Atentado 'Charlie Hebdo'

Que fim levou ‘Charlie Hebdo’?

Transformado em símbolo da liberdade, jornal saneou suas finanças, mas vive conflitos Atentado que deixou 12 mortos na redação do semanário francês completa um ano

Capa da última edição do 'Charlie Hebdo', em uma banca em Niza.E. Galliard

Meses atrás, o redator Patrick Pelloux, sobrevivente da chacina, foi assistir a um documentário sobre François Cavanna, o fundador do jornal em 1969. Ao sair da sala do cinema, tinha uma convicção: “O jornal era formado por um grupo de sujeitos reunidos em um bar, que bebiam enquanto desenhavam. Nós perdemos isso. Agora, se alguém dá uma risada na redação, logo se sente culpado”. Pouco depois, Pelloux decidiu deixar a publicação. A mesma coisa tinha acabado de ocorrer com um integrante histórico da equipe, o desenhista Luz, que assinou a capa da primeira edição depois do atentado, o número especial dos “sobreviventes” que vendeu 7,5 milhões de exemplares no mundo inteiro. Pelloux atribuiu sua saída ao cansaço causado pelo tratamento “sob a responsabilidade de três psiquiatras diferentes”. Luz se disse cansado de desenhar Maomé e alegou “problemas de inspiração”.

"Para a equipe, foi difícil superar o choque pós-traumático"

Os dois não mencionaram, porém, outros tipos de problemas, relacionados à disputa ocorrida dentro do jornal nos últimos meses. Já em março do ano passado, 15 integrantes da redação –entre eles, Pelloux e Luz—haviam publicado um artigo no jornal Le Monde em que denunciavam o funcionamento “opaco” da publicação e exigiam que fosse formada uma cooperativa, em que cada membro da equipe teria a mesma participação dos demais.

“Não aceitamos que um punhado de indivíduos assuma o controle, seja total ou parcial, com um desprezo absoluto por aqueles que o produzem e o apoiam”, afirmava o texto. Hoje, a publicação é propriedade do novo diretor, Riss (70%) e do diretor financeiro, Éric Portheault (30%). Sobreviventes do atentado no Charlie Hebdo, ambos se negam a criar essa cooperativa, mas se comprometeram a reinvestir todo o lucro obtido nesse ano no próprio jornal.

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O título daquele violento artigo continua pairando sobre a publicação: “Como escapar do veneno dos milhões?”. Aos ganhos registrados por suas vendas impressionantes, que hoje giram em torno de 100.000 exemplares por edição depois de ter atingido os 200.000 em meados do ano passado (antes da tragédia, as vendas não chegavam a 30.000), somam-se 4,3 milhões de euros (cerca de 18 milhões de reais) provenientes de 36.000 doações particulares efetuadas em 84 países, além de um milhão de euros (cerca de 4,2 milhões de reais) liberados pelo Ministério da Cultura da França. O Charlie Hebdo, além disso, contaria hoje com cerca de 200.000 assinantes. Antes do atentado terrorista, esse total não chegava a 10.000.

“No conjunto, o jornal reúne entre 20 e 28 milhões de euros (entre cerca de 84 e 118 milhões de reais)”, calcula Denis Robert, repórter investigativo que revelou o caso Clearstream. Agora, ele está lançando Mohicans, um livro sobre o passado e o presente do Charlie Hebdo, no qual analisa como o ideal de seus fundadores se transformou em uma “marca comercial”. “Apesar de todo esse dinheiro, o futuro do Charlie Hebdo continua frágil. Seus responsáveis precisam entender que esse dinheiro não lhes pertence. Eles deveriam criar um jornal aberto e generoso, mas estão fazendo o contrário. A direção e a equipe não se falam. Se a coisa continuar assim, acabarão desaparecendo”, avalia Robert. Apesar de suas críticas, o autor continua a comprar o jornal todas as semanas: “Mais vale um Charlie Hebdo ruim do que nenhum”.

"Agora, se alguém dá uma risada na redação, logo se sente culpado"

O cineasta Emmanuel Leconte, por outro lado, acaba de lançar na França o documentário L’humour à mort (Humor à beira da morte), em que os sobreviventes explicam como passaram o ano transcorrido desde aquele 7 de janeiro de 2015. “A grande manifestação cidadã de 11 de janeiro em defesa da liberdade de expressão os estimulou a seguir em frente. Pela primeira vez, eles se deram conta de que não estavam sozinhos. Mas logo veio a descida ao inferno”, conta Leconte, referindo-se aos que se negaram a proclamar o lema Je suis Charlie (eu sou Charlie). “O Papa Francisco disse que a fé não podia ser objeto de piada, alguns escritores do PEN Club se opuseram a que se concedesse um prêmio ao jornal e o demógrafo Emmanuel Todd publicou um livro que chamava os seus defensores de católicos zumbis. Para a equipe, foi difícil superar o choque pós-traumático. Dormem mal há meses, não têm vida pessoal e se sentem à beira de um ataque de nervos”, afirma Leconte.

Uma edição especial, um ano depois

Nesta quarta-feira, chegou às bancas uma edição especial com 32 páginas e tiragem de um milhão de exemplares, com desenhos dos ilustradores mortos, como Charb, Honoré, Wolinski e Tignous, e mensagens de apoio de personalidades como Juliette Binoche, Charlotte Gainsbourg, Isabelle Adjani e a ministra da Cultura, Fleur Pellerin.

Em seu editorial, Riss afirma que o futuro do jornal não está em risco. “Nunca tivemos tanta vontade de quebrar a cara daqueles que sonhavam com o nosso desaparecimento”, escreve o diretor. “Não serão uns cretinos encapuçados que conseguirão colocar por terra o trabalho de toda a nossa vida e os momentos maravilhosos que vivemos com os que morreram. Não serão eles que irão matar o Charlie. O Charlie é que os verá morrer”.

Além disso, a França fará nesta semana várias homenagens às vítimas. Depois de concessão da Legião de Honra póstuma aos chargistas e jornalistas falecidos, diversas placas comemorativas foram inauguradas nesta terça-feira em vários pontos de Paris. Uma cerimônia em sua memória foi convocada para o próximo domingo na Praça da República. A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, plantará uma simbólica “árvore da recordação”, em homenagem às vítimas.

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