“Troquei meu sagrado happy hour pelo Aécio Neves”

Em clima de título da seleção milhares de pessoas fazem um protesto contra o PT

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso discursa em ato a favor de Aécio Neves, em São Paulo
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso discursa em ato a favor de Aécio Neves, em São PauloNACHO DOCE (REUTERS)

O horário era o típico do happy hour, 19h. A multidão que se aglomerou no Largo da Batata, na zona oeste de São Paulo, porém, não estava para a festa, apesar de parecer comemorar um título da seleção brasileira. Milhares de pessoas vestiram camisetas amarelas ou se enrolaram em bandeiras do Brasil para demonstrar o apoio ao presidenciável oposicionista Aécio Neves, do PSDB. Cantavam músicas desordenadas, nem sempre seguiam as orientações do carro de som e só conseguiam se organizar na hora de xingar o PT, a presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula da Silva.

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“Troquei o meu sagrado happy hour de quarta-feira para me manifestar a favor do Aécio e contra a roubalheira do PT”, disse o analista de sistemas Fernando Berger, de 28 anos, com um copo de cerveja na mão direita e uma bandeira de Aécio na esquerda. Assim como ele, centenas de jovens adultos estavam com adesivos com o número 45 colados no paletó e provocavam os petistas, estimulados principalmente pelo deputado Paulo Pereira da Silva (SD), presidente de honra da Força Sindical que por várias eleições se aliou ao PT. Do alto de um trio elétrico, Paulinho, como é conhecido, cantava: “Que maravilha, a Dilma na [prisão da] Papuda e o Aécio em Brasília”.

Alguns dos outros gritos dos eleitores de Aécio foram: “Lula cachaceiro, devolve o meu dinheiro”; “Você aí olhando, o PT te roubando”; e “O PIB do PT não sobe mais”. Já as faixas que seguravam eram criativas. “Tem tanta coisa errada que não cabe em uma só faixa” e “Direita? Esquerda? Eu só quero ir pra frente”.

Os discursos foram, em sua maioria, em um tom agressivo e de provocação. Ou seja, na contramão do que o próprio Aécio pedia nos debates televisivos e afrontando um acordo de não-agressão firmado na Justiça eleitoral entre as duas campanhas. O vereador Andrea Matarazzo, por exemplo, disse que era a hora de tirar o Brasil da roubalheira. O senador eleito José Serra disse que a ordem de despejo do PT chegará no domingo. O ex-jogador Ronaldo Nazário, o Fenômeno, afirmou que estava cansado de ver tanta corrupção . E o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que pouco participou da campanha de Aécio, disse que o PT distorce os programas sociais que foram implantados em sua gestão (1995-2002).

Enquanto cerca de 6.000 pessoas se aglomeravam no Largo da Batata houve um micro-protesto contra os manifestantes tucanos. Um cobrador de ônibus que estava parado no engarrafamento usou um apito para chamar a atenção dos que circundavam o veículo. Quando todos olharam, ele gritou seguidas vezes: “Dilma, 13!” A resposta veio rapidamente: “Fora, PT. Leva a Dilma com você”.

Mais tarde, durante a caminhada pela avenida Brigadeiro Faria Lima, um dos centros financeiros paulistanos, um manobrista negro chamou o repórter e desenvolveu o seguinte diálogo.

- Ei, você que está anotando tudo da passeata. Viu algum preto aí?

- Poucos. Quase nenhum.

- E pobres?

- Não sei te dizer.

- Pobres têm um monte. Estão todos ali, esperando o ônibus enquanto nossos patrões fecham o trânsito.

Um senhor de aproximadamente 50 anos que ouviu parte da conversa se mostrou indignado. “Lá vem a imprensa golpista nos retratar como riquinhos, brancos e elitistas. A resposta nós daremos nas urnas”, disparou antes de puxar outro grito contra os petistas.

Além de São Paulo, conforme os organizadores, as manifestações a favor de Aécio aconteceram em outras 14 cidades brasileiras, entre elas Belo Horizonte e Brasília.

O candidato do PSDB, em ato em Belo Horizonte.
O candidato do PSDB, em ato em Belo Horizonte.GUSTAVO ANDRADE (AFP)