A voz da comunidade que corre o Rio

Um jornal feito por cinco voluntários conta o que acontece na zona norte carioca, a mais pobre da cidade, distribui 10.000 exemplares e tem um milhão de visitas na web

ONG Voz das comunidades distribui ovos de páscoa no Morro do Alemão.
ONG Voz das comunidades distribui ovos de páscoa no Morro do Alemão.Renato Moura

Renê Silva tinha apenas 11 anos quando decidiu que queria ajudar a sua escola a resolver os seus problemas. Teve uma ideia bem simples: criar um jornal. Viu que dava certo e resolveu também tentar melhorar a vida de seus vizinhos do Complexo do Alemão. Com a ajuda de seu irmão Renato e vários colegas, fundou há 10 anos o Voz das Comunidades, um periódico que conta o que acontece dentro deste conjunto de favelas da zona norte do Rio de Janeiro – e que se tornou referência não apenas para seus moradores como também para toda a cidade. Nos últimos 90 dias dias, vem informando sobre a rotina de tiroteios na comunidade e os casos de abuso policial, como o que matou o garoto de Eduardo Jesus, de 10 anos, na última quinta-feira. Graças a estatísticas elaboradas pelo jornal, sabe-se que, apenas em 2015, doze moradores morreram e treze ficaram feridos, enquanto que um policial morreu e 10 ficaram feridos.

Hoje, com uma equipe fixa de cinco pessoas, uma tiragem mensal de 10.000 exemplares (gratuitos), um site que se atualiza diariamente e um presença constante nas redes sociais, é um exemplo perfeito de o que se chama “jornalismo cidadão”.

No início, Renê e seus amigos imprimiam o jornal em folhas de papel A4 ou A3, faziam várias cópias e distribuíam entre os moradores. Mas com as redes sociais, chegaram a todo o Rio. “A gente ganhou mais visibilidade a partir de 2010, quando o Governo ocupou o Alemão. Contávamos o que estava acontecendo através do Twitter e muitas vezes corrigíamos uma informação equivocada dos grandes meios”, conta o jovem, de 21 anos. Hoje, o site do jornal tem um milhão de visitas diárias (pode chegar a três milhões em dias específicos); a página de Twitter possui mais de 185.000 seguidores (só o perfil pessoal de Renê, mais de 105.000), e a do Facebook, outros 40.000.

Além de Renê e seu irmão Renato de 19 anos, que trabalha como fotógrafo do jornal, fazem parte do projeto o também fotógrafo Betinho Casas Novas, de 25, e as repórteres Daiene Mendes, de 25, e Melissa Rachel, de 23. “Não falamos apenas de violência. Abordamos todo o tipo de temas sociais, focando nos direitos dos cidadãos, mas também em seus deveres. Nem sempre o Estado tem a culpa”, explica Daiene.

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O Voz das Comunidades inclusive realiza, desde o seu início, diversas campanhas de doação em época de natal, páscoa e outras festividades. Também organiza eventos e promove debates sobre questões sociais. A presença no cotidiano da favela é constante. “Mas já fizeram um trabalho de monografia sobre a gente e a conclusão era a de que contamos a realidade sobre o Alemão mais para as pessoas de fora. Queremos reforçar nossa presença aqui dentro ainda mais”, afirma Daiene.

Entre 2011 e 2013, o jornal funcionava em uma redação doada pelo programa do Luciano Huck, da Rede Globo, em um edifício compartilhado com a ONG Afroreggae. Devido a um incêndio, hoje alugam uma pequena na rua Além-Paraíba, dentro da comunidade. Ali, em dois minúsculos quartos com uma bancada, apoiam alguns laptops para escrever seus textos e editar suas imagens. Mas o futuro promete: dentro de um mês, se mudarão para um edifício de dois andares, cujo aluguel, durante um ano, será financiado pela Coca-Cola. “No primeiro andar queremos fazer um espaço para que os moradores da comunidade entrem e interajam. No segundo ficará a parte de jornalismo, mas queremos fazer um estúdio de vídeo, de rádio…”.

Para financiar o jornal impresso de 20 páginas que produzem, além de todas suas atividades sociais, contam com doações e o apoio dos comerciantes da própria comunidade, que pagam para vincular publicidade no jornal. Conseguiram também o patrocínio de grandes empresas, como as Casas Bahia e a própria Coca-Cola. “A prefeitura nos ofereceu ceder um terreno para construir uma redação. Mas achamos melhor recusar, para não afetar a nossa independência”, conta Daiene.

Ainda não cobram pelos seus relatos, imagens e vídeos que muitas vezes são utilizados por outros meios de comunicação. “Ainda não temos certeza se vamos cobrar pelo nosso trabalho. Muita informação merece ser divulgada pela imprensa de forma instantânea e não queremos que o dinheiro dificulte isso”, explica Renê.

Os moradores do Complexo do Alemão protestam pacificamente

Um grupo de uns 500 moradores do Complexo do Alemão realizou neste sábado, entre as 10h da manhã e 13h da tarde, uma nova manifestação para pedir paz. O ato foi pacífico desde o princípio até o final. Os manifestantes saíram da entrada da comunidade da Grota, na Estrada do Itararé, guiados por um carro de som e caminharam até a praça de Inhaúma, também acompanhados de agentes da Polícia Militar.

O protesto foi marcado por coletivos sociais que atuam no Complexo do Alemão, como o Papo Reto. Também estiveram presentes o presidente da Anistia Internacional no Brasil, Atila Roque, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), representando a Comissão de Direitos Humanos da Assembléia do Estado do Rio de Janeiro, e o ator Paulo Betti, representando a classe artística.

Famílias inteiras saíram às ruas para protestar. A maioria das pessoas vestia uma camisa branca e levava balões da mesma cor. Outros tinham também o rosto pintado com a palavra “paz” e mostravam cartazes que pediam o fim da violência policial, da guerra que vivem diariamente. “Sou um pai de família, trabalhador, pessoa do bem. Só quero criar o meu filho em condições normais”, resumiu um morador do Alemão.

As manifestações do últimos dias foram motivadas pela morte de quatro pessoas entre quarta e quinta-feira, sobretudo a do garoto Eduardo Jesus Ferreira, de 10 anos. Foi baleado por um PM na cabeça quando se encontrava sentado na porta de sua casa. Ao contrário do que defende a polícia, os moradores relatam que não havia nenhum tiroteio naquele momento. “Aqui não existe ato de resistência. Não existe bala perdida. Vivemos uma guerra e todo tiro é intencionado”, dizia um dos moradores da comunidade no microfone. “Os nossos jovens não vão até a arma, a arma vem até ele. O combate não pode ser travado aqui”.

Os moradores também se mostraram radicalmente contra, em diversas ocasiões, a diminuição da maioridade penal para 16 anos. "A nossa juventude quer arte, cultura, liberdade. No Alemão, a maioridade penal está abaixo dos 16 anos. E aqui, a pena é de morte".