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A esquerda brasileira discute seu papel no novo mandato de Dilma

Militantes e políticos progressistas, que se aproximaram do PT no segundo turno, debatem se a luta por suas pautas será junto ao Governo ou com os movimentos nas ruas

Apoiadores de Dilma comemoram na avenida Paulista.
Apoiadores de Dilma comemoram na avenida Paulista. AFP

No último domingo, centenas de jovens tomaram a avenida Paulista para comemorar a reeleição de Dilma Rousseff. Mas muitos dos que estavam ali não eram petistas. Para eles, mais do que a vitória do PT, a reeleição da presidenta significava a vitória de uma esquerda unida e a derrota de um projeto conservador, representado pela candidatura do senador Aécio Neves (PSDB).

Passada quase uma semana da eleição e diante de um Congresso ainda mais conservador, essa esquerda se pergunta: o novo Governo de Rousseff, que ficou marcada por dialogar pouco com os movimentos sociais, será mais alinhado com as pautas progressistas ou ela dará as costas aos pedidos da militância, que foi decisiva nessa reta final? E qual será o papel da esquerda nestes próximos quatro anos: fazer oposição ao Governo, como no último mandato, ou tentar fortalecê-lo para, com isso, impor algumas de suas agendas? A discussão que começa a se colocar será tema, por exemplo, de uma reunião de militantes e simpatizantes neste sábado, na zona sul de São Paulo.

Na reta final do segundo turno, quando a disputa polarizada entre PT e PSDB se mostrou apertada e as pesquisas traziam a possibilidade de vitória de Aécio Neves, militantes de partidos e de movimentos que fazem oposição ao PT pela esquerda decidiram deixar as divergências de lado. “O PSOL e o PSTU entenderam que o que estava em jogo no segundo turno era um retorno ao passado”, definiu o presidente nacional do PT Rui Falcão, em uma coletiva de imprensa na última segunda-feira, em São Paulo. Oficialmente, nenhum dos dois apoiou Rousseff, mas muitos de seus militantes sim. “Esse apoio criará uma aproximação maior para que a gente consiga mobilizar temas que são convergentes”, garantiu Falcão.

Mas Luciana Genro, candidata do PSOL à presidência na eleição, diz duvidar de que essa aproximação de fato acontecerá. “Essa postura do PT de fazer um discurso mais à esquerda na reta final não é novidade e serve para mobilizar a militância, que é quem de fato fez diferença nessas eleições. É o que chamamos de esquerda sazonal”, disse ela, que se destacou nesta campanha ao defender bandeiras como a legalização do aborto, questão que Rousseff ignorou nos últimos quatro anos, a legalização do casamento igualitário e da maconha, a demarcação de terras indígenas e a ampliação da reforma agrária, temas tabus no Governo petista.

A defesa dessas bandeiras empurrou ao PSOL uma camada progressista, insatisfeita com o fato de o PT nos últimos quatro anos ter se afastado dos movimentos sociais e não ter insistido na defesa desses temas. Genro obteve 1,6 milhão de votos (1,55% do total) – quase o dobro do obtido por Plínio de Arruda Sampaio (886.816 votos), que a antecedeu como candidato da legenda à presidência em 2010.

“Não tenho expectativas de que o Governo agora vai ser um Governo de esquerda. Acho que o PT já está absorvido por essa política de balcão de negócios. A tendência é que ceda aos interesses das figuras mais reacionárias. E só teremos avanços nessas questões por meio das mobilizações populares”, afirma Luciana Genro. Para ela, o papel da esquerda será o de se manter na oposição e, ao mesmo tempo, articular os movimentos sociais. “A pressão pela esquerda se dará através dos movimentos.”

Natália Szermeta, uma das coordenadoras do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que organizou uma série de manifestações contrárias à Copa, mas divulgou uma nota pública com apoio a Rousseff no segundo turno, diz que o movimento continuará autônomo e mobilizado. Mas isso, afirma, não significa fazer oposição ao Governo, desde que ele tente promover as reformas pedidas pelos movimentos. “Estamos vivendo uma divisão muito forte da sociedade. O papel dos movimentos vai ser importante para qualquer conquista social”, afirma ela. “Sair às ruas não é enfraquecer o Governo, pelo contrário. Se um Governo progressista não contar com o apoio dos movimentos nas ruas não conseguirá avançar diante de um Congresso tão conservador. É preciso uma constante pressão popular para que as medidas sejam aprovadas”, diz. “Só esperamos que o Governo entenda isso e que dialogue mais com os movimentos e não apenas com os empresários.”

O deputado federal Jean Wyllys, um dos parlamentares do PSOL que integrou a campanha de Rousseff na reta final após o compromisso da campanha com algumas de suas pautas, acredita que a esquerda terá que assumir uma função importante dentro do Congresso. “Temos que ter uma ação dentro do Parlamento para proteger o Governo da chantagem das forças conservadoras”, diz. “Eu, pessoalmente, defendo que a gente não faça oposição por oposição. Temos que estar com o Governo para flexioná-lo em direção às pautas progressistas.”

A primeira dificuldade de Rousseff no Parlamento já está posta, lembra Wyllys. O deputado Eduardo Cunha, do PMDB, um dos principais parlamentares conservadores brasileiros, pretende se tornar o presidente da Câmara, em desrespeito a um acordo de alternância feito entre seu partido e o PT. O PMDB compõe a base governista e, agora, seria a vez de um petista assumir a presidência da Câmara. “Esse partido está em vias de trair o PT. Espero que a Dilma tenha entendido que precisa considerar a esquerda neste momento ou fará um Governo pífio. É preciso fazer com que o processo de união das esquerdas perdure. ”

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