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As mulheres poderão votar pela primeira vez na Arábia Saudita

Gesto tem peso simbólico, apesar da pouca relevância das câmaras municipais

Mulheres sauditas em Riad.
Mulheres sauditas em Riad. Reuters

As mulheres sauditas poderão exercer o direito ao voto pela primeira vez. Será nas próximas eleições municipais na Arábia Saudita, durante o mês islâmico de Dhul Qada, que vai de 16 de agosto a 13 de setembro, conforme anuncia a imprensa local nesta sexta-feira. Apesar do escasso peso político das câmaras de vereadores no reino, a convocação parece ter o objetivo de transmitir segurança, num momento de remodelação da cúpula do poder.

"Comissões locais com 20% de integrantes mulheres foram estabelecidos em todas as regiões para organizar as eleições", declarou Abdulrahman al Dahmash, presidente da Comissão Eleitoral saudita, citado pelo jornal Arab News. O funcionário também declarou que “serão tomadas medidas especiais para que a participação das mulheres seja conforme a lei islâmica”, sem esclarecer em que consiste isso.

Há quatro anos, quando o então rei Abdullah concedeu por decreto o direito ao sufrágio feminino, a decisão foi manchete em todos os jornais do reino, mas desde então não houve ocasião para que essa novidade fosse implementada. “A sociedade saudita mudará para sempre”, comentou o Arab News. As próprias interessadas, no entanto, se mostram menos entusiasmadas. Apesar da carga simbólica do voto feminino num país onde as mulheres ainda são proibidas de dirigir veículos e carecem de personalidade jurídica independente do pai ou do marido, a realidade é que nem as câmaras municipais nem o Conselho Consultivo (Majlis al Shura, até agora designado pelo rei) têm poder verdadeiro.

Como reflexo disso, a última eleição promovida no país, em 2011 —com voto exclusivamente masculino—, teve abstenção elevada. Apenas um quarto dos homens maiores de 21 anos se registrou para exercer esse direito, e nem todos foram às urnas. A irrelevância das câmaras, comprovada depois das primeiras eleições, em 2005, levou destacados intelectuais a boicotarem a convocatória e duas importantes organizações (a Associação Nacional de Direitos Humanos e a Associação de Jornalistas) a rejeitarem o papel de observadores.

Talvez com o objetivo de atrair um número maior de eleitores, as autoridades agora reduziram para 18 anos a idade mínima para o voto, num país eminentemente jovem, onde 60% da população tem menos de 30 anos.

Esse aceno é especialmente significativo por causa das mudanças em curso na cúpula do poder depois da morte do rei Abdullah, em janeiro. Exatamente nesta semana, o novo monarca, o rei Salman, concluiu uma reforma na ordem sucessória e no seu gabinete, reduzindo a idade média dos dirigentes de 79 para 56 anos. Apesar de não ter havido mudanças de política interna, as nomeações apontam para um desejo de melhorar os serviços públicos e reduzir a burocracia.

Além disso, de acordo com Al Dhamash, as novas câmaras municipais terão maiores poderes para controlar o desempenho das prefeituras, incluindo a atribuição de supervisionar orçamentos, investimentos e projetos de desenvolvimento. Nesta terceira convocatória, os sauditas poderão escolher dois terços dos vereadores, e não mais metade, como ocorria até agora.

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