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CINEMA

Exposição no MIS-SP propõe um passeio pela mente de Tim Burton

SP é a primeira cidade da América Latina a ter a mostra que disseca o repertório do menino desajustado

Tim Burton, mostra do MIS
A porta de entrada a Burton, na mostra do MIS.

Tim Burton, quando era criança, não gostava de Natal. Hoje, uns 50 anos, 20 longas e vários curtas e séries depois, continua não gostando. Basta um passeio pela exposição O mundo de Tim Burton, que acaba de estrear com ingressos esgotados até março no Museu da Imagem do Som (MIS), em São Paulo, propondo um mergulho no universo criativo desse cineasta norte-americano (Burbank; 1958) para dar-se conta disso. Concebida pela própria equipe de Burton e repaginada pelo MIS-SP, a primeira instituição a recebê-la na América Latina, a mostra exibe cerca de 500 objetos, entre ilustrações, fotografias, bonecos e pinturas, além de trechos de filmes, do eterno menino desajustado que combina terror e humor de maneira terna e como ninguém.

“Papai Noel, descuidado, deu um ursinho de presente a James, sem saber que, antes, naquele ano, ele teve o rosto deformado por um urso”, são os dizeres que acompanham um dos desenhos expostos no começo do trajeto, em que um menino tem metade do rosto desfigurado e um urso de pelúcia na mão. Outro mostra um homem cujos olhos saltam de suas órbitas para puxar o decote de uma mulher, com a legenda: “Homem despindo uma mulher com os olhos”. E assim, tomando contato com representações mais ou menos biográficas de traumas de infância e uma intenção permanente de descortinar a vida adulta, o visitante vai se tornando íntimo do realizador de filmes como Os fantasmas se divertem (1988), Batman (1989), Edward mãos de tesoura (1990) e O estranho mundo de Jack (1993).

A garganta de Tim Burton no MIS.
A garganta de Tim Burton no MIS.

“Ficamos orgulhosos de ser escolhidos por Tim Burton para ser o primeiro museu latino-americano a receber a exposição”, disse André Sturm, diretor do MIS. Mas o presente não tinha por que ser compartilhado ipsis litteris, e a instituição decidiu fazer as coisas à maneira das últimas e bem-sucedidas mostras que organizou, como Castelo Rá-Tim-Bum – A exposição, David Bowie e Stanley Kucrick. “Adaptamos o conteúdo do modo em que costumamos trabalhar, propondo uma imersão às pessoas”, acrescentou Sturm, antes de comentar que Tim Burton acompanhou de perto todo o processo e que “a gente discutiu com a equipe dele parede por parede, durante sete meses”.

Tim Burton.
Tim Burton.

O resultado, sendo assim, é cuidadoso. De cara, entra-se por um ambiente que representa a garganta de Tim Burton. Nas paredes, depois do trecho dedicado a cartazes de diretores de cinema e escritores que o inspiraram (Vincent Price, Edgar Allan Poe, Bela Lugosi, Alfred Hitchcock, entre outros), formam-se sinapses em feixes de luz que levam as pessoas ao cérebro de Burton. Lá, a mostra passa a ser dividida em salas, e cada uma representa um sentimento. Tem Alegria, Angústia/Melancolia e Encantamento, e depois, ao final, Projetos não realizados e Filmografia. À Alegria, o visitante chega deslizando por um escorregador (de verdade), a menos que prefira pegar as escadas.

Tudo que o cineasta (cuja maior escola de base é a ilustração) dá à vida, sejam caveiras e esqueletos, meninos e meninas “tóxicos”, palhaços assustadores ou cachorros monstruosos, é fruto de uma distorção de perspectiva e de figura. Seu desenho, representado no MIS em folhas de blocos e até em guardanapos, mas também em bonecos tridimensionais (por exemplo, num menino de seis metros, inflado de ar, que movimenta os olhos na direção de quem acena para ele), parece uma maneira de dizer: “Prefiro ler o mundo nas entrelinhas, mas com voz tênue, sem gritar”.

Um boneco de seis metros de altura acompanha o visitante com os olhos.
Um boneco de seis metros de altura acompanha o visitante com os olhos.

Há vários objetos inéditos ou raros de se ver, sobretudo no Brasil, assim como algumas obras audiovisuais. Alguns dos vídeos que Burton gravou em Super 8, como a animação Rei e Polvo, de 1978 (ou 1979), estão disponíveis em telas especiais, que o visitante assiste colocando entre seus olhos e o televisor uma placa de vidro coberta com a película utilizada normalmente para adesivar aparelhos de TV. O videoclipe de Here with me, que o diretor fez em 2006 para o grupo The Killers, também pode ser assistido dessa maneira.

Tanto a mostra  no MIS – aberta para o público nesta quinta-feira, 5 de fevereiro, e que dura até 15 de maio – transmite mais essa áurea do menino desajustado e criativo, que pouco há sobre o filme Peixe grande e outras histórias, de 2003, o mais solar dos longas-metragens de Tim Burton – presente na seção dedicada à sua cinematografia (aberta com As grandes aventuras de Pee-wee, de 1985, e encerrada com o último Frankenweenie, de 2012). Quem se entusiasma com Burton sem chegar a ser fã vai desfrutar o passeio, mas a mostra agradará mesmo os adoradores de sua obra – e de sua mente. Em suma, quem não gosta de Natal (e outras convenções sociais) vai amar.

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