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PSDB reelege Aécio Neves e defende nova eleição e parlamentarismo

Discurso de “unidade” valerá até as eleições municiais de 2016

Aécio Neves durante a convenção do PSDB em Brasília.
Aécio Neves durante a convenção do PSDB em Brasília.

O senador Aécio Neves foi reeleito neste domingo (5) para um novo mandato de dois anos à frente do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), pelo qual disputou a Presidência da República em 2014. Ele tem como meta se firmar como líder da oposição ao enfraquecido governo Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), mas terá de vencer uma disputa interna para voltar a concorrer pelo cargo mais alto do Brasil.

A recondução de Aécio ao comando do PSDB ocorreu em convenção realizada em Brasília, onde líderes de oposição fizeram discursos inflamados contra Dilma Rousseff e o PT.

Ao final do encontro, o PSDB não apresentou uma proposta unida para a crise política vivida no Brasil, desde que denúncias de corrupção na Petrobras enfraqueceram Dilma. Entre os tucanos houve os que defendessem a convocação de novas eleições, a partir da impugnação da vitória obtida por Dilma em 2014. Houve também sugestão para que o país adote o Parlamentarismo como modelo político.

A divisão do PSDB acontece no momento no qual Dilma se mostra mais combalida por denúncias de corrupção envolvendo a Petrobras e as maiores construtoras do país para irrigar o caixa de campanha do PT. Ela enfrenta ainda processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que apura se houve recebimento de dinheiro ilegal na campanha de 2014.

Outra ofensiva contra a presidente Dilma está no Tribunal de Contas da União (TCU), responsável por julgar as despesas do governo. O descontrole fiscal pode levar a uma condenação. Isso pode acabar na abertura de um processo de impeachment de Dilma como consequência das chamadas “pedaladas fiscais”, como é chamado o uso dos bancos públicos para cobrir despesas do Governo.

O PSDB afirma que estuda o cenário para decidir qual será a posição final do partido. “Hoje grande parte do Brasil espera a nossa posição. Por isso, ela será responsável”, afirmou Aécio em seu discurso.

Nos bastidores, contudo, a avaliação é de que a rota de colisão do PSDB com o Governo Dilma envolve o principal desafio de Aécio: conciliar a disputa interna de seu partido para as eleições de 2018.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, se apresenta como pré-candidato à Presidência e deverá disputar a indicação do PSDB ao Palácio do Planalto. O senador José Serra (PSDB-SP), que já perdeu duas disputas presidenciais, corre por fora como terceiro postulante. Ele defendeu a adoção do Parlamentarismo “a partir das eleições de 2018”, o que significa que não apoiaria a derrubada de Dilma e a convocação de novas eleições ainda em 2015. “Eu quero fazer uma proposta ao partido para que discutamos o Parlamentarismo”, disse.

Já Aécio, que perdeu a eleição para Dilma no ano passado por uma apertada margem de votos, ao receber 51 milhões de confirmações nas urnas, confia nesse recall para se manter na dianteira da preferência do partido. O primeiro passo para isso foi costurar um acordo com Alckmin e Serra para que todos se afinassem o discurso de “unidade” entre os tucanos. O acordo vale até as eleições municiais de 2016. Depois disso, a concorrência interna deve ganhar corpo.

Reestruturação tucana

Apesar do acordo, Aécio já fez uma manobra para vencer seus colegas de partido ao mudar o estatuto do PSDB. Em um anúncio tumultuado, feito por um locutor que animava os militantes reunidos no local da convenção em Brasília, a mudança estatutária foi apresentada sem detalhes.

Entre as mudanças está uma que permite mais integrantes com poder de voto na direção do partido, o que é importante para Aécio angariar os apoios necessários à sua indicação no caso de o PSDB realizar uma convenção para escolher o nome que disputará 2018.

Para isso, a Executiva Nacional do partido foi aberta a segmentos com os quais Aécio dialoga melhor que Alckmin e Serra: jovens, mulheres, afrodescendentes e sindicalistas.

Esses setores tinham até agora uma participação marginal na estrutura do PSDB, limitados a discussões em grupos de trabalho sem poder de decisão e, a partir da alteração no estatuto, passarão a votar na Executiva.

O deputado federal Antônio Imbassahy, primeiro secretário da Executiva Nacional, minimizou as alterações do estatuto, afirmando que “a estrutura permanece a mesma”. Ele também informou ao EL PAÍS que há a intenção de mudar alguns delegados partidários, que são responsáveis por eleger o presidente do PSDB.

Delegados do PSDB ouvidos pela reportagem apontam que o presidenciável tucano será decido apenas em 2018, mas não descartam a indicação de Alckmin. Desde 2002, após oito anos de governo do tucano Fernando Henrique Cardoso, marcado pelo controle da inflação e a estabilidade econômica, o PSDB faz um rodízio de postulantes ao Planalto. O próprio Alckmin já concorreu, em 2006, quando o ex-presidente Lula foi reeleito.

Uma nova composição de delegados pode ser essencial para Aécio. O mandato para o qual foi conduzido hoje termina em 2017, antes da definição da chapa que disputará o Planalto. Ele pode consolidar um sucessor no comando do PSDB com mais delegados próximos ao seu projeto de poder.

Apesar da movimentação de Aécio por mais controle do partido, os tucanos se esforçaram para dizer que há “unidade” diante da divisão entre os que defendem Alckmin, Serra ou Aécio. “Temos a semente da mudança que o Brasil precisa e temos de pregar unidade, unidade, unidade”, disse o deputado Marcos Pestana (PSDB-MG), integrante do grupo aecista.

O senador Cyro Miranda (PSDB-GO), um dos vice-presidentes do partido, reconhece a disputa entre Alckmin e Aécio, mas nega que haja um “racha” na sigla. “O Alckmin coloca o nome dele, mas sem nenhum tipo de pressão. Vai ter divisão, mas nada de ficar rachado. Vamos trabalhar pela unidade”, afirmou ao EL PAÍS.

A militância também se divide sobre quem deve ser o postulante tucano à Presidência. A dona de casa Lúcia Vieira, de 51 anos, viajou por 12 horas de ônibus de Divinópolis, no interior do Estado de Minas Gerais, até Brasília. Ela chegou à capital brasileira para dizer que “é hora do Aécio e não do Alckmin” e que “não tem outro candidato” mais preparado que o senador.

Impeachment

Fora do campo interno do PSDB, Aécio terá pela frente também a missão de liderar a oposição diante do avanço do PMDB. Embora integre a base de apoio do Governo, ocupando inclusive a vice-presidência do Brasil com Michel Temer, o PMDB se rebelou contra o Planalto.

Ocupante da maior bancada na Câmara e no Senado, nas quais ocupa a presidência dos trabalhos do Legislativo, o PMDB realiza uma série de ações contrárias à orientação dada por uma enfraquecida Dilma Rousseff.

Nos últimos dias circulou o boato de que integrantes do alto comissariado do PMDB procuraram Aécio para costurar uma aliança para derrubar Dilma. Os rebeldes pretendem colocar o vice, Michel Temer, na chefia do país.

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), negou ontem pelo Twitter que esteja costurando a derrubada de Dilma e chamou os boatos de “fofoca”. “Nunca conversei com Aécio sobre cenários futuros de crise”, disse.

Cunha ocupa a terceira posição na escala de sucessão presidencial. Ou seja, caso a chapa de Dilma seja impugnada pela Justiça Eleitoral, ela e Temer deixam o governo, com o presidente da Câmara podendo assumir por 90 dias até que sejam realizadas novas eleições.

Aécio também negou conversas com Cunha, afirmando que o PSDB “não é um partido golpista” e que um possível afastamento da presidente será por decisão do TSE ou do TCU. “É preciso que a presidente tome as rédeas [do país], se é que ela tem poder para isso, senão será antecipada a campanha de 2018”, disse, referindo-se à convocação de eleições em caso de vacância de poder.

Já o senador Cássio Cunha Lima, líder do PSDB no Senado, defendeu a impugnação da chapa de Dilma pela Justiça Eleitoral para que ela e Temer deixem o governo. “Defendo que o PSDB apoie abertamente a convocação de novas eleições”, sugeriu.

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