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FBI espionou Gabriel García Márquez

Documentos mostram que o FBI vigiou o escritor colombiano durante duas décadas

Fidel Castro e Gabriel García Márquez por volta de 1985, capa do livro “Gabo e Fidel. A paisagem de uma amizade”, de Angel Esteban e Stéphanie Panichelli.
Fidel Castro e Gabriel García Márquez por volta de 1985, capa do livro “Gabo e Fidel. A paisagem de uma amizade”, de Angel Esteban e Stéphanie Panichelli.

O FBI manteve sob uma discreta vigilância o escritor Gabriel García Márquez durante mais de duas décadas, por ordens diretas de seu mais lendário diretor, Edgar J. Hoover. É o que revelam documentos liberados por uma petição do diário The Washington Post e que mostram que a agência norte-americana seguiu os passos do prêmio Nobel de Literatura desde o momento em que ele se instalou em Nova York para trabalhar na agência de imprensa cubana Prensa Latina, em 1961.

O próprio Hoover parece ter assinado a ordem, datada a 8 de fevereiro de 1961, de que “caso (García Márquez) entrasse nos Estados Unidos por qualquer motivo, o FBI deveria ser avisado imediatamente”. Foi o que aconteceu quando Gabo deu entrada no hotel Webster de Manhattan com sua mulher, Mercedes Barcha, e o seu primogênito Rodrigo, naquele mesmo ano.

Entre os primeiros relatórios registrados sobre as atividades de García Márquez em Nova York estão detalhes como, por exemplo, que ele pagou 200 dólares por um mês de estadia no hotel nova-iorquino. As informações apontam que, nesses primeiros meses nos EUA, o FBI entrou em contato com pelo menos nove “informantes confidenciais” que mantinham a agência em dia com as idas e vindas do jornalista e escritor colombiano.

A vigilância manteve-se ativa durante 24 anos, embora, em certo momento, García Márquez já havia se tornado um renomado autor que se reunia com as principais autoridades mundiais, inclusive presidentes como o americano Bill Clinton, afirma o Post.

O diário obteve 137 páginas que se tornaram públicas sobre a operação – até agora desconhecida – que a agência federal manteve sobre o prêmio Nobel de Literatura. Como o FBI manteve outras 133 páginas do dossiê confidenciais, o Post reconhece que não pode descobrir o que motivou o interesse da agência pelo escritor colombiano, que naquela época ainda não havia alcançado fama internacional pelos seus romances mais renomados, como Cem Anos de Solidão (1967) ou, posteriormente, Amor nos tempos de cólera.

Mas, para seu filho Rodrigo García, embora a notícia da vigilância ao seu pai seja uma novidade, não constitui, de fato, qualquer surpresa.

“Considerando que esse colombiano estava em Nova York para abrir uma agência de imprensa cubana, o incomum seria que não espionassem”, disse o produtor, que mora em Los Angeles, ao jornal da capital. A ironia, acrescentou García, é que seu pai foi retirado da Prensa Latina alguns meses depois porque não era considerado suficientemente radical. “Meu pai não era um comunista de raíz. De fato, havia publicado alguns artigos sobre suas viagens a países socialistas e suas análises eram mistas. Logo, não era considerado um verdadeiro comunista, e perdeu esse emprego”.

Entretanto, a proximidade entre Gabo e a Cuba de Fidel Castro foi constante ao longo de sua vida, ao ponto de o escritor servir, em várias ocasiões, como intermediário entre Washington e Havana, segundo revelações do livro Back Channel to Cuba, publicado alguns meses depois da morte do escritor, em 17 de abril de 2014.

Embora não haja nenhuma evidência de que o FBI tenha aberto uma investigação criminal contra Gabo, com a revelação de que foi vigiado pela agência, o escritor latino-americano passa a fazer parte de uma seleta lista de autores sob a mira de Hoover, entre os quais estão o também Nobel e apaixonado por Cuba, Ernest Hemingway, John Steinbeck e Norman Mailer.