O Rio Olímpico agoniza na UTI sem dinheiro para pagar hospitais públicos

Crise fecha hospitais estaduais e as UPA's só atendem pacientes à beira da morte

Família percorre quatro hospitais até ser atendida no Rio.
Família percorre quatro hospitais até ser atendida no Rio. Custodio Coimbra / Agência O Globo
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O desequilibrio nas finanças do Estado, castigadas pela queda do preço do petróleo que alimentava em forma de royalties os cofres públicos, atrasou os pagamentos no sistema de saúde e faltam de luvas e antibióticos até médicos, que não recebem desde novembro. O governador Luiz Fernando Pezão decretou estado de emergência na saúde por 180 dias.

A gestão dos recursos também é questionada nessa crise, que em menos de uma semana colocou em xeque um sistema que atende milhões de pessoas em 92 municípios. Como denunciou a rádio CBN, uma unidade de urgência solicitou à Secretaria da Saúde oito reanimadores, utilizados em pacientes com problemas respiratórios, que foram negados por estarem reservados para as Olimpíadas, que acontecerão em agosto do próximo ano.

A cabeleireira Paula Farias, de 21 anos, andou 30 quilômetros na quarta-feira com o filho na cadeira de rodas para passar por uma consulta em Copacabana. O menino, de quase três anos, está há uma semana com vômitos que não cedem. A resposta na recepção da UPA da região é a mesma há uma semana: “Não podemos atendê-lo. Só cuidamos de casos de risco de morte”. Disseram para a jovem ir a um hospital municipal, mas ela decidiu voltar para casa. “Não vou até lá para que não ser atendidad de novo”. A mesma reação teve Maria da Conceição, de 35 anos, que deixou de limpar a casa onde trabalha para saber se tinha dengue ou zika, vírus transmitido por um mosquito que colocou o país inteiro em estado de alerta. Com erupções cutâneas em todo o corpo, dores de cabeça e na parte posterior dos olhos, Rosemari voltou para casa para ir para a cama. “A dengue também mata”, murmurou ao sair do centro médico.

A 36 quilômetros de Copacabana, com alguns cachorros de rua na entrada, paredes descascadas e visitantes fumando nas janelas, o hospital estadual Albert Schweitzer se consolida como símbolo da decadência do sistema. Seus diretores, que assim como os enfermeiros ainda não receberam o salário de novembro e nem o 13º salário, foram até a delegacia de polícia no fim de semana para denunciar que não têm condições de manter o centro normalmente. A intenção não é que a polícia intervenha na questão, mas proteger-se de possíveis responsabilidades em caso de que a falta de assistência ou de material básico tenha consequências mais graves. Em um dos bares próximos ao hospital, três mulheres contavam o calvário dos últimos 15 dias depois que sua sogra, de 84 anos, quebrou o fêmur em uma queda. “São excelentes médicos e enfermeiros, mas passamos duas semanas esperando uma prótese para ela poder ser operada. Duas semanas! Minha sogra trabalhou a vida toda para chegar a isso?”, pergunta Rosemari Oren, de 39 anos. “O Rio de Janeiro só pensa na Olimpíada. Veja como as obras não param, mas não há dinheiro para pagar nossa saúde”.

Outros centros de referência contornam como podem os números vermelhos cancelando, entre outras coisas, cirurgias. O Hospital da Mulher fechou seu pronto-socorro na segunda-feira e era possível ver em sua porta mulheres grávidas chorando de dor, o Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia não tem seringas nem fita adesiva e o Instituto de Cardiologia Aloysio de Castro fechou leitos porque seus médicos, sem receber, começaram a faltar. O presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj), Pablo Vázquez, qualificou o cenário de "situação criminosa, onde estão acontecendo agravos à saúde que são evitáveis e até mortes evitáveis".

Num efeito dominó, o colapso na rede estadual aumentou a demanda nos hospitais municipais em 30% e já prejudica o atendimento. Para garantir a recepção de emergências, cirurgias não prioritárias foram suspensas e médicos que faziam consultas foram deslocados às urgências. A situação é tão grave que a prefeitura se comprometeu a emprestar 100 milhões de reais aos colegas do Estado para comprar suprimentos que permitam a retomada da operação dos hospitais. O Governo Federal também vai auxiliar e criou um gabinete de crise para fortalecer o sistema com a integração de hospitais federais, materiais e verbas que o Governo deve ao Estado. O governador Luiz Fernando Pezão calculou que precisa de 350 milhões de reais para restaurar uma normalidade, que já era precária. Até hoje ele consegiu 297 milhões para quitar dívidas. A Justiça, no entanto, decretou na quarta que todos os valores que faltam para cumprir o percentual de 12% de sua receita no ano para à saúde sejam enviados em 24 horas, com multas de 50.000 reais diários em caso de descumprimento. O montante alcança os 636 milhões,

Na ação, movida por um gabinete de crise formado pelos ministérios públicos estadual e federal, pelo Sindicato dos Médicos do Rio e pelas defensorias públicas do estado e da União, alega-se que, até hoje, o governador só gastou 9,74% das receitas do Estado em saúde, embora a Constituição determine uma margem mínima de 12% para o setor, informou o diário O Globo. Segundo o Portal da Transparência da Secretaria estadual de Fazenda, diz o jornal, o governo autorizou gastos de 5,15 bilhões de reais do orçamento do setor, mas só 3,7 milhões (73%) foram pagos.

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