Paulo Werneck | Curador da Flip 2015

“Pichar qualquer festival literário como badalação frívola é elitista”

O curador Paulo Werneck é contra endeusar a literatura e a favor de escritoras no evento

Paulo Werneck, curador da Flip, durante a coletiva de imprensa do evento.
Paulo Werneck, curador da Flip, durante a coletiva de imprensa do evento.Mayra Azzi

Quando o livro desce do salto no Brasil, passa a correr graves riscos. Isso fica claro quando eventos literários de caráter público sofrem para se manter em pé no país, ainda que contribuam (muito) para a formação de leitores e coloquem a Cultura no centro da vida pública, ao menos nos dias em que acontecem.

Nosso mais destacado encontro do gênero, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) – que trouxe ao país o tradicional formato das mesas de escritores frente a uma plateia – sofreu este ano um corte de 15% no orçamento de que dispunha em 2014, mas se mantém de pé. O esforço é digno de nota, ainda que haja lutas mais cruéis, como a que abateu a 16a Jornada Literária de Passo Fundo – cancelada por falta de fundos, mesmo carregando os louros de ser o primeiro evento brasileiro do gênero empenhado na difusão da leitura.

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Paulo Werneck, editor, jornalista e tradutor que responde pela programação da Flip pelo segundo ano consecutivo, defende o formato com afinco. Contrariando certa visão de escritores e outros deuses (ou endeusados) do mundo editorial, ele refuta a ideia de que o evento “é só badalação” e defende “uma partida democrática da literatura”, como a que busca forjar em Paraty. “Essa tentativa de pichar a Flip ou qualquer festival literário como sendo uma badalação frívola e mundana é uma coisa, no fundo, mais elitista. No Brasil, a literatura é muito idealizada, e o escritor é colocado em um pedestal”, diz.

Breve raio-x

Criada há 13 anos com o objetivo de movimentar a economia da turística Paraty nas entressafras de inverno da cidade, a Flip atingiu um faturamento de R$ 13 milhões em 2012, segundo estudo do instituto Datafolha. A pesquisa concluiu que, desde a primeira edição do evento, em 2003, a cidade do Estado do Rio de Janeiro passou por mudanças econômicas, culturais e urbanísticas relevantes.

Mauro Munhoz, arquiteto e diretor presidente da Casa Azul, responsável pela organização do evento, descreve a Flip como "case" por unir cultura aos negócios cujas possibilidades se abrem junto com as portas do evento. Mesmo assim, viu seus recursos minguarem de 2014 para 2015: o orçamento arrecadado via leis de incentivo e vendas de livros na livraria parceira passou de R$ 8,6 milhões para R$ 7,4 milhões este ano. A dificuldade de patrocínio é atribuída à conjuntura econômica pela qual passa o país.

A Flip empregou no ano passado 612 pessoas. Os escritores convidados não recebem cachê, seguindo, como explica Munhoz, o princípio de economicidade (e não de lucro) do evento. Na próxima edição (de 1 a 5 de julho), serão 39 autores em 29 mesas de debate. Os ingressos já estão à venda por R$ 50 (quatro reais a mais do que no ano passado).

O esforço de Werneck – que foi editor por 11 anos na Companhia das Letras e na Cosac Naify, implementou o caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, onde ficou por três anos, e é coautor do livro Cabras – Caderno de viagem, com Antonio Prata, Chico Mattoso e Zé Vicente – pende para o lado contrário. No ano passado, quando ele assumiu a curadoria, a programação ganhou um notável toque de humor (já desde o homenageado, o escritor e humorista Millôr Fernandes), além de ampliar o diálogo com a literatura, com convites a profissionais de áreas correlatas.

Este ano, o mix de convidados resulta ainda mais pop, com a presença, por exemplo, de autores relacionados à música – tema pouco explorado até hoje dentro nas tendas da festa. Merece menção, também, a presença mais consolidada de nomes da literatura do resto da América Latina, que, apesar da óbvia proximidade, luta para circular no Brasil. Sem falar no espaço dados às mulheres, que o curador reconhece que é crítico (inclusive) nas letras e que ele quer aumentar. “Se todas as mulheres que convidei nos últimos dois anos tivessem aceitado, teríamos uma Flip com 50% ou mais de mulheres”, afirma.

Pergunta. É difícil ser o curador da maior festa literária do Brasil, que assim como é querida por muitos, também recebe críticas?

Resposta. É um lugar privilegiado, sem dúvida. Em relação às críticas, no ano passado o que chegou para mim foi a crítica do editor da Record sobre a ausência de autores de literatura brasileira da editora na programação. Acho muito engraçado isso ter sido legitimado como crítica, porque ele é editor, logo está defendendo seus interesses. Normal, como todo mundo. Mas não é um crítico literário fazendo uma avaliação crítica. De modo geral, achei que a receptividade foi muito boa, este ano também. Claro que há erros que se cometem, mas acho que está dando certo. Estou mais confiante. Você começa a aprender algumas manhas, a chegar em autores mais difíceis, a aceitar o ‘não’, o cancelamento... As pessoas veem a programação como se ela fosse resultado direto do desejo do curador. Não é verdade.

P. É preciso acompanhar as notícias para compor a programação?

R. É bom estar ligado e desligado, né? Preciso prestar atenção na atualidade. Por exemplo, vamos ter uma mesa sobre a Charlie Hebdo com o Plantu, cartunista mais famoso da França, e o Riad Sattouf, que vai falar sobre cartoon, cultura árabe, batalhas culturais entre árabes e franceses e tal. É um tema atual, certo? Mas tem mil outros, e precisamos ter certo critério para ver o que vai chegar na Flip, lá adiante, como uma discussão importante. No ano passado, tinha a Copa do Mundo. Todo mundo falava: “E não vai ter discussão sobre a Copa?”. No final, ninguém sentiu falta de discutir o tema na Flip. Ao mesmo tempo em que o evento oferece uma visão da vida contemporânea mundial – com pontos de vista específicos como o do Sattouf, expressos por um viés literário –, é preciso saber se retirar também. O noticiário e as discussões em redes sociais já estão tão dominados, que às vezes é bom que a Flip não fale de certas coisas. Para deixar que novas coisas apareçam.

P. E você lê todos os autores?

R. Claro. Eu me sinto na obrigação de ler todos. Muitos eu já li, são autores que eu conhecia e admirava. Outros passei a conhecer agora. Até a Flip, procuro fazer uma boa leitura de quem eu convidei. Acho que o nosso meio editorial tem uma cultura de falar de livros sem ter lido. Isso é muito comum em feiras literárias, como a de Frankfurt. Os editores têm reuniões de cinco minutos, em que eles descrevem dez romances, todos como “maravilhosos e sensacionais” e tal, e compram livros nessa base. Eu procuro resistir, sempre peço o texto para fundamentar minhas escolhas. Mas também não posso estudar a fundo. Não sou crítico literário, minha função não é exatamente essa.

P. Algumas pessoas do meio literário, especialmente escritores, costumam torcer o nariz para o evento. Por quê?

R. Vejo nisso uma crítica a um modelo de festival literário, que é um formato consagrado mundialmente e que a Flip representa no Brasil. Durante o evento, é amplo o espaço que se dá à literatura nos jornais, nas revistas, na televisão. O Jornal Nacional dá uma matéria sobre a Flip a cada noite do evento, praticamente, que em um contexto diferente não estaria ali. Os cadernos culturais do país não estariam escrevendo sobre literatura a semana inteira, se não tivesse a Flip. Então, acho que ela é extremamente necessária, sim, para a literatura, porque promove a experiência cultural até mesmo para quem não tem acesso cotidiano à literatura. Acredito, sinceramente, que quando uma pessoa lê uma entrevista no jornal com um autor convidado da Flip, ela está tendo uma experiência cultural ao ler a reportagem – mesmo que ela não vá vê-lo na Flip ou ler o livro desse autor. Está tendo um contato com ideias novas, com o pensamento do escritor. Está, de certa forma, na Flip.

P. Há quem diga que é só badalação.

R. Quem fala isso é quem nunca foi. Ou quem não gosta de festa, porque não é só badalação, mas de fato é uma festa. Esse é o clima. As pessoas bebem, conversam, estão disponíveis... Essa tentativa de pichar a Flip ou qualquer festival literário como sendo só badalação frívola e mundana é uma coisa, no fundo, mais elitista. É uma visão que não aceita uma partida democrática da literatura, como a Flip procura ser. Porque ela não quer que seja uma festa pública em torno da literatura. Em um país como o Brasil, a literatura é muito idealizada. O escritor é colocado em um pedestal, que no fundo afasta a pessoa da literatura. Você começa a achar que não é para você, que não é para todo mundo, que precisa ter um nível superior para conseguir atingir a experiência literária. Acho que a Flip a humaniza.

P. Que resgate a Flip quer fazer com a homenagem a Mário de Andrade?

R. Mario de Andrade tinha algo interessante, porque tinha essa justaposição entre o intelectual interessado em cultura popular e o artista de vanguarda. Ele não queria preservar a cultura popular no sentido museológico. Não queria embalsamá-la, mas que ela fosse o substrato de uma nova arte. Tanto é que ele queria isso: que o Villa-Lobos usasse os motivos folclóricos, as canções populares, como tema da música erudita. E a Flip tem muito disso também, né? Acho que ele seria um flipeiro de primeira hora, jogando em diversas posições.

P. Na programação da Flip, a maioria dos escritores convidados costuma ser de homens. O que você opina sobre a discussão ao redor de mulheres na literatura?

R. Acho que é um problema real e importante. Acontece em todos os lugares. Para mim, as escritoras mulheres são excelentes convidadas, porque falam muito bem, têm memória boa, alta capacidade de descrição física, de memória – de reter dados –, que os homens não têm. Quando alguém está escrevendo um perfil de uma pessoa morta, por exemplo, é a mulher quem vai lembrar como era o nariz do cara, qual era a mania que ele tinha, o que ele gostava de comer... Esses detalhes concretos. Se todas as mulheres que eu convidei neste ano e no ano passado tivessem aceitado, teríamos uma Flip com 50% ou mais de mulheres. Uma delas é Mary Beard, que é uma superprofessora britânica de História Antiga, que estuda o feminismo na Antiguidade. Estuda onde estavam as mulheres em Roma, na Grécia... E fez uma conferência sobre como, desde a Grécia Antiga, as mulheres recebem a ordem de se calar na hora da discussão. Ela não pôde vir. A Marjane Sartrapi, que eu editei e traduzi, é outro exemplo. Eu a chamei ano passado e este ano, mas ela não aceitou. Por que eu não convidaria mulheres? Qual é a resistência? Não teria sentido não fazê-lo. Tenho consciência desse problema e gostaria que tivéssemos uma marca melhor.

P. Uma das mesas desta edição conta com as escritoras Ana Luisa Escorel, brasileira, e Ayelet Waldman, israelense. E é sobre maternidade. Como reagiram a essa iniciativa?

R. Recebi uma crítica: “Ah, quando é sobre mulher, é sobre afetividade, família”. Acho errado, porque no ano passado tivemos uma mesa sobre afetividade e amor gay com o escritor francês Mathieu Lindon e o Silviano Santiago [Mil rosas roubadas; Companhia das Letras]. Ou seja, a afetividade não é um assunto que associamos às mulheres, mas ao ser humano. Este ano, temos uma espécie de núcleo sobre a vida afetiva. Além da mesa da Ana Luiza Escorel com a Ayelet Waldman, tem a do Boris Fausto, o historiador, que está lançando um livro sobre a morte da mulher dele ­– e é vida afetiva pura. Esse tipo de debate é importante, mas precisa ser justo também.

P. Ninguém reclamou dos aumentos de preço das mesas?

R. Reclamamos do aumento de preço generalizado no país. Tudo está aumentando, e a Flip não vive numa bolha. Não é uma Ilha da Fantasia.