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Rebelo de Sousa, presidente de Portugal

Professor-comunicador tem 52% dos votos com 97% das urnas contadas

Marcelo Rebelo de Sousa é o novo presidente de Portugal, com 97% dos votos apurados, já que recebeu 52% dos votos, eliminando a necessidade de um segundo turno. Em segundo lugar ficou Sampaio da Nóvoa (22%) e Maria Matías aparece em terceiro lugar (10%), a candidata do Bloco foi a grande surpresa já que teve o dobro do candidato comunista Edgar Silva, que terminou em quinto lugar. A abstenção foi de 52%.

Rebelo de Sousa, após a sua vitória.
Rebelo de Sousa, após a sua vitória. AP

Marcelo Rebelo de Sousa (Lisboa, 1948), apesar de ser militante do Partido Social Democrata (PSD) desde 1974, se candidatou de forma independente, sem apoio financeiro ou político de seu partido; também não aceitou doações de empresários. A maior parte de sua campanha – sem comícios nem festas populares nem distribuição de adesivos – foi paga de seu próprio bolso, por isso foi a mais barata de todas.

No momento de depositar seu voto, o primeiro-ministro, o socialista António Costa, destacou a importância da eleição do presidente, pois ele tem o poder de vetar as decisões do Governo ou apresentar leis ao Tribunal Constitucional, mas acima de tudo, a de dissolver Parlamento.

Nos últimos quatro anos, conviveram um primeiro-ministro (Passos Coelho) e um presidente (Aníbal Cavaco Silva) do mesmo partido (PSD), sendo que este último foi acusado em várias ocasiões de não proteger os interesses de todos os portugueses, apenas do seu partido.

Depois das eleições legislativas de outubro, Cavaco Silva, tentou por todos os meios atrasar a formação de um Governo socialista com o apoio parlamentar de comunistas e bloquistas, o que lhe valeu novas críticas.

O fenômeno do Professor Marcelo

Marcelo Rebelo de Sousa cresceu entre políticos. Seu pai foi repreendido por levar o filho ao Ministério; eram os tempos da ditadura de Marcelo Caetano. Em 1974 ele começou a militar no PSD e em 1989 iniciou sua cátedra de direito na Universidade; mas antes já se dedicava ao terceiro pilar de sua carreira, o jornalismo. Já foi quase tudo na política (deputado, eurodeputado, ministro); no jornalismo criou e dirigiu Semanário e Expresso, foi comentarista da rádio TSF e nos últimos 15 anos alternou seus comentários na RTP e TVI, onde se tornou um fenômeno de mídia.

A carteirinha do PSD não garante que seja um militante disciplinado. Sua personalidade hiperativa ultrapassa, mais cedo que tarde, qualquer fronteira. Seus comentários em TVI eram bastante críticos ao primeiro-ministro e líder do partido, Passos Coelho; algo que já tinha acontecido na década de 80 quando, do Expresso, lançava críticas furiosas contra Pinto Balsemão que, além de ser primeiro-ministro do PSD, era o dono da revista.

Contra a estratégia dos outros nove candidatos de prometer coisas mais típicas de um primeiro-ministro, Rebelo de Sousa passeava pelas ruas e conversava e abraçava as pessoas. “As pessoas sentem falta de carinho”, diz.

A vitória de Rebelo de Sousa (PSD) não vai significar nenhum contratempo para Costa (PS), apesar de militarem em diferentes partidos. Ambos são velhos conhecidos, flexíveis na negociação e pouco dogmáticos. Ao contrário dos outros nove candidatos, sua estratégia não foi a de prometer mudanças ou ameaçar com referendos ou convocar eleições antecipadas, mas a promessa de dialogar com todos, unir, arbitrar e dar estabilidade ao sistema político, “para não acrescentar à crise econômica da qual estamos saindo, outra mais” como declarou a EL PAÍS na semana passada.

Há anos Marcelo Rebelo de Sousa não tem nenhum cargo político. Ele se dedicou à sua cátedra de Direito da Universidade de Lisboa, a administrar a Fundação da Casa de Bragança e a seu programa dominical em TVI de análise política, um sucesso de audiência por sua credibilidade, a apresentação didática dos temas e por sua independência política.

Atrás de Rebelo de Sousa, que obteve 52% dos votos, ficaram Sampaio da Nóvoa (22,3%), Marisa Matías (Bloco de Esquerda), com 10%, Maria de Belém (4,3%), Edgar Silva (PC), 3,5%; Vitorino Silva (3,25); Paulo de Morais, 2%; Henrique Neto, 0,8%; Jorge Sequeira (0,3%) e Cándido Ferreira (0,2%).

Desde a Revolução de abril de 1974, ocorreram nove eleições para a Presidência e apenas uma vez foi necessário recorrer ao segundo turno. Foi em 1986, quando venceu o candidato do PSD, Freitas do Amaral, mas só com 46,3% dos votos, seguido de Mário Soares (PS, 25,4%) e Salgado Zenha (PCP, 20,8%). No segundo turno, a esquerda se uniu em torno de Soares e venceu com 51% em comparação com 48,8% de Freitas do Amaral.

Nesses 40 anos e nove eleições houve quatro presidentes, já que todos foram reeleitos: o militar Ramalho Eanes, que se postulou como independente, embora apoiado pela esquerda (1976-1986); os socialistas Mário Soares (1986-1996) e Jorge Sampaio (1996-2006) e o social-democrata Aníbal Cavaco Silva (2006-16). Rebelo de Sousa é o quinto.

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