Operação Lava Jato

Delcídio do Amaral: um petista pouco querido pelos seus correligionários

Preso sob acusação de atrapalhar a Lava Jato, Delcídio sempre sofreu restrições do PT

O senador Delcídio do Amaral, em julho deste ano.
O senador Delcídio do Amaral, em julho deste ano.JAMIL BITTAR (REUTERS)

A prisão do senador Delcídio do Amaral sob a acusação de atrapalhar o andamento da Justiça (tudo gravado em áudio) é o desfecho de uma maré de más notícias que cercaram o senador nos últimos meses. Primeiro foi ver seu nome ligado à Operação Lava Jato (depois a investigação foi arquivada), na sequência foi filmado por socialites cariocas na ilha espanhola de Ibiza em meio à crise política brasileira e, por último, teve de explicar a ação de um motorista seu, que trocou sopapos com um deputado na entrada do Congresso Nacional.

Se de todas essas ele conseguiu se safar sem nenhuma mácula, dificilmente sairá completamente limpo da última. Ainda mais depois que o presidente do PT, Rui Falcão, emitir uma dura nota sobre a sua prisão. Eis um trecho do documento petista: "Nenhuma das tratativas atribuídas ao senador tem qualquer relação com sua atividade partidária, seja como parlamentar ou como simples filiado. Por isso mesmo, o PT não se julga obrigado a qualquer gesto de solidariedade".

Delcídio nunca teve vida fácil dentro do PT. Diretor da Petrobras durante os anos Fernando Henrique Cardoso, foi alçado como candidato ao Senado pelo Mato Grosso do Sul em 2002 a contragosto de boa parte do partido, que o via como um representante do PSDB. Pesou a seu favor, seus bons contatos na área financeira e com fortes doadores de campanha, entre eles o ex-bilionário Eike Batista, empresário que atuava na área de mineração.

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Neófito na política, Delcídio do Amaral conseguiu pegar duas ondas vermelhas em seu Estado. A primeira era do até então, bem avaliado Governo de José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT – que foi reeleito naquele ano— e a de Luiz Inácio Lula da Silva, que venceria naquela ocasião José Serra (PSDB) na eleição presidencial. Acabou eleito mesmo com menos apoio interno do que qualquer vereador já tivera. A boa aparência com suas bem-tratadas madeixas grisalhas (hoje já são em sua maioria brancas), a facilidade em discursar e ter o dono do maior jornal sul-mato-grossense (Antonio João, do Correio do Estado) como seu primeiro suplente também o ajudaram.

Logo após chegar ao Senado, foi “premiado” com o cargo de presidente da CPI dos Correios, aquela comissão que investigou o escândalo do mensalão petista. A escolha dele levou em conta a razão de que o PT precisava ter um representante no comando do grupo, mas não poderia colocar uma “raposa velha” da política. Internamente foi bem avaliado e saiu com a pecha de que era uma pessoa que prezava pela ética no Congresso Nacional.

Enquanto ganhava os holofotes no cenário nacional, em seu Estado sofria duas fortes derrotas políticas. Perdeu as eleições para governador em 2006 e em 2014. Na última vez, quando era favoritíssimo, escondeu o vermelho do PT para fugir do escândalo da Lava Jato e, mesmo assim, foi derrotado pelo seu antigo aliado, o PSDB. Um dos motivos para as derrotas, mais uma vez, foi a falta de apoio de sua legenda. O ex-governador e hoje deputado federal Zeca do PT, por exemplo, rompeu com ele em mais de uma ocasião. No meio dessas duas derrotas, Delcídio conseguiu se reeleger senador e, neste ano, foi escolhido o líder do Governo Dilma Rousseff no Senado.

Quando Dilma Rousseff o escolheu como seu representante no Senado, Delcídio decidiu assumir um cargo que poucos queriam. Dizia à época que pegou uma “bucha” e, em alguns momentos, pensou em recusá-la. Aliados de Rousseff diziam que ele era a pessoa mais adequada para a função pelas mesmas razões que o elevaram a presidente da CPI dos Correios, era petista, pero no mucho. Seu bom trânsito entre as bancadas dos opositores e do PMDB, principalmente, também ajudaram na sua assunção ao cargo.

O agravamento da crise política petista e a demora da presidenta a fazer uma reforma ministerial o forçavam a reavaliar sua decisão. Pensou em deixar o cargo e sua insatisfação era muito comum nas conversas com jornalistas. Nos últimos meses pouco participava das reuniões de coordenação política do Governo Rousseff por entender que audiências com mais do que três pessoas pouco funcionavam. “Quem quer ouvir 15 pessoas não ouve ninguém”, costumava dizer. Seus colegas do Legislativo, porém, raramente faltavam aos encontros. O senador José Pimentel e o deputado José Guimarães são figuras frequentes nas audiências.

Sempre falou palavrão escancaradamente, quando não estava em público. Não poupava quase nenhum ministro. Nos últimos tempos, os diálogos eram marcados mais por xingamentos a colegas de partidos do que qualquer outra coisa. Agora lê, na prisão, parte do troco, nas palavras do PT.

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