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PMDB coloca Dilma contra a parede de olho em cargos e em 2018

Partido do vice-presidente, Michel Temer, não quer carregar o ônus de ajustes econômicos

Calheiros, Temer, Levy e Cunha em encontro na segunda-feira.
Calheiros, Temer, Levy e Cunha em encontro na segunda-feira. Ag. Brasil

Aliado de primeira hora de todos os governos brasileiros após a redemocratização, o PMDB quer se tornar protagonista na política brasileira. É o que indicam as movimentações nos bastidores dos últimos dias, os discursos das lideranças e a propaganda partidária que irá ao ar na noite desta quinta-feira em rede nacional de rádio e televisão. Trata-se de um protagonismo oportuno para um momento de baixa da presidenta Dilma Rousseff, e que pode, no médio prazo, pavimentar uma candidatura para a sucessão presidencial de 2018.

Insatisfeitos com a perda de espaço para duas legendas recém-criadas, PROS e PSD, e com uma menor participação na formulação de políticas no Governo Dilma Rousseff (PT), os peemedebistas prepararam uma série de ações que colocam a presidenta contra a parede. A principal delas foi a eleição de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a presidência da Câmara dos Deputados, que já conseguiu emplacar uma moção de repúdio contra o governo da Venezuela (algo até então inimaginável em um governo petista), dificultou a fusão de partidos políticos e aprovou o orçamento impositivo — que obriga o Governo a pagar as emendas parlamentares.

A próxima armadilha peemedebista já se configura com uma ameaça de não apoiar os ajustes fiscais promovidos por Rousseff. O chamado “pacote de maldades” de Rousseff inclui as mudanças de algumas regras trabalhistas, o aumento dos combustíveis e a correção da tabela do Imposto de Renda em um percentual abaixo da inflação. Os ajustes resultariam na economia de 18 bilhões de reais aos cofres públicos. Mas, em tempos de Governo impopular, o melhor é encontrar um espaço para se blindar.

“Não queremos pagar sozinhos uma conta que não é nossa. Ainda não nos convencemos dos ajustes que estão sendo feitos por esse Governo e por isso não vamos assumir esse ônus sozinhos sem ter participação na formulação dos projetos para o país”, afirmou o líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani, que pediu votos para o oposicionista Aécio Neves (PSDB) contra Rousseff, em 2014. A fala de Picciani vai na mesma linha do que pensa o presidente do Senado, um dos caciques peemedebistas, Renan Calheiros. Nesta semana, ele disse que o seu partido só era chamado para conversar na hora de votar com o Governo. O próprio vice-presidente da República, Michel Temer, que preside o PMDB, já sinalizou a Rousseff que não conseguiria controlar seu partido no Congresso, caso as conversas não evoluam.

Para amenizar a sanha por cargos, o Governo já estuda ceder ao PMDB o ministério da Integração Nacional

As reclamações de Temer e Calheiros, aliadas ao fenômeno Cunha, mostram que o governo petista terá de ‘fazer a corte’, mais do que o costume. Na opinião do cientista político e professor da Universidade Federal de Santa Catarina Tiago Borges, é o que cabe aos governos de coalizão. “O presidente precisa negociar com todos que o apoiaram. E essa crise política vai demandar um esforço de negociação muito maior do Governo Dilma”.

A iminência da perda de apoio de seu principal aliado (ao menos em número de parlamentares e governadores) ou de um enfrentamento maior no Legislativo deixou Rousseff preocupada e fez com que ela sinalizasse duas aproximações. A primeira foi enviar os ministros que têm a chave do cofre ­– Planejamento e Fazenda – para se reunir com líderes do PMDB na segunda-feira. A segunda foi menos uma ação de Rousseff e mais um favor do padrinho político e seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, que nesta quarta-feira debateu a crise com os principais senadores peemedebistas que se dizem aliados do Planalto e, segundo o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), concordou com um maior protagonismo de seu partido nas decisões políticas do Governo e até sugeriu que o vice-presidente da República, Michel Temer, seja o interlocutor do PMDB no governo.

Segundo Calheiros, Lula "lembrou que, quando foi presidente, envolvia o vice-presidente José Alencar em todas as decisões, e [o petista] acha que o mesmo deve ocorrer agora". "É preciso que o governo envolva o vice-presidente Michel Temer em todas as decisões porque ninguém melhor que o Michel interpreta o sentimento do partido como um todo", disse Calheiros.

Se a relação entre os dois principais partidos enfrentava altos e baixos ao longo do primeiro mandato da presidenta, a última pesquisa de opinião do Datafolha, que mostrou a popularidade de Dilma no pior patamar do seu Governo, foi o empurrão que faltava para encorajar o PMDB a se descolar de Rousseff. “A atração que o Legislativo tem pelo Congresso depende da popularidade do presidente. Se estiver mal, como agora, o Congresso se aproveita. E é isso que está acontecendo. Sem negociar, sem ceder, qualquer Governo corre o risco de fracassar”, pondera o cientista político Maurício Michel Rebello, professor da Universidade Federal da Fronteira Sul.

Recado em rede nacional

Um recado para a presidenta será dado na noite desta quinta-feira no programa partidário do PMDB no rádio (às 20h) e na televisão (às 20h30). Às vésperas da divulgação dos nomes dos políticos envolvidos na Operação Lava Jato, a propaganda peemedebista escondeu seu apoio a Rousseff e disse que um “mar de crises invade o noticiário”. Só não cita o que fará com os membros da legenda que serão denunciados como beneficiários do esquema que desviou entre 10 bilhões e 20 bilhões de reais da Petrobras.

Uma das interpretações para essa série de reclamações e essa tentativa de se descolar de Rousseff, conforme lideranças peemedebistas, é a busca por mais cargos. Em uma rápida comparação entre o primeiro mandato de Rousseff e o segundo, nota-se claramente a perda de importância do PMDB.

Em janeiro de 2011, o partido tinha seis ministérios que respondiam por quase 15% do orçamento da União. Já no início deste ano, o número de ministérios é o mesmo, mas a receita administrada é de apenas 2%. Isso ocorreu porque peemedebistas foram defenestrados dos ministérios da Defesa, Previdência e Assuntos Estratégicos e colocados em pastas com pouco poder de interferência política: Portos, Aviação Civil e Pesca. Enquanto isso, o PROS ficou com o relevante Ministério da Educação, que tem uma das maiores verbas do Governo, e o PSD emplacou o Ministério das Cidades, que administra os recursos bilionários do programa de habitação Minha Casa Minha Vida. Dilma ainda criou um ministério extra, o da Micro e Pequena Empresa, para agradar ao PSD.

Para amenizar a sanha peemedebista por mais poder, o Governo, que mal empossou seus 39 ministros, já estuda ceder ao partido o Ministério da Integração Nacional, hoje nas mãos de um técnico do Partido Progressista, Gilberto Occhi.

Heterogêneo com candidatura própria

Aproveitando-se do momento crítico de Rousseff, os peemedebistas também reavivaram a vontade de lançar uma candidatura presidencial. A última vez que o PMDB lançou um nome próprio para a Presidência foi em 1994, com Orestes Quércia. Desde então, sempre apoiou oficialmente o vencedor do pleito. Mas, por ser um partido heterogêneo com muitos caciques, em alguns Estados esteve ao lado dos derrotados. Isso voltou a ocorrer no pleito do ano passado, quando nacionalmente o partido pedia votos para Dilma, mas em Estados como Minas Gerais e Rio Grande do Sul havia peemedebistas nos palanques de Aécio Neves ou Marina Silva (PSB).

A busca por um nome próprio, junto com a insatisfação dentro da coalizão governista pode, em médio ou longo prazo, resultar no rompimento com o PT. “Todo grande partido deve almejar uma candidatura presidencial. Conosco não pode ser diferente, mas temos um caminho longo a percorrer”, diz Picciani.

A opinião dele vai na mesma linha de alguns analistas políticos. “Se quiser se unir nacionalmente, o PMDB tem de lançar uma candidatura. Tentaram fazer isso em 2006, mas não conseguiram”, diz o professor Rebello.

E se não lançar ninguém? A resposta talvez esteja exatamente no lema de sua propaganda partidária: “O PMDB sempre vai escolher apoiar o Brasil”.

Os ministérios do PMDB

Em janeiro de 2011

Ministério / Ministro / Orçamento

  • · Agricultura / Wagner Rossi / 2,9 bilhões de reais
  • · Minas e Energia / Edison Lobão/ 24,6 bilhões de reais
  • · Turismo / Pedro Novais / 35,1 milhões de reais
  • · Previdência Social / Garibaldi Alves / 240,8 bilhões de reais
  • · Assuntos Estratégicos / Moreira Franco / 3,1 milhões de reais
  • · Defesa / Nelson Jobim / 7,3 bilhões de reais

Total administrado: 14,8% do orçamento da União

Em janeiro de 2015

Ministério / Ministro / Orçamento

  • · Agricultura / Katia Abreu / 6,1 bilhões de reais
  • · Minas e Energia / Eduardo Braga / 36,8 bilhões de reais
  • · Turismo / Vinicius Lages / 42 milhões de reais
  • · Aviação Civil / Eliseu Padilha / 3,1 bilhões de reais
  • · Portos / Edinho Araújo / 3,5 milhões de reais
  • · Pesca / Helder Barbalho / 11,3 milhões de reais

Total administrado: 2% do orçamento da União

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