendo monitorado pelo país desde 2014.

Depois de agendar uma coletiva de imprensa para explicar a denúncia contra Lula feita pelo Ministério de São Paulo, os promotores se esquivaram de responder às perguntas dos repórteres se eles entrariam ou não com um pedido de prisão preventiva do ex-presidente. Apenas alguns minutos depois de dispensar os cerca de 60 profissionais que estiveram por uma hora no MP do centro de São Paulo, a informação do pedido de prisão veio a público pelo site Jota, especializado em direito. Quando os jornalistas já não podiam mais saber se a Justiça Estadual havia aceito o pedido, ou tirar dúvidas sobre quando a prisão poderia ocorrer.

Para piorar, os termos empregados na denúncia revelaram uma parcialidade impressionante ao se referir à “rede violenta” de apoio do ex-presidente, citando o dia do depoimento no aeroporto de Congonhas, em virtude da Lava Jato, ou no dia do depoimento de Lula no fórum da Barra Funda, no dia 17 de fevereiro, para falar do triplex. Faz ainda o contraste dizendo que haviam outros manifestantes “e pessoas que se encontravam de forma democrática no local”. Todos os veículos noticiaram na ocasião que as agressões foram mútuas. E não era necessário ter citado o episódio. Qualquer ser humano que more no Brasil sabe que as agressões verbais e físicas têm aumentado entre prós e contra o Governo e não foi diferente nem no dia 17 de fevereiro nem no dia 4 de março.

Os promotores mostraram incômodo ainda com o fato de Lula ter falado depois do depoimento em Congonhas. Não era a sua “rede violenta” que queria ouvi-lo. O mundo inteiro estava prestando atenção ao Brasil naquele momento e se o ex-presidente não falasse aí sim a desordem seria muito maior do que os xingamentos e as agressões apontadas por eles a jornalistas que tentavam cobrir o inédito fato de um ex-chefe de Estado se ver envolvido com a polícia na jovem democracia brasileira.

Sim, é verdade, Lula abusou de mensagens grosseiras de colocar o “nós contra eles” naquele dia. Mas sua voz fala mais para convertidos, pelo menos enquanto está sob o manto da suspeita — não é uma condenação antecipada, não foi o que disse Sérgio Moro? Seus leais seguidores estão divididos quando se trata de defender um governo bastante enrolado em explicações sobre corrupção, desgastado ainda mais com uma infeliz condução econômica que desagrada a gregos e troianos. Ou não estamos falando de um líder atrelado a um governo que só tem 11% de apoio popular?

Vivendo um linchamento político generalizado no país inteiro, é preciso que se faça justiça, ao menos, em um ponto ao PT. O partido vinha reiterando à militância que evitem protestos no dia 13 de março para não estimular conflitos. O protesto que estava marcado para o mesmo dia na Praça Roosevelt, em São Paulo, por simpatizantes da legenda, por exemplo, foi até cancelado para não deixar margem a críticas. A Roosevelt é relativamente perto da avenida Paulista, onde milhares de pessoas devem liderar os gritos anti-PT. Combustão pura.

Ao fim e ao cabo, na denúncia dos promotores acabam se sobressaindo as mensagens reativas dos promotores aos ataques de Lula ao MP, o que joga contra si mesma. As críticas a ela foram praticamente unânimes, até entre os que mais detestam Lula. Pois bem. Se os representantes da Justiça trabalham para que a verdade e a decência se restabeleça é preciso se diferenciar daqueles que acusam, e não escrever com uma ironia que em nada contribui com a tal temperança pregada pelo ministro do Supremo. Pode agradar parte do Brasil polarizado. Mas e aqueles que apoiam investigações, porém, preferem a cautela à ansiedade para resolver esta barafunda no atropelo?

A Justiça assumiu um protagonismo no Brasil desde que levantou a bandeira de fazer valer que todos sejam iguais perante a lei. Não há um brasileiro sequer que não apoie uma mensagem como essa. Mas é preciso humildade para não se deixar contaminar pela mesma vaidade que cegou muitos dos que estão sendo julgados em praça pública no país atualmente. Se não for assim, o ímpeto de moralização que move felizmente o Ministério Público pode ser confundido com uma aliança a um projeto eleitoral. E essas cobranças serão cada vez maiores sobre o Ministério Público, seja o de São Paulo, ou para a equipe de procuradores da Lava Jato.

Se Dilma e o PT já são as primeiras vítimas da busca pela verdade, a mesma ambição alcançará outros partidos. A Odebrecht, por exemplo, não está no mercado fazendo negócios com o setor público há apenas 12 anos, que é o prazo determinado pela equipe da Lava Jato para investigar os crimes de corrupção que começaram na Petrobras. Se o modelo que inspira Sérgio Moro são as operações Mãos Limpas da Itália, então a mesma espada que corta na carne do PT hoje vai atingir outros partidos também. Ao menos é a expectativa que ele mesmo criou para o país.

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