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O árabe do futuro vive entre quadrinhos

Trilogia de Riad Sattouf, ex-integrante da ‘Charlie Hebdo’, fala sobre vida entre Síria, Líbia e França

Detalhe da capa do terceiro livro da trilogia 'O Árabe do Futuro' Ampliar foto
Detalhe da capa do terceiro livro da trilogia 'O Árabe do Futuro'

Não deixa de ter seu mérito o fato de que, a partir de quadrinhos de aparência naïf sobre leves fundos celestes, amarelados, rosas e esverdeados – argghhh, os temíveis tons pastel – o leitor, talvez mais naïf do que os próprios quadrinhos, seja informado pouco a pouco de vivências assombrosas, complicadas, tremendas. Coisas relacionadas ao desterro interior e exterior, o racismo latente e presente, o desamparo, os danos do excesso ideológico, as sutis, mas indeléveis diferenças entre o patriotismo e a patriotada, o choque de civilizações e a fatalidade da incomunicabilidade entre o Oriente e o Ocidente. O mundo não está para brincadeiras e nunca esteve, e alguma coisa – bastante – Riad Sattouf (Paris, 1978) sabe sobre isso, herdeiro dessas vivências por via paterno-filial e autor desses quadrinhos, reunidos na trilogia gráfica O Árabe do Futuro, que a editora Intrínseca terminou de publicar em julho deste ano.

O autor, filho de francesa e sírio, passou sua infância e adolescência entre a Síria de Hafez al-Assad, a Líbia de Gadafi e a doce Bretanha. Isso deve, por um lado, enriquecer a pessoa, e por outro deve significar uma esquizofrenia importante nos alvores da vida. E não só nos alvores. Sattouf explica assim a gênese mental e material de sua reveladora HQ: “Quando comecei a escrever essa história não me propus a fazer um exorcismo pessoal e falar assim, em geral, do mundo árabe. Tinha esse projeto na cabeça há muito tempo, mas não me atrevia a colocá-lo em andamento, existiam lembranças dolorosas, e além disso tenho muita dificuldade em fazer uma HQ autobiográfica. Talvez porque eu, como leitor, não goste muito de quadrinhos autobiográficos”.

Sattouf escreve e desenha nessa trilogia suas lembranças agridoces de “uma juventude no Oriente Médio”, que é o subtítulo do livro. Uma juventude franco-árabe propiciada pela condição de professor itinerante de seu pai, Abdel-Razak, um sírio enérgico, brilhante e contraditório que se formou em Sorbonne, mas que preferiu as classes desconjuntadas do socialismo árabe, o Estado das massas populares que ele acreditava ser um antídoto eficaz contra o obscurantismo religioso. “A ideia do título surgiu”, explica Riad Sattouf, “porque meu pai, que tinha uma origem muito pobre, conseguiu terminar seus estudos na França graças à escola e quis devolver ao mundo árabe o que ele considerava que este tinha lhe dado. Ou seja, queria contribuir para educar o árabe do amanhã... o árabe do futuro. Ele era partidário de um mundo aberto, livre da religião, mesmo sendo paradoxal, porque não era exatamente um democrata, podemos dizer que era uma espécie de fascista árabe, acreditava que a democracia não servia para nada, estava obcecado pelos governantes que controlavam seus países com mãos de ferro, como Gadafi, como Hafez al-Assad”.

A França não é um lugar racista, mas a Síria sim, extremamente

Paradigma quase perfeito do que um meio de expressão como o quadrinho pode chegar a contribuir ao relato de âmbito histórico, O Árabe do Futuro volta aos anos 70 e 80, mas possui evidentes doses de atualidade. “Meu pai tinha dentro de si um grande sentimento de revanche contra o Ocidente, se sentia profundamente humilhado pela História, porque tinha claro que haviam sido os ocidentais que, sem consultar ninguém, haviam desenhado as fronteiras do mundo árabe no final do Império Otomano. Ele pertencia a uma geração traumatizada pelas guerras com Israel”.

Na França de Le Pen do extremismo disfarçado de voto e dos crimes racistas – os mortos do Charlie Hebdo, as agressões antissemitas e também antiárabes – Riad Sattouf quer deixar clara uma coisa: “Preciso dizer que a França me parece um dos lugares menos racistas possíveis. Eu posso falar das minhas lembranças da Síria, que coloco no livro, e lá sim eram extremamente racistas; no vilarejo de meu pai não o eram somente com os negros, a quem chamavam de macacos, com os curdos, e com os que se relacionaram com Israel... eram racistas com os moradores do vilarejo vizinho! E principalmente existia um antissemitismo enorme, um ódio aberto contra Israel”.

Escritor e desenhista Riad Sattouf ampliar foto
Escritor e desenhista Riad Sattouf

Sattouf tem família na Síria, mas não quer falar muito sobre ela. “Quase todos fugiram quando a guerra civil começou. Uns se instalaram no Egito, outros na Arábia Saudita, mas ainda tenho uma tia que vive lá, mas já não tenho contato com ela. É incrível o que aconteceu a esse país”. Também não quer falar muito de outro assunto: a próprio Charlie Hebdo, onde desenhou até outubro de 2014, pouco mais de dois meses antes do atentado. “Na Charlie Hebdo eu não fazia caricaturas e desenhos sobre política, fazia uma série que se chamava A Vida Secreta dos Jovens (editada em espanhol pela editora La Cúpula). E em outubro saí de lá porque queria fazer coisas novas, e entrei na revista Le Nouvel Observateur. Após o atentado todo mundo se atirou sobre nós, nos perguntavam sem parar sobre o que havia acontecido, e sobre questões de política internacional, e eu me dizia: mas eu sou só um autor de HQs! A sensação que tenho é estranha, é como a de quem tem um tio ou uma tia que nunca vê, e se diz: ‘Caramba, poderia visitá-los um dia’, mas não vai, e de repente um dia estão mortos”. E acrescenta, como epílogo funesto: “Para mim os desenhistas da Charlie Hebdo eram imortais, não podia imaginar que alguém que se dedica a desenhar poderia representar uma ameaça a alguém”.

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