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Novos protestos vão às ruas em clima de ‘ruim com Dilma, pior sem ela’

Protestos em 17 Estados nesta quinta defendem o "fica Dilma", mas com ressalvas

Manifestantes pró-PT na frente do Instituto Lula no último domingo.
Manifestantes pró-PT na frente do Instituto Lula no último domingo. EFE

As ruas brasileiras serão tomadas nesta quinta-feira pela segunda grande manifestação em menos de uma semana. Desta vez, movimentos sociais de esquerda protestam em 17 Estados e no Distrito Federal contra o que chamam de “tentativa de golpe” dos atos anti-Rousseff do último dia 16, mas destacam que não pretendem comemorar o Governo da presidenta, já que farão críticas explícitas às políticas de austeridade que ela tem implementado. 

“Não se pode ter uma visão simplista de que o protesto do dia 16 foi de ‘fora Dilma’ e desse dia 20 é de ‘viva Dilma’. Não é”, afirmou Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) em uma coletiva de imprensa nesta semana. Ele ressaltou que a pauta do ato será “contra a ofensiva da direita” e que a saída de Rousseff implicaria em um Governo mais conservador. “Não achamos que isso seja uma saída para o povo brasileiro.”

A fala dura, na linha ruim com ela, pior sem ela, é um exemplo da subida de tom que a esquerda brasileira tem adotado contra o Governo da presidenta, que eles ajudaram a eleger em outubro do ano passado, durante a apertada eleição contra Aécio Neves (PSDB). Tinham a expectativa de que Rousseff, ao assumir, não fosse prescindir do apoio deles e adotasse políticas mais à esquerda. Mas não foi o que aconteceu. Não apenas ela escolheu ministros odiados pelos mais progressistas, como realizou restrições nos direitos trabalhistas e em áreas estratégicas, como saúde e a educação, como resposta à crise econômica do país.

Boulos, que tem sido o grande representante da voz dessa esquerda insatisfeita, já alfinetou por duas vezes Rousseff e o PT neste mês. A primeira delas, quando o partido não assinou o manifesto que convoca as pessoas para o ato e que trazia críticas ao ajuste fiscal do Governo. “O problema do Governo Dilma é que, quanto mais ele é emparedado pela direita, mais ele pende para a direita”, afirmou ele ao jornal O Globo. No último dia 13, em um evento em Brasília com a participação da presidenta, ele fez novas críticas, desta vez dirigidas diretamente à ela. “Estaremos firmes e decididos nas ruas para defender essa agenda [progressista] com unhas e dentes. A saída para o nosso país é com o povo e pela esquerda”, afirmou.

O manifesto lançado pelos organizadores do ato desta quinta-feira é assinado por 26 movimentos sociais e dois partidos políticos, o PSOL e o PCdoB –o primeiro faz oposição à Rousseff e o segundo pertence à base governista. Apesar de não ter assinado o manifesto das entidades, o PT tem apoiado o ato com convocatórias.

Dentre os signatários, também estão Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT), que são ligados ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A CUT tem sido enfática na defesa de Rousseff. No mesmo evento do dia 13, o presidente da entidade, Vagner Freitas, provocou polêmica ao declarar ser necessário “pegar em armas” para defender o Governo. “Somos defensores da unidade nacional na construção de um projeto nacional de desenvolvimento para todos e para todas. Isso implica nesse momento ir para as ruas entrincheirados com arma na mão se tentarem derrubar a presidenta Dilma Rousseff”, disse ele, que depois explicou ter usado “figura de linguagem” e não se referir a armas reais.

O endurecimento das críticas da esquerda são um retrato do desgaste petista diante, não apenas das camadas mais conservadoras, mas também em relação àqueles que compõem suas bases nas ruas. No Governo há 12 anos, o partido que antes mobilizava massas contra políticas neoliberais de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, é acusado de ser hoje o responsável por aplicá-las no país. Com isso, nem mesmo as políticas sociais progressistas, como o Bolsa Família, conseguiram contentar a esquerda mais ideológica que fundou o partido. O PT, que já chegou ser o preferido por 29% dos brasileiros, em março de 2013 (antes dos protestos de junho, portanto), agora é o favorito de apenas 9%, ainda na liderança, mas colado no PSDB e no PMDB. Uma queda livre que acompanhou a aprovação ao Governo de Rousseff, que era considerado ótimo ou bom por 65% das pessoas e agora só o é para 8%. Dentre os que afirmavam preferir o PT como partido, 40% disseram considerar o Governo ruim ou péssimo e 27% o classificaram como regular.

Ato também pedirá ‘fora Cunha’

T.B.

Não é apenas em relação ao lado de onde partem as críticas a Rousseff ou aos pedidos de que a presidenta fique ou vá embora que os manifestantes do dia 20 se diferem dos do dia 16. Ao contrário dos que foram às ruas no último domingo, os que protestam nesta quinta-feira fazem críticas contundentes ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

Se para os que pedem a saída de Rousseff ele é visto como a grande salvação do impeachment, porque articula a reprovação das contas dela na Casa, para os mais progressistas ele é considerado o grande responsável pelo aumento das políticas conservadoras no país.

Prestes a ser denunciado por corrupção no escândalo da Lava Jato, Cunha é acusado pela esquerda de usar o Congresso para se vingar e chantagear o Governo, que não o blindou da investigação. Com isso, ele impôs uma série de derrotas à pautas que poderiam ajudar a petista a melhorar sua imagem diante dos mais progressistas. Foi responsável pela aprovação de uma reforma política que não trazia o fim do financiamento privado de campanha, como defendiam os petistas, aprovou a redução da maioridade penal, ao contrário do que pediam os movimentos sociais, e não colocou em votação a taxação de grandes fortunas, como pediam os mais progressistas. Ele também anunciou que voltaria neste segundo semestre com uma “pauta-bomba”, com medidas que, inclusive, aumentariam os gastos federais.

“Eduardo Cunha representa o retrocesso e um ataque à democracia. Transformou a Câmara dos deputados numa Casa da Intolerância e da retirada de direitos”, afirma o manifesto das entidades que convocam o ato desta quinta. 

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