Eleições na Espanha

Rita Bosaho, a primeira deputada negra eleita na Espanha

"É preciso mudar a estrutura do patriarcado", diz a deputada do Podemos

A candidata Rita Bosaho, número um de Podemos em Alicante.foto: Ricardo GUTIÉRREZ | VÍDEO: ÁLVARO R. DE LA RÚA / JOSÉ LUIS ARANDA

Apenas fala que sua saída da Guiné, aos quatro anos, “foi um pouco traumática”, que foi recebida por uma família de pai militar, que viveu em Cádiz e Cartagena antes de chegar a Alicante, que tem uma irmã mais velha, Pepa, “que me apoia muito”, assim como seu companheiro e seu filho de 23 anos, que está se formando. “Tenho um amplo ambiente familiar e de amigos que me ajuda”, entre outras coisas, a superar “a vertigem” que sente ao ver como aparece “até mesmo na imprensa estrangeira”, lidar em um debate televisivo local com a experiência de um ministro de Relações Exteriores, como José Manuel García Margallo, que não deixou de lembrar as relações do seu partido com a Venezuela, ou ler como a chamam de “feminazi” em alguns comentários.

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Pergunta. Licenciada em História e profissional de saúde, o que a levou à política?

Resposta. Colaboro há mais de dez anos com uma pequena ONG chamada Projeto Cultura e Solidariedade, com projetos na África e na América Latina, viajei há seis anos para a Guiné, sou hispano-guineense e estou interessada nos problemas das pessoas dos dois lados.

P. Também se define como feminista.

R. Sim, porque acredito que a luta feminista é política. Chegar à igualdade real deveria ser uma questão de Estado. Um dia antes de ir votar vi de novo o filme sobre Clara Campoamor. É preciso saber quanto custaram as coisas que temos, e que avançamos muito em algumas coisas e nem tanto em outras.

P. Mas é consciente de que o fato de ser negra foi o que a transformou em uma deputada singular.

R. Claro. Porque isso manda uma mensagem de que precisamos lutar por um mundo de pessoas, e que há grupos que não estão representados na sociedade, que não têm voz. Só precisamos ver como vivem nossos compatriotas ciganos, as mulheres ciganas que são espanholas como todos, para entender que ainda temos muito trabalho.

P. Sem experiência prévia, como viveu a intensidade de duas campanhas eleitorais em apenas seis meses? (Em maio foi candidata por Podemos ao Parlamento valenciano).

R. As eleições gerais, por ser a cabeça da lista, tiveram muito impacto. E foi brutal. Somos pessoas da rua que viemos mudar as instituições. E vivi tudo isso com uma grande responsabilidade e muito nervosismo. E sem a experiência de pessoas que estão há muito tempo neste terreno. Mas sem complexos. Porque dois dias antes da campanha eu estava fazendo meus turnos no hospital. Combinei meu trabalho com minha militância política.

P. Qual é a sua relação com Pablo Iglesias [líder do Podemos]?

R. Muito boa. Acredito que agora nos conheceremos melhor, mas é uma pessoa simpática, próxima e preocupada com os problemas das pessoas.

P. Você acha que a campanha foi determinante para o bom resultado conseguido?

R. Foi muito boa. Vimos uma proximidade impressionante das pessoas, e uma ilusão que deve nos fazer pensar que, se não fizermos algo, vamos perder um momento histórico. É verdade que podemos mudar o curso da história. O que está faltando aos políticos deste país é estar perto das pessoas, por isso governam de costas para elas.

P. E do mais próximo? O que é mais urgente a ser resolvido em Alicante?

R. Temos um problema sério de falta de financiamento da Comunidade Valenciana. E estamos preocupados também com a infraestrutura de transportes. Se fosse investido aqui o correto, estaríamos quase no Paraíso. É preciso investir no turismo, mas ao mesmo tempo proteger o meio ambiente, não como nos anos da bolha imobiliária.

P. Qual parte do seu sucesso é devido ao cansaço dos eleitores com os frequentes casos de corrupção?

R. Foi fundamental. É um mal endêmico do nosso sistema. E é preciso lutar contra isso, como contra a perda de direitos sociais, a reforma trabalhista, a incapacidade de proteger nossa saúde, a falta de orçamento contra a violência de gênero...

P. Você fala muito sobre este problema. O que acha que estamos fazendo de errado?

R. Foram feitos muitos cortes. E quando se fazem tantos cortes no orçamento que são destinados a setores específicos para trabalhar com as pessoas... Não é razoável que mais da metade da população esteja sofrendo por causa da outra metade, digamos, sem acusar ninguém, e que nossos direitos não sejam visibilizados. Isso tem a ver com a estrutura do patriarcado, e exige mudanças culturais, de educação... É preciso fazer algo. Por que nas grandes instituições não há mulheres? Há continentes como a África que funcionam quase exclusivamente pelas contribuições econômicas feitas por mulheres e, no entanto, elas não estão representadas nas instituições. E isso é um problema estrutural. E mundial. Por que garotas se arrumam para seus namorados? É preciso tornar nossa sociedade feminina.

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