Crise de refugiados na Europa

França e Holanda alertam que crise migratória pode destruir a União Europeia

Primeiro-ministro francês, Manuel Valls, diz que essa é a “maior ameaça de ruptura” do bloco

Os primeiros-ministros da Holanda, Mark Rutte, da França, Manuel Valls, e da Grécia, Alexis Tsipras, nesta quinta-feira em Davos, Suíça.L. GILLIERON EFE / Live!

“Não podemos aceitar todos os refugiados que chegam à União, que fique claro, porque nos desestabilizariam como países”, admitiu Valls em um café da manhã com um pequeno grupo de jornalistas durante a reunião do Fórum Econômico Mundial, que ocorre anualmente em Davos. O dirigente francês se colocou, dessa forma, no grupo que defende a limitação à chegada de imigrantes à União Europeia, como propôs a Áustria ainda nesta semana, em contraposição a Governos como o da Alemanha, partidários de acolher todos os refugiados que fogem das zonas de conflito e solicitam asilo político.

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“Para frear o fluxo de imigrantes temos que encontrar uma solução para a crise síria, mas isso não será algo que acontecerá com rapidez”, admitiu o premiê francês. “Se quisermos que o Espaço Schengen sobreviva, será preciso proteger as fronteiras externas e dedicar recursos econômicos e humanos a essa tarefa”, advertiu Valls. “Do contrário, Schengen irá parar e desaparecer”, afirmou ele aos jornalistas, referindo-se ao espaço de livre circulação de pessoas dentro da União Europeia.

Pouco depois, o primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, defendeu uma tese semelhante num painel sobre o futuro da Europa, também com a participação de Valls, do premiê grego, Alexis Tsipras, e do ministro alemão de Finanças, Wolfgang Schäuble.

Rutte advertiu que, com a chegada da primavera europeia, haverá um maior afluxo de refugiados para a Europa, que levará à instalação de novos controles de fronteiras nos países da UE e, com isso, o fim dos acordos de livre circulação de pessoas. “A União Europeia tem entre seis e oito semanas” para procurar uma resposta política e salvar o Acordo de Schengen, salientou Rutte. Segundo suas cifras, 35.000 imigrantes cruzaram o mar da Turquia para a Grécia nas três primeiras semanas do ano, contra 1.200 que chegaram às costas europeias em janeiro de 2015. “Não podemos gerir a chegada de refugiados neste número por mais tempo”, afirmou. “Schengen é um acordo crucial para a UE, mas é evidente que o sistema de Dublin não está funcionando, e precisamos fazer com que funcione antes de matar Schengen”, defendeu.

“O projeto europeu pode morrer, não em décadas nem anos, e sim muito rapidamente”

Rutte e Valls defenderam a necessidade de adotar medidas urgentes, como o acordo com a Turquia para controlar as máfias que ajudam os migrantes a fazerem a travessia marítima, reforçar as fronteiras externas da UE e cumprir os acordos para a distribuição dos refugiados entre os países da UE. São os mesmos temas que os dirigentes europeus estão há meses discutindo, com poucos avanços. “Se quisermos que a Europa seja mais forte, basta uma só questão: é a implementação dos acordos, estúpido!”, sentenciou Schäuble, parafraseando um bordão cunhado por um assessor do então candidato presidencial norte-americano Bill Clinton em 1992.

Nos últimos dias, em várias ocasiões ecoaram em Davos críticas duras à gestão grega da crise de refugiados, e nesta quinta-feira, por fim, Tsipras pôde se defender. “Queremos ser parte da solução, não do problema. Mas a cada dia enfrentamos muitas mortes em nossas costas, e não o podemos ignorar”, recriminou o primeiro-ministro grego. “É uma vergonha a incapacidade que a União Europeia está demonstrando em lutar com o que está acontecendo nos nossos mares. Enfrentamos uma crise pan-europeia, na qual precisamos trabalhar juntos e que nos recorda que a UE não pode ser uma união à la carte”, concluiu.

Os participantes concordaram nesta quinta-feira que a resposta correta a esta crise é “mais Europa ao invés de menos”, uma frase que ameaça se transformar em um mero slogan sobre a necessidade de integração, mas vazia de qualquer compromisso concreto. Houve uma ou outra proposta inovadora, especialmente em se tratando de alguém que defende como poucos a máxima austeridade financeira. O ministro alemão de Finanças propôs a criação de uma espécie de plano Marshall para investir “bilhões de euros” no desenvolvimento econômico de países e regiões onde os conflitos ocorrem, evitando assim a saída maciça de seus cidadãos. A Grécia, pelo contrário, exigiu a necessidade de cumprir os compromissos de reformas e ajustes.

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