Tribuna
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A aposta na paralisia

Sem voz representativa, a insatisfação não é ouvida. Sem boa vontade, o governo não a entende. Diálogo? Impossível quando os idiomas são tão diferentes

Quando conquistou o segundo mandato, Dilma anunciou à plateia de apoiadores que sua meta seria a da ampliação do diálogo. Com quem? Não sabemos. A impressão, reforçada pelo pronunciamento marqueteiro do 8 de março, é que fala sozinha.

Alguns pegaram em panelas, mas o restante nem se deu ao trabalho: é fácil trocar de canal quando Dilma aparece no escritório cenográfico, diante da câmera balouçante, lendo o discurso de ainda somos vítimas da crise de 2008, cuja extensão era "imprevisível" e contra a qual o governo fez "tudo que podia" para nos proteger.

Em seu discurso, a presidente optou por um mundo cor de rosa. Não reconhece que o real derrete diante do dólar justamente porque a crise de 2008 acabou nos EUA, não vê a recuperação na Europa, não menciona nossa exclusiva recessão. Afirma que não era possível prever as dificuldades de hoje e assim escarnece de todos os analistas que previram a necessidade de ajuste fiscal e de cobertura de rombos orçamentários pela maquiagem de contas. Pede aos telespectadores que dividam com ela um sacrifício, que, a rigor, já compartilham desde as quedas artificiais dos juros, da tarifa de energia e do congelamento dos preços de combustíveis.

Entre a arrogância e a ficção, Dilma e sua propaganda não entenderam que o maior legado da Copa foi impulsionar, por meio de cada elefante branco erguido nas 12 capitais, a vontade de participar do Brasil político - nem que seja para postar uma selfie e receber likes dos amigos. "Engajamento" virou parte do jargão das redes sociais; seu gabinete, no entanto, não vê nada disso.

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A imprevisível manifestação deste domingo será um emaranhado dessas insatisfações difusas que vimos em 2013. Como não há liderança clara, o 15 de março se torna refém do olhar alheio, que sai em busca de uma representação icônica daquilo que já concluiu por antecipação.

Os governistas dirão, a partir de uma foto ou meme qualquer, que o golpismo está explícito. Trombeteiam que o PT incluiu 42 milhões de pessoas na classe média; logo, acreditam que toda oposição a si é coisa do ódio das elites e que toda insatisfação é ilegítima ou fruto de desinformação. Do alto de sua empáfia condescendente, zombam da cognição alheia.

Os oposicionistas vão se diluir em várias cores. Verde-oliva, sim, porque sempre há espaço para a arqueologia de absurdos. Vai haver brancos e negros, sim, porque a insatisfação neste país é mestiça, unindo todos aqueles afetados pela inflação que chega a reboque de energia e gasolina. E haverá a amarelada de altos-tucanos, porque sua intimidade com a rua é mínima e porque confundem ponderação com inércia.

Sem voz representativa, a insatisfação não é ouvida. Sem boa vontade, o governo não a entende. Diálogo? Impossível quando os idiomas são tão diferentes.

Daí a impeachment dependeria de indícios fortes de crime - que os órgãos competentes não produziram - e de lideranças dispostas a arcar com o dia seguinte. Aqui e ali pipocam comparações dos dias de hoje com os cenários políticos vividos por Collor em 1989, Jango em 1964 e Getúlio em 1954; honestamente, qualquer uma dessas comparações ignora que os brasileiros evoluíram na sua consciência política, no respeito às instituições democráticas e na variedade de informação que recebem.

O que se avizinha de fato não é impeachment, mas a aposta na paralisia de um governo que impacienta aliados, irrita eleitores e golpeia a si mesmo. Ao ver essa brecha, a caça aos corações, mentes e líderes para 2016 e 2018 já começou. O período eleitoral no Brasil nunca tira férias.

Márvio dos Anjos, 36, é jornalista e diretor de Redação do jornal "Destak Brasil", de distribuição gratuita em São Paulo, Rio, Brasília, Recife, Campinas e ABC

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