mobilidade urbana

A frente anti-Dilma quer ter voz no debate sobre o Passe Livre

Movimento Brasil Livre emula aulas do MPL e vai ao Masp pregar à plateia pequena sobre liberalização dos transportes

Aula Pública do Movimento Brasil Livre.
Aula Pública do Movimento Brasil Livre.

O Movimento Brasil Livre, um dos promotores das três marchas anti-Dilma e anti-PT que reuniram até 10.000 pessoas em São Paulo após as eleições, também quer participar do debate sobre o transporte na cidade. As jovens lideranças do movimento em São Paulo organizaram uma aula pública ao estilo Movimento Passe Livre no vão do Museu de Arte de São Paulo (Masp) sob o lema "Como melhorar o sistema de transporte no Brasil, sem demagogia". Entre palestra e palestra The Moondogs, a banda rockeira do filho do comediante Moacyr Franco, atraía os curiosos com suas gravatas borboletas sob camisa branca e malhas de lã escura e gola V.

Durante o encontro, marcado pela defesa do livre mercado, foi questionado o Passe Livre, reivindicação que levou milhares às ruas em junho de 2013 e que volta à pauta nos protestos este ano. Os palestrantes se revezavam, mas mantinham praticamente as mesmas diretrizes: a entrada de mais concorrentes no setor permitiria baixar os preços e aumentar a oferta e a qualidade do transporte.

"O primeiro princípio da economia é que os recursos são limitados e a primeira regra dos políticos é ignorar esse princípio", começava Fabio Ostermann, primeiro palestrante e diretor de Relações Institucionais do Instituto Liberal. "Por mais que a gente queira serviços de qualidade a preços módicos a solução não é chamar mais políticos para isso. Acreditamos que o transporte necessita de mais concorrência e menos regulamentação para melhorar sua qualidade."

Desregulamentar o transporte deve implicar, segundo o grupo, flexibilizar licenças para peruas, vans, para táxis, para motos ou facilitar a entrada de empresas de transporte alternativo como Uber, que está sendo alvo de processos em vários países por ameaçar o negócio dos taxis tradicionais.

"Os empreendedores têm que ter mais voz no setor. Antes de pensar em quebrar os ônibus, temos que pensar em quebrar os oligopólios das empresas de transporte", disse Ostermann em referência às 17 empresas responsáveis pelo serviço municipal de ônibus de São Paulo. "O problema do oligopólio privado vai ser pior com a estatização [estabelecimento do Passe Livre]. Pensem em todos os monopólios públicos, de água, de luz, o quando existia o de telefone... Lembram do caos que era?"

De esquerda à direita: Kim Kataguiri (18), Frederico Rauh (23), Alexandre Santos (26), Gabriel Calamari (20) e Renan Santos (30). Os líderes do Movimento Brasil Livre em São Paulo. / Victor Moriyama
De esquerda à direita: Kim Kataguiri (18), Frederico Rauh (23), Alexandre Santos (26), Gabriel Calamari (20) e Renan Santos (30). Os líderes do Movimento Brasil Livre em São Paulo. / Victor Moriyama

Ostermann colocou a reforma do sistema de transporte da cidade de Lima como exemplo de eficiência. A capital do Peru acabou no ano passado com o domínio das grandes empresas de ônibus e dividiu o negócio em seis consórcios formados por 148 empresas. O sucesso, porém, ainda é tema de debate na mídia local.

Kim Kataguiri, o rapaz de 18 anos, que pouco mais de mês atrás discursava contra a corrupção na Petrobras em cima de um carro de som na avenida Paulista, tomou a palavra para defender a livre concorrência. "O problema não são as empresas, é a regulação, porque tudo depende dos acordos promíscuos da Prefeitura com as empresas. Se eu amanhã quisesse comprar um ônibus e cobrar um real pela passagem não poderia, pois a Prefeitura o proíbe", disse. "O problema se resolve permitindo a entrada da iniciativa privada, eles [as companhias] só conseguem manter esse preço absurdo porque há um oligopólio". 

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Ao microfone também estava Joel Pinheiro da Fonseca, filho de Eduardo Gianetti da Fonseca, economista e o principal conselheiro econômico de Marina Silva. "Liberar o setor do transporte permite que se torne um campo para o empreendedorismo. Não se trata de um mercado fechado para grandes empresas, senão que proprietários de um meio de transporte, como uma moto, também possam oferecer seus serviços, aumentando assim a oferta e permitindo uma variabilidade do preço", defendeu o mestre em Filosofia de 25 anos.

O público, que não chegava à centena de pessoas, ouvia os discursos concordando com a cabeça mas também com caretas de reprovação. "É um discurso controverso que me faz mais discordar do que concordar", afirmava Miriam Pavez, de 28 anos, que mora na Coreia do Sul. "O empreendedorismo e a promoção da concorrência é excelente e a Coreia é um exemplo disso, mas discordo quando eles dizem que em países desenvolvidos serviços básicos são pagos e funcionam muito melhor, pois não podemos esquecer que até muito pouco tempo atrás o Brasil era um país onde a maioria das pessoas não tinha acesso a coisas básicas."

Entre os ouvintes a militante do Movimento Passe Livre Priscila Rodrigues, de 25 anos, pediu a palavra e questionou: "Não acham que tirar o transporte das mãos do Estado e colocar nas mãos da burguesia significa trocar seis por meia dúzia?" O questionamento, obviamente, foi rebatido pelos palestrantes, mas a jovem ganhou dois aplausos da plateia e dos organizadores. "Porque o importante é o debate."