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OPINIÃO

“Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?”

Sociedade deve vigiar para que se revele a verdade, arrancando as máscaras de quem pretende enganá-la

Catilina
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha. EFE

A convulsão política que o Brasil vive, com suas tramas, conjurações e acusações lançadas entre os diversos protagonistas, já aparece refletida em textos antigos.

O rei Salomão cunhou na Bíblia a sentença: “Não há nada novo sob o sol”. Isso já faz milhares de anos. Hoje, quando os acontecimentos do mundo e a crise no Brasil nos assombram e surpreendem como se fossem novos, todos nós precisaríamos, e ainda mais os políticos que nos governam, conhecer melhor alguns episódios da história e a literatura do passado, para entender melhor o que acontece ao nosso lado.

Na literatura de mais de 2.000 anos atrás já encontramos o pingue-pongue de mentiras e verdades cruzadas entre os protagonistas e as biografias contrapostas de santos e vilões.

Parecem significativas, por exemplo, as Catilinárias do senador, jurista, político, escritor e orador romano Marco Tulio Cícero e as parábolas evangélicas do sábio e inconformista pregador judeu Jesus de Nazaré.

Ambas as experiências político-religiosas de mais de vinte séculos atrás hoje adquirem força e atualidade.

Cícero foi uma peça chave contra Catilina, o senador populista, com vocação de ditador, ansioso por acumular todo o poder se valendo dos plebeus a quem tentava perdoar todas as dívidas. Desmascarou-o com a força das suas famosas Catilinárias, cujo eco permanece vivo na História de hoje.

Com sua oratória, o senador e escritor derrotou Catilina, que precisou ir embora de Roma, refugiando-se em Pistoia, e cujos sequazes acabaram vencidos e dispersados.

As primeiras palavras da mais famosa das Catilinárias, “Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?”, foi uma pergunta gritada no plenário do Senado Romano contra seu adversário.

Incriminou-o assim:

“Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há de zombar de nós a tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia desenfreada? (….) Nem os temores do povo, nem a confluência dos homens honestos, neste local protegido do Senado, nem a expressão do voto destas pessoas, nada consegue te perturbar? Não percebes que teus planos foram descobertos? Não vês que tua conspiração foi dominada pelos que a conhecem? Quem, entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, onde estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas?

O tempora, o mores! [Oh, tempos, oh, costumes!]”.

Existe hoje uma autoridade como a de Cícero para falar com convicção e eficácia aos responsáveis pelo Congresso e do Governo nacional, e para lhes perguntar, como fez há 2.000 anos o senador a Catilina: “Até quando pretendem abusar da nossa paciência?”?

A sociedade precisa vigiar e atuar para que a verdade venha à tona

Cem anos depois das Catilinárias de Cícero, outro personagem que também deixou sua marca na História, o profeta judeu Jesus de Nazaré, também provocou os fariseus, considerados os políticos puros, zelosos da lei, que usavam o poder contra seus adversários enquanto levavam uma vida dupla. Jesus, que os qualificou de “hipócritas”, os recriminou por colocarem sobre as costas das pessoas “pesos que elas não conseguem carregar”.

Gritava-lhes seus anátemas, desconcertando-os com suas enigmáticas parábolas. Uma delas atravessou os séculos como uma provocação aos que pretendem usar suas biografias de homens probos contra os considerados pecadores, admoestando aos primeiros a atirarem a primeira pedra contra quem pretende julgar os outros.

A mais clássica dessas parábolas é a do fariseu e do publicano [coletor de tributos]. O evangelista Lucas (18: 9-14) a transmitiu com a seguinte introdução: “Aos que se consideravam justos e menosprezavam os outros, Jesus lhes disse esta parábola”.

Em síntese: dois homens entram em um templo para orar. Um era um fariseu, pessoa pura, e o outro um publicano, considerado por isso mesmo ladrão e pecador.

O fariseu, arrogante, em pé, para ser mais bem visto, agradecia publicamente a Deus porque, dizia, “não sou como os outros, ladrão, injusto, adúltero, nem como esse publicano”.

O coletor de impostos, meio escondido ao final do templo, com os olhos baixos, rezava dizendo: “Deus, compadecei-vos deste pecador”.

Jesus, o provocador, contou: “O publicano saiu do templo perdoado, e o fariseu, julgado”. Como assim? Jesus explicou que quem se gaba de ser justo acabará derrotado, e quem confessa ser pecador sairá vitorioso. Outra forma de traduzir isso seria dizer que quem é incapaz de reconhecer seus erros acaba derrotado, pois são mais perdoados aqueles que se mostram capazes de admitir que erraram.

Os sábios, antigos e modernos, nos ensinam que as coisas, na política e na vida, nem sempre são tão evidentes como acreditamos ou como tentam nos impor. A realidade é sempre mais complexa do que parece.

Para entendê-la, sem nos deixarmos levar por miragens, é necessário, também hoje, saber decifrar em cada fato e em cada confissão dos políticos o que suas palavras escondem de verdade ou de mentira.

Lembram-se das máscaras gregas?

A sociedade precisa vigiar e atuar para que a verdade venha à tona, para arrancar as máscaras de quem pretende, como diz o ditado, “nos dar gato por lebre”.

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