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Número de casos de microcefalia sobe para 1.248 e já atinge 13 Estados e DF

Ministério da Saúde confirmou, no último sábado, a relação da doença com o zika vírus

Órgão fala em "situação inédita na pesquisa científica mundial"

Agência Brasil

O Ministério da Saúde confirmou no início da tarde desta segunda-feira que o número de casos de microcefalia, uma malformação congênita cerebral, aumentou para 1.248 no país e já atinge 13 Estados. Os dados fazem parte do novo boletim epidemiológico, que apresenta dados até a última sexta-feira, 28 de novembro. No sábado, o órgão confirmou a relação da microcefalia com o zika vírus, uma doença que chegou ao país neste ano e que é transmitida pelo mesmo vetor da dengue, o mosquito Aedes aegypti.

Segundo o novo boletim, Pernambuco, o primeiro Estado a registrar um aumento anormal de microcefalia, continua na dianteira do número de casos, com 646 - o Estado declarou no último domingo dois decretos de emergência (um para Pernambuco e outro para Recife) para ampliar o combate ao Aedes aegypti, o que permite contratações de serviços sem licitação.

Em seguida, em número de casos de microcefalia, estão a Paraíba (248), Rio Grande do Norte (79), Sergipe (77), Alagoas (59), Bahia (37), Piauí (36), Ceará (25), Rio de Janeiro (13), Tocantins (12) Maranhão (12), Goiás (2), Mato Grosso do Sul (1) e Distrito Federal (1). A nota também afirma que subiu para sete o número de recém-nascidos mortos. "Um recém-nascido do Ceará, com diagnóstico de microcefalia e outras malformações congênitas por meio de ultrassonografia, teve resultado positivo para vírus zika. Outros cinco no Rio Grande do Norte e um no Piauí estão em investigação para definir causa da morte", apontou o documento.

No último sábado, o órgão afirmou que a confirmação da relação do zika com os casos de microcefalia é uma "situação inédita na pesquisa científica mundial". A confirmação da correlação ocorreu após a identificação da presença do vírus em amostras de sangue e tecidos do recém-nascido que morreu no Ceará. O teste foi feito pelo Instituto Evandro Chagas, ligado ao ministério em Belém.

O ministério disse também que foi notificado, na sexta-feira (27), pelo Instituto Evandro Chagas sobre outros dois óbitos relacionados ao vírus. "As análises indicam que esse agente pode ter contribuído para agravamento dos casos e óbitos. Esta é a primeira ligação de morte relacionada ao vírus Zika no mundo, o que demonstra uma semelhança com a dengue". 

O primeiro caso é de um homem com histórico de lúpus e de uso crônico de medicamentos corticoides, morador do Maranhão. O segundo, é de uma menina de 16 anos, do município de Benevides, no Pará, que morreu no final de outubro. Ela apresentou dor de cabeça, náuseas e petéquias (pontos vermelhos na pele e mucosas).

O Governo destacou ainda que "o achado reforça o chamado do Ministério da Saúde para uma mobilização nacional para conter o mosquito transmissor do vírus, o Aedes aegypti, responsável pela disseminação da dengue, zika e chikungunya". Nesta segunda, o ministro Marcelo Castro lança em Pernambuco o Plano Nacional de Enfrentamento ao Aedes Aegypti, que englobará o Grupo Estratégico Interministerial de Emergência em saúde Pública de Importância Nacional e Internacional (GEI-ESPII), que envolve 19 órgãos e entidades.

Síndrome de Guillain-Barré

A microcefalia é uma malformação congênita em que o cérebro do feto não se desenvolve de maneira adequada. O bebê, quando nasce, apresenta um perímetro cefálico menor do que os 33 centímetros considerados normais. Além de trazer risco de morte, a condição pode ter sequelas graves para os bebês que sobrevivem, como dificuldades psicomotoras (no andar e no falar) e cognitivas (como retardo mental).

Até a divulgação desta nota no último sábado, ainda não havia uma certeza absoluta do que havia causado este aumento. A grande dificuldade de indicar as causas acontece porque, como a malformação se dá, geralmente, nos três primeiros meses de gestação, quando o bebê nasce com microcefalia já não é possível detectar se a mãe foi infectada pelo vírus, apesar de muitas dessas mulheres relatarem que haviam apresentado sintomas similares aos da infecção por zika. Depois da suspeita de correlação, as equipes de saúde começaram a realizar punção do líquido amniótico de gestantes com fetos diagnosticados com microcefalia. Em duas dessas gestantes, na Paraíba, se detectou a presença do zika. Essa foi a primeira vez, no mundo, em que se percebeu a presença do vírus no líquido amniótico, o fluído que envolve o feto e ajuda a alimentá-lo. 

O vírus zika é semelhante filogeneticamente aos da dengue e da febre amarela. Ele foi descoberto pela primeira vez na floresta de Zika, em Uganda, em 1947, mas, até 2007, era relativamente desconhecido, até que surgiu um grande surto em ilhas próximas aos Estados Federados da Micronésia (acima da Austrália). Entre outubro de 2013 e fevereiro de 2014, um novo surto atingiu a Polinésia Francesa, com 8.264 casos suspeitos. Nesta ocasião, foram identificados 38 casos de pessoas que haviam sido infectadas pelo zika e que desenvolveram a síndrome de Guillain-Barré, uma doença caracterizada por uma inflamação aguda do sistema nervoso. Isso seria um indicativo de que o zika tem uma atração pelo sistema nervoso, o que ajuda a explicar a existência da microcefalia como uma das consequências da doença.

Em fevereiro de 2015, começaram a surgir no Brasil casos que depois foram atribuídos à doença. Segundo um boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, eles se concentravam na região Nordeste do país e, na maioria, atingiam pessoas de 20 a 40 anos. De acordo com o ministério, já foram registrados casos de zika vírus em 18 Estados, entre eles Rio de Janeiro e São Paulo. O órgão, entretanto, não divulga a quantidade de pessoas infectadas oficialmente porque diz que o número não é exato, já que a doença não é de notificação compulsória (os sistemas de saúde não são obrigados a informar às secretarias de saúde quando atendem um paciente doente).

Mas um relatório da coordenação do Programa Nacional do Controle da Dengue, também do Ministério da Saúde, pode indicar o tamanho da infecção no país: haviam sido notificados no Brasil até o mês passado 84.931 casos de zika por algum dos sistemas de vigilância- os dados estão, provavelmente, bastante subestimados, porque muitos sistemas de saúde não notificaram seus casos e, além disso, em muitos casos, o zika pode ter sido confundido com a dengue.

A Bahia, que teve seus dados confirmados pela Secretaria Estadual da Saúde, apresentou a maior parte dos casos de zika: 62.635, o que levanta preocupação. O Estado já havia registrado neste ano um aumento de casos de síndrome de Guillain-Barré.

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