FEMINISMO

As jovens mexicanas que combatem o machismo com confete e música punk

As Filhas da Violência são um coletivo que ataca o assédio nas ruas com performances Vídeo sobre elas no AJ+ já possui quase 5 milhões de visualizações

Filhas da Violência, um coletivo feminista que surgiu em 2013.
Filhas da Violência, um coletivo feminista que surgiu em 2013.Reprodução

Em 27 de janeiro o site de notícias AJ+ publicou no Facebook um vídeo sobre Las Hijas de Violencia (As Filhas da Violência), um coletivo feminista mexicano que nasceu em 2013 com um propósito: combater a violência cotidiana vivida pelas mulheres no México. Em apenas seis dias, o material foi compartilhado mais de 54.000 vezes e obteve quase 5 milhões de visualizações.

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No vídeo é possível ver Ana Karen, Ana Beatriz e Betzabeth Estefanía – integrantes do coletivo – caminhando pelas ruas da Cidade do México. Sempre que um homem as assedia, as três jovens disparam confete contra ele e cantam a todo pulmão a música Sexista Punk, cuja letra diz:

“Isso que você me fez se chama assédio. Se você fizer isso dessa forma eu respondo. Não tem o direito e isso é nojento (...) Sexista, machista, o que é que você quer?”

Há três anos, as atrizes da Escola Nacional de Arte Teatral – Ana Karen e Ana Beatriz, de 25 e 28 anos, respectivamente – se uniram para criar uma obra de teatro que refletisse o que significa ser mulher. A ideia inicial não possuía um enfoque feminista, mas depois de realizarem a pesquisa, o discurso mudou.

“Começamos a encontrar diferentes subtemas da violência cotidiana e normalizada que nós mulheres recebemos. Um dos que nos deixou mais perturbadas foi o assédio nas ruas. Descobrimos que era a amostra mais pura da legitimação da violência machista no espaço público e à vista de tod@s”, explicam a EL PAÍS por e-mail.

Foi dessa forma que as atrizes chegaram à conclusão de que o teatro era pequeno para o impacto que precisavam e decidiram realizar uma performance. Em 2015 a artista visual Betzabeth Estefanía, de 24 anos, uniu-se a elas para realizar a proposta estética e visual do projeto.

“Pensamos em uma ação simbólica que pudesse fazer com que, diante do assédio, a reação fosse olhar o assediador e desaprovar sua agressão ao invés de vitimizar novamente a mulher. Uma canção e uma pistola de confete são inofensivas, pois não machucam o agressor, mas simbolicamente é uma resposta que gera impacto e surpresa que o agressor não espera. Dessa forma o jogo de poder muda. O assediador normalmente nega ter assediado e tenta fugir com medo de ser ridicularizado. Esse é o objetivo da performance”, dizem as integrantes do grupo.

“Pensamos em uma ação simbólica em que a reação fosse olhar o assediador e desaprovar sua agressão ao invés de vitimizar novamente a mulher”

De acordo com as protagonistas do vídeo do AJ+, a partir de sua publicação foi retomada a polêmica sobre se as cantadas às mulheres são agressivas. “Muitas mulheres apareceram para dizer que não querem esses comentários 'positivos' sobre seus corpos se vierem de uma pessoa estranha a quem não pediram a opinião. Os homens, por sua parte, respondem negativamente (sobre o vídeo), pois aceitá-lo significaria assumir a responsabilidade de mudar sua conduta”, dizem.

Para continuar combatendo a violência contra a mulher o grupo se comunica constantemente através de sua página no Facebook, que conta com mais de 24.000 seguidores. Nesse espaço são publicadas denúncias de assédio e agressão contra mulheres, são compartilhadas oficinas sobre feminismo e violência misógina, eventos são promovidos e o público é convidado a algumas das apresentações realizadas na Cidade do México.

Las Hijas de Violencia se dizem satisfeitas, mas sobretudo decididas a continuar combatendo a violência misógina em 2016. “Fazemos isso porque temos a esperança de que algum dia todas nós possamos sair às ruas sem precisar nos sentirmos corajosas por isso, mas livres”, finalizam.

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