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ANÁLISE

O ídolo que cambaleia

Com as acusações de corrupção que pesam sobre Lula e sua família, será preciso ver se sua gente ainda o considera um dos seus

Lula volta a seu apartamento em São Bernardo de Campo depois de depoimento.
Lula volta a seu apartamento em São Bernardo de Campo depois de depoimento. REUTERS

Aconteceu na última campanha eleitoral, em um comício do Partido dos Trabalhadores na periferia sul e pobre de São Pulo. Lula, com a camiseta vermelha do partido e a voz cavernosa e cansada depois de semanas de forçar a estropiada garganta, entrou em cena para pedir outra vez o voto em Dilma Rousseff. Um operário metalúrgico o ouvia da rua, com um sorriso de orelha a orelha. Diante da pergunta sobre se gostava de Lula, o operário respondeu, sem parar de sorrir: “Há muitos anos, ele, Lula, vinha a nossas fábricas nos dizer quando tínhamos de protestar, quando tínhamos de fazer greve. Eu voto nele porque o conheço, porque não mudou”.

Quando Luiz Inácio Lula da Silva deixou o poder depois de governar o Brasil durante oito anos, de 2003 a 2010, armazenava uma inaudita popularidade de mais de 80%. Não estava mal para um operário convertido em sindicalista convertido em presidente de um país de 200 milhões de habitantes, chegado sem estudos a São Paulo na década de cinquenta com seus seis irmãos e a mãe na traseira de um caminhão procedente de um dos rincões mais miseráveis do país. Ele era um a mais entre os milhões de habitantes do Nordeste brasileiro que buscavam na grande cidade uma saída do labirinto da pobreza, seca e desemprego.

Durante seu mandato, cerca de 30 milhões de pessoas sem trabalho fixo entraram no sistema: começaram a desfrutar de um contrato, de férias, de seguro desemprego, começaram a pagar impostos, sentir-se cidadãos, protestar. Lula e os ideólogos do Partido dos Trabalhadores os denominaram de nova classe média, surgida daqueles que migravam em caminhões rumo ao sul. A maioria deles continuava vendo Lula como um a mais.

Hoje o índice de rejeição a Lula, segundo pesquisas recentes, é de 47%. E a causa deve ser buscada, sobretudo, nas acusações de corrupção que pesam sobre ele e sua família, e que o perseguem há meses. Ele nega tudo. Afirma, com a mesma veemência que empregava ao pedir o voto em Dilma Rousseff nos comícios de campanha na periferia, que não existe no Brasil uma “alma mais honrada”. Ainda pensa em apresentar-se às eleições de 2018. Há alguns dias dizia que então terá 72 anos e o tesão de um de 30. Mas será preciso ver se sua gente ainda o considera um dos seus. Se ainda consideram que não mudou. Que o Ministério Público o acuse de aceitar presentes milionários das empresas envolvidas na peçonha da Petrobras, que o Ministério Público considere que essas mesmas empresas lhe pagam, entre outras coisas, os eletrodomésticos de cozinha de primeira e os móveis de luxo de um apartamento de três andares na praia não vai ajudar em nada.

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