Atentado em Paris

A fuga do único terrorista de Paris que escapou deixa muitas dúvidas

Irmão do fugitivo Abdeslam afirma que ele recuou de atentado e pede que ele se entregue

O irmão de Salah Abdeslam, Mohamed, em uma homenagem às vítimas.
O irmão de Salah Abdeslam, Mohamed, em uma homenagem às vítimas.EMMANUEL DUNAND (AFP)

O único dos autores dos atentados de 13 de novembro contra Paris que conseguiu escapar, Salah Abdeslam, cruzou a fronteira para a Bélgica na mesma manhã dos ataques. As certezas sobre este jovem de 26 anos acabam aí. Não está claro qual o papel dele na loucura assassina do comando jihadista, apesar de tanto, seu irmão, como várias pessoas próximas, está convencido de que no último momento ele mudou de ideia sobre explodir o cinto de explosivos que usava preso a seu corpo.

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O irmão mais velho de Salah, Mohamed Abdeslam, foi preso pela polícia quando seus dois irmãos foram identificados como membros do comando, mas foi posteriormente liberado sem queixas. “Salah é muito inteligente e no último momento decidiu voltar atrás”, afirmou no domingo à rede belga RTBF em uma entrevista na qual pediu a Salah que se entregasse à polícia. “Ele viu algo que não correspondia ao que esperava. Quero lembrar que, por hora, não sabemos se ele matou alguém, se estava no local dos acontecimentos”, acrescentou.

As palavras de Mohamed Abdeslam batem com os dados da polícia sobre o papel de Salah no massacre. As primeiras informações o situavam no grupo que metralhou cinco bares junto com seu irmão Brahim — que se matou com explosivos na frente de um restaurante no boulevard Voltaire — e com um desconhecido — que depois se descobriu ser o mentor Abdelhamid Abaaoud, cujas digitais foram encontradas em um Kalashnikov. Porém, tanto a localização de seu celular, como um carro Clio abandonado que dirigia, possibilitam outra interpretação dos fatos: ele deixou os terroristas suicidas do Estádio — neste domingo, a polícia divulgou uma fotografia do terceiro deles para tentar identificá-los, e a BBC informou que se trataria de M. al Mahmod, que entrou pela ilha grega de Leros em 3 de outubro, como outro terrorista morto — e então abandonou o carro no distrito XVIII de Paris.

Fotografia de Salah Abdeslam divulgada pela polícia belga.
Fotografia de Salah Abdeslam divulgada pela polícia belga.

Na reivindicação dos atentados por parte do Estado Islâmico, falou-se sobre um quarto atentado exatamente nesse distrito, que nunca aconteceu, o que se encaixaria na tese de que Salah voltou atrás. Dos pelo menos nove autores dos ataques que custaram a vida de 130 pessoas e causaram 350 feridos, seis morreram como terroristas suicidas e um foi baleado pela polícia. O suposto organizador, Abaaoud, morreu na batida contra uma residência em Saint-Denis ao lado de outras duas pessoas — sua prima Hasna Aitboulahcen e um homem, que a polícia acredita se tratar de outro membro do comando ainda não identificado.

O décimo, Salah Abdeslam, conseguiu escapar depois de pedir ajuda a dois amigos, Mohammed Amri e Hamza Attou, que saíram de Bruxelas para buscá-lo em Paris e agora estão presos. No sábado, o carro em que os três estavam fugindo foi parado perto da fronteira belga, às 9h20, mas como eles não estavam fichados na França — e sim na Bélgica, ainda que pelo crime comum de assalto — conseguiram seguir adiante. Ali, a pista de Abdeslam se perde. Segundo o advogado de Attou, citado pela imprensa belga, Salah foi encontrado “extremamente nervoso” com um cinto de explosivos .

Os irmãos Abdeslam provinham do mesmo bairro de Bruxelas, Molenbeek, e conheciam o mentor dos atentados, Abaaoud, desde a infância. Desse distrito, que agora está no centro das investigações, saíram os autores da matança. Salah alugou os carros do comando e os quartos de hotel utilizados em Paris. Era apenas responsável pela logística dos assassinos ou deveria ter aberto uma quarta frente de terror? Está é uma das muitas perguntas sem resposta que este jovem, foragido há dez dias, deixou. “Está claro que Salah não se explodiu durante os atentados em Paris”, declarou Nathalie Galant, advogada de seu irmão, à rede BFM. “Se deveria ter participado, quer dizer que recuou e que agora é um alvo do EI, mas também da polícia, porque atualmente é apresentado como inimigo público número 1. A melhor solução para ele é entregar-se.”