Crise na Venezuela

Governo espanhol chama para consultas seu embaixador em Caracas

A decisão responde às "intoleráveis declarações" de Maduro e o voto da Assembleia venezuelana que tornou Felipe González 'persona non grata'

O presidente venezuelano Nicolás Maduro. (atlas)

Na linguagem diplomática, a chamada para consultas (fazer regressar por tempo indeterminado o embaixador do país em outro Estado) é uma forma enérgica de protesto. Está imediatamente acima de convocar o embaixador (que é chamar o representante diplomático de outro país para entregar-lhe uma nota verbal – ou seja, escrita – de queixa). Até agora, o Governo atual da Espanha, comandado pelo primeiro-ministro Mariano Rajoy (PP), nunca havia chamado para consultas nenhum embaixador. O Executivo da Venezuela chamou o seu em outubro de 2014 e o reteve em seu país por quatro meses. Mas a Espanha sempre havia ficado um passo atrás na hora de demonstrar sua contrariedade. Até agora.

O ministro de Assuntos Exteriores, José Manuel García-Margallo, anunciou na manhã de quarta-feira que o Congresso decidiu chamar para consultas o embaixador espanhol em Caracas, Antonio Pérez Hernández, diante do aumento de “declarações intoleráveis” contra o Governo espanhol por parte das autoridades venezuelanas e, em particular, do presidente Nicolás Maduro.

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Suas colocações referem-se às últimas declarações de Maduro, que acusou Mariano Rajoy, na noite de terça-feira, de pertencer a “um grupo de bandidos, corruptos e ladrões”, de apoiar “os terroristas da Venezuela” e de estar por trás “da conspiração e tentar derrubar o Governo democrático e legítimo” de seu país. Além disso, a Assembleia Nacional venezuelana decidiu declarar o ex-presidente espanhol Felipe González como persona non grata, por ele ter aceitado colaborar com a defesa legal do líder oposicionista Leopoldo López, preso há mais de um ano. É uma declaração política, mas pode ser vista como o veto de sua entrada no país.

“Os adjetivos usados pelas autoridades [venezuelanas] são absolutamente intoleráveis e, levando em conta o grau de irritação verbal de Maduro, decidi chamar o embaixador em Caracas para consultas”, anunciou Margallo.

O Ministério de Assuntos Exteriores já convocou o embaixador venezuelano em Madri, Mario Isea, dia 15 de abril, por conta dos insultos de Maduro contra o chefe do Governo espanhol, Mariano Rajoy, e as desqualificações feitas ao Congresso dos Deputados, que aprovou uma resolução pedindo a libertação dos presos políticos venezuelanos. Desta forma, não poderia repetir um gesto que já se demonstrou inútil – os insultos não só não terminaram, como subiram de tom – e decidiu aumentar em um grau o nível de protesto.

Margallo sugeriu que “o aumento dos insultos verbais” das autoridades de Caracas contra a Espanha é uma cortina de fumaça para ocultar seus problemas internos, ao dizer que ela cresce “à medida que aumentam as dificuldades sofridas pelo povo” venezuelano, ao ponto das desqualificações afetarem “o próprio Congresso, o Governo e agora Felipe González”. E frisou que a Espanha sempre se movimentou, em suas relações com a Venezuela, “dentro da legalidade nacional e internacional, da cortesia e da institucionalidade”.

Em poucas horas, descontando-se a diferença de fuso horário, espera-se a resposta de Caracas, que poderá aplicar o princípio de reciprocidade, como fez na semana passada, e chamar seu embaixador para consultas, ou pode aumentar ainda mais a pressão. O problema é que não restam muitos degraus na escada diplomática.