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Bate-boca no Congresso derruba ministro e ofusca pacote de Dilma

Após pressão do PMDB contra ministro da Educação, Planalto anuncia sua demissão

Cid Gomes deixa o plenário da Câmara.
Cid Gomes deixa o plenário da Câmara. Câmara dos Deputados

Os mais ferinos diriam que é uma tradição de família. Nesta quarta-feira, em meio à maior crise do Governo Dilma Rousseff, o ministro da Educação, Cid Gomes, que havia comparecido à Câmara dos Deputados para se desculpar, cometeu o crime de ser sincero demais, e acabou demitido. No fim de fevereiro, Gomes, que é irmão do ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes, também conhecido por se envolver em saias-justas devido à própria sinceridade, disse, durante visita à Universidade Federal do Pará, que há no Parlamento "400, 300 deputados achacadores". Nesta quarta, junto com as desculpas, Gomes reforçou as críticas, desta vez no plenário da Câmara, para a ira dos deputados, que cobraram e conseguiram, em questão de minutos, sua demissão.

"Eu não tenho nenhum problema em pedir perdão para aqueles que não agem dessa forma, para aqueles que não se comportam desse jeito. Não foi minha intenção agredir ninguém individualmente", disse aos parlamentares o ministro, que poderia ter parado por aí, mas seguiu: "Me perdoe se isso fere alguém, me perdoem quem traz para si essa carapuça, se alguém se enxerga nessa posição". Após sua primeira intervenção, o ministro recebeu críticas de um batalhão de deputados, que se revezaram ao microfone para cobrar respeito.

O ministro ouviu a tudo com um meio sorriso antes de voltar ao púlpito e usar palavras ainda mais duras: "Tenho, sempre tive, profundo respeito pelo Legislativo, pelo Parlamento. Isso não quer dizer que a postura de alguns, de vários, de muitos, que mesmo estando no Governo, os seus partidos participando do Governo, não tenham a postura aqui de oportunismo. Eu não quero aqui me referir a partidos de oposição, que têm o dever de fazer oposição. Partidos de situação têm o dever de ser situação, ou então larguem o osso, saiam do governo, vão para a oposição, isso será mais claro para o povo brasileiro".

Após as declarações, o deputado Sérgio Zveiter (PSD-RJ) retomou as críticas ao ministro, que se retirou do plenário ao ser chamado de "palhaço" pelo parlamentar. Diante da retirada de Gomes, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), deu fim à audiência antes que os 71 deputados inscritos para criticar o ministro pudessem se manifestar, prometendo processar o ministro em nome do Parlamento e em seu próprio nome. Minutos depois, após uma cobrança do PMDB, maior partido aliado do Governo, Cunha anunciava no plenário que fora informado pelo ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, de que Gomes estava demitido.

O Palácio do Planalto só se manifestaria oficialmente minutos depois, por meio de nota que dava conta de que "o ministro da Educação, Cid Gomes, entregou nesta quarta-feira, 18 de março, seu pedido de demissão à presidenta Dilma Rousseff. Ela agradeceu a dedicação dele à frente da pasta". A demissão não poderia ter chegado em pior hora. Após multidões tomarem as ruas no domingo para protestar contra o PT e o Governo Dilma, a presidenta tentava responder aos manifestantes com um pacote anticorrupção, apresentado horas antes de Gomes ter de deixar o cargo.

Após apresentar a carta de demissão à presidenta Dilma, Gomes disse a jornalistas, na saída do Palácio do Planalto, que sua declaração no Congresso "e mais do que ela, a forma como eu coloquei minha posição na Câmara cria dificuldades para a base do Governo e, portanto, não quis criar nenhum constrangimento", acrescentando: "pedi demissão em caráter irrevogável, agradecendo a ela [Dilma]". O ex-ministro disse ainda que “a situação em que eu me encontrei, sendo convocado pela Câmara para questionar a especulação que eu tinha feito em reservado... Eu não podia agir diferente senão confirmar aquilo que disse, que penso pessoalmente".

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