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COLUNA

O desafio ‘animal’ de Marina Silva

Como sabe a ecologista brasileira, o respeito aos animais fala sobre o nosso grau de civilização

Marinha Silva, durante a visita a uma reserva natural, em 2014.
Marinha Silva, durante a visita a uma reserva natural, em 2014. FOTOS PÚBLICAS

"Os animais são de Deus, a bestialidade é dos homens (Platão)"

A importância que nesses dias a Rede, de Marina Silva, tem dado à discussão sobre os direitos dos animais parece ter dado a alguns o escapismo em meio à crise política e econômica que aflige os seres humanos no Brasil.

Escapismo ou um olhar moderno e preocupado sobre o futuro da humanidade? Embora escondida em seu silêncio, a ecologista brasileira continua mantendo um capital de mais de vinte milhões de votos para a presidência, superando até mesmo Lula nas pesquisas.

Estão errados aqueles que veem um gesto quixotesco no esforço de Marina e seu partido na defesa dos animais e da Terra.

Até o Papa Francisco, rompendo a tradição milenar das encíclicas, surpreendeu a Igreja ao dedicar a primeira de seu pontificado não a uma questão teológica, mas à defesa da Terra e dos animais, uma questão que considera vital para a sobrevivência humana.

Eliane Brum, na última coluna deste jornal, magistral e arrepiante, nos confronta com a responsabilidade de saber que milhões de animais nascem hoje em campos de concentração só para nos dar um punhado de proteínas. “São abatidos em holocaustos diários, sem que tenham tido uma vida”, escreve. Para Brum: “Somos os nazistas das outras espécies”.

Mark Twain, o maior humorista americano, declarou: “O único animal cruel capaz de infligir dor por prazer é o humano”.

Marina Silva, premiada internacionalmente, não está sozinha em sua batalha pela defesa dos animais e do planeta que estamos destruindo de forma hipócrita e dolorosa.

Hoje seria aplaudida pelos maiores escritores e pensadores (desde os romanos, passando por várias civilizações) que defenderam os direitos dos animais. No Antigo Egito chegou a existir pena de morte para quem sacrificasse um gato.

No século XIX, outra mulher, Flora Tristán – escritora e uma das fundadoras do feminismo moderno, avó de Paul Gauguin, e a quem Vargas Llosa dedicou seu livro O Paraíso na outra esquina (Arx) – foi outra grande defensora dos direitos dos animais. Para ela, os três grandes proletários da História foram os trabalhadores, as mulheres e os animais.

Chegou a escrever: “Duas coisas são o que mais admiro na minha vida: a inteligência dos animais e a bestialidade dos humanos”. Era um eco do que escreveu o filósofo Platão: “Os animais são de Deus, a bestialidade é dos homens”.

No Renascimento italiano Leonardo da Vinci, um dos maiores gênios de todos os tempos, profetizou: “Chegará um dia em que a morte de um animal será considerada um crime como o assassinato de um homem”.

Hoje, não só a ecologista brasileira, mas pensadores modernos acreditam que o termômetro para medir o grau de civilização da humanidade, como já apontava Gandhi, é o nível de nossa relação com os animais, que “sofrem como seres humanos”, como dizia outro filósofo grego. E é dor, mais que a felicidade, que nos identifica com todos os animais. Ou assumimos como nossa a dor e a felicidade de todos (humanos ou não) ou viveremos presos em nossa solidão.

A humanidade cresce, humana e espiritualmente, na medida em que amplia o horizonte do amor universal. Houve uma época na Roma antiga que o pai de família decidia se o recém-nascido merecia viver, ou se, considerando que tinha sido punido pelos deuses com um defeito físico, devia morrer.

Hoje isso nos horroriza, mas ainda não passou um século desde a aprovação do estatuto que sancionou os direitos da infância e da mulher.

O próximo passo civilizador é a defesa de todos os seres vivos, que existiram antes de nós e a quem a terra pertencia antes que a povoássemos e declarássemos uma guerra de extermínio contra eles. Hoje, sobrevivem apenas 10% dos animais que existiam na época dos neandertais.

Marina Silva talvez esteja à frente, na sua visão do futuro da humanidade, de muitos políticos tradicionais. Daqueles que se enroscam na retaguarda do retrocesso e em seu afã de enriquecimento a qualquer custo, ignorando que a sociedade brasileira (especialmente os mais jovens) já os ultrapassou em modernidade e até começa a pensar: “Mas como vocês ficaram para trás!”.

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