Cebrián sustenta que, na Internet, não há lei maior que a do ‘software’

O presidente do Grupo PRISA e o presidente-executivo do Financial Times, John Ridding, conversam sobre o futuro do jornalismo

Juan Luis Cebrián, John Ridding e Diego do Alcázar.
Juan Luis Cebrián, John Ridding e Diego do Alcázar.Aurelio Martín

O presidente do Grupo PRISA (que edita o EL PAÍS), Juan Luis Cebrián, destacou o desaparecimento de barreiras que a tecnologia digital tem representado, inclusive para penetrar em diferentes mercados mundiais, mas advertiu que, algumas vezes, “a rede está cheia de mentiras, calúnias, insultos e estupidez”, as mesmas que, em sua opinião, alguns políticos dizem na vida real.

Durante um debate com John Ridding, presidente-executivo do Grupo Financial Times, no Hay Festival de Segóvia -que lotou essa cidade espanhola de escritores, artistas e intelectuais durante dez dias- Cebrián considerou que, nesse momento, “o sistema regulatório é inútil porque a norma da rede é o software, não a lei, o que os governos e as organizações internacionais parecem não compreender”. Por isso, entende que estamos em um momento de confusão, mas, citando como exemplos o EL PAÍS e o Financial Times, disse que veículos desse tipo poderão se defender melhor por se tratarem de “marcas muito institucionalizadas, de independência e qualidade comprovadas”.

Respondendo a perguntas do presidente da Universidade IE e ex-presidente do grupo de mídia Vocento, Diego del Alcázar, Cebrián disse que todo o sistema de financiamento da imprensa tradicional está em crise, ao ter perdido 70% de publicidade nos últimos oito anos e 60% de circulação no papel, o que provocou uma enorme crise de financiamento para os jornais.

Em sua avaliação, essa situação “acrescenta confusão à confusão que já existe com tantos [veículos] iniciantes que não têm respeito nem resistência às pressões ou à comprovação de fontes, mas a qualidade custa dinheiro”, para poder informar ou fazer jornalismo de investigação no terreno.

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O futuro ainda é incerto, disse Cebrián, porque será preciso “passar um tempo de confusão, como sempre que houve uma grande mudança tecnológica, onde se transformam os modelos de negócio, até que ocorra uma acomodação da organização social dos novos sistemas”.

E como deve ser o jornalista do futuro?, foi perguntado, ao que o presidente do PRISA respondeu que terá os mesmos valores que o jornalista de hoje, com a função de garantir a verdade, contar com fontes de qualidade e contestar informações, conhecendo a opinião das partes em conflito, de forma que “não mudará a atividade, mas suas habilidades”, afirmou. Diante de casos como a crise da Volkswagen e as possíveis pressões da publicidade sobre os meios de comunicação, afirmou: “O papel do jornal não é julgar, mas investigar e informar, ainda não se disse claramente que houve uma fraude real, alguém que tenha inventado um sistema para enganar, não pode ser obra de alguns, e a imprensa tem um papel de revelação da verdade, independentemente das consequências”.

Ao falar das redes sociais, John Ridding disse que podem servir de muita ajuda ao dar voz diretamente às pessoas, como se pôde ver na Primavera Árabe, por isso as considera um desafio, bem como uma grande fonte de informação, com o inconveniente de que não têm filtros e podem ser distorcidas, de forma que os meios de comunicação devem atuar como compiladores de vozes, contrastando fontes, e transmitir, “cooperando juntos”.

Concordando com Cebrián sobre o problema na Volkswagen, Ridding afirmou que o papel da imprensa internacional é seguir as pistas nesses casos e em suas ramificações, “investigar e lançar luz, encorajando os reguladores a fazer um trabalho melhor no futuro” para evitar esses casos.

Ainda que não tenha sido totalmente concluída a compra do Financial Times pelo grupo japonês Nikkei, Ridding anunciou que não vai haver mudança nos valores nem nos compromissos nos conteúdos, após uma decisão muito pensada e um processo longo.

Seguindo para o futuro, Cebrián explicou que uma das características da internet é que todos os modelos tendem a convergir e, por exemplo, agora, os jornais de qualidade estão preocupados com a produção de vídeos, fato que não se imaginava há 10 anos, enquanto as emissoras de televisão e rádio, como a BBC, produzem artigos, provocando uma grande competição. O Pearson, antigo proprietário do Financial Times, optou por se desprender dos veículos de comunicação e se concentrar na educação, o que faz prever mudanças importantes e uma tendência frequente pela globalização.