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As mulheres da Arábia Saudita estreiam como eleitoras e candidatas

130.637 estão registradas para votar, em comparação com os 1,35 milhões de homens

Un grupo de mujeres saudíes se toman una fotografía en un centro comercial en Yeddah Ampliar foto
Grupo de mulheres sauditas tiram uma fotografia em um shopping center em Jidá, na quinta-feira. GETTY

Nada indica em Jidá que neste sábado estão sendo realizadas eleições. Não há cartazes nem anúncios de comícios nem a algazarra que costuma acompanhar esses eventos. No entanto, essas eleições municipais na Arábia Saudita são históricas. São as primeiras em que se permite a participação das mulheres —submetidas por toda a vida à tutela do pai ou marido— como eleitora e candidatas. No entanto, a preocupação com a instabilidade regional ofusca o interesse por uma eleição que provocou um intenso debate sobre o papel da mulher na vida pública.

Apenas um punhado de mulheres comparece ao salão de um elegante hotel para onde Lama al Sulaiman convocou suas potenciais eleitoras. “É normal, a maioria eu contatei antes em eventos sociais ou por telefone. Não querem expor-se à presença da mídia”, justifica, antes de falar sobre o quanto a sociedade de seu país é conservadora. Al Sulaiman, membro de uma proeminente família empresarial de Jidá e com experiência na Câmara de Comércio dessa cidade costeira, é uma entre mil pioneiras que, com 6.000 homens, se candidataram.

Embora o sufrágio feminino tenha sido anunciado pelo então rei Abdullah, em 2011, faz apenas meio ano que começaram a ser elaboradas as normas e procedimentos, o que desencadeou um acalorado debate sobre o papel das mulheres na vida pública. Os clérigos mais conservadores se uniram contra sua participação, condenando-a nas redes sociais. E isso apesar de todo o processo, desde a inscrição ao voto, passando pelas campanhas, transcorrer sob estrita segregação dos sexos.

Prova da enorme sensibilidade sobre o assunto foi a decisão da Junta Eleitoral de não permitir que os candidatos divulguem suas fotografias. Em uma sociedade na qual a maioria das mulheres ainda cobrem o rosto em público, com o niqab, ter permitido as imagens (algo que foi possível nas duas votações anteriores, em 2005 e 2011) representaria uma discriminação. Claro que também é uma discriminação a proibição de dirigirem veículos e a necessidade de ter permissão de um homem (seu tutor legal) para estudar, trabalhar, viajar ou ser candidata.

Ninguém se engana sobre o verdadeiro alcance desse exercício eleitoral, ampliado também com a permissão para os maiores de 18 anos (até agora só votavam a partir dos 21). A eleição preencherá dois terços dos conselhos municipais, em vez da metade atual.

“É uma questão de visibilidade”, defende Sumayya Jabarti, diretora da Saudi Gazette, algo sem precedentes em um jornal saudita. “É a primeira vez que nos dão essa oportunidade, e temos de aproveitá-la”, ressalta, convencida do valor simbólico da votação.

No entanto, apenas 130.637 mulheres se registraram para votar, em comparação com 1,35 milhão de homens, um porcentual escasso em relação aos potenciais eleitores entre os 20 milhões de sauditas. “Estou impressionada de que tenham sido tantas, considerando que somente houve seis meses de conscientização. As pessoas não estão instruídas sobre a importância de participar. Os sauditas estão acostumados a que outros tomem decisões por eles”, justifica Al Sulaiman.

A evolução do sufrágio feminino

REUTERS

As mulheres não tinham direito de voto em duas das democracias mais antigas: a Grécia antiga e Roma.

A Nova Zelândia foi em 1893 o primeiro país a reconhecer o direito de voto feminino. O primeiro na Europa foi a Finlândia, em 1906.

No Brasil, as mulheres só puderam votar a partir de 1932, quando o Governo Vargas instituiu o Código Eleitoral Brasileiro. 

Elas puderam votar antes no Canadá, Alemanha e União Soviética do que nos Estados Unidos (1920) e Reino Unido (1928).

Lichtenstein foi o último país europeu, em 1984.

“As eleições não são sobre as mulheres, mas sobre a participação dos cidadãos”, observa Samar Fatany, precursora da presença feminina nos meios de comunicação sauditas.

Aí reside o problema. Pelo que dizem algumas ativistas, as pessoas estão perdendo a esperança. “A maioria está mais preocupada com as guerras na Síria e no Iêmen, o extremismo, a islamofobia... Vemos as imagens diariamente e o panorama é deprimente”, argumenta uma delas. Em consequência, sentem que “a causa da mulher deixou de ser uma prioridade”.

“Em todo mundo tem sido assim, as mulheres não são uma prioridade, a não ser que se encaixem na agenda política. A Arábia Saudita não é diferente”, admite Al Sulaiman. “O que se supõe que devemos fazer? Uma revolução? As tradições, as crenças, os valores não mudam da noite para o dia. Queremos viver em prosperidade e segurança. Olhamos ao nosso redor e há poucos países que sirvam de modelo”, reflete, deixando entrever seu mal-estar com as contínuas críticas de que a Arábia Saudita é alvo.

“O que é realmente importante é que hoje até mesmo as garotas que se cobrem completamente buscam trabalho no setor privado quando saem da universidade, algo que em 2004 era impensável”, enfatiza, defendendo o avanço em seu ritmo próprio. “Expor constantemente as fragilidades de um país aumenta a insegurança de seus habitantes, e a perturbação que isso causa nos jovens os leva a se isolarem”, afirma. “Vejam-nos como indivíduos, não como rebanhos”, reclama, convencida de que, se for eleita, sua experiência como gestora será útil para seus compatriotas.

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