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“Não vamos desistir do Brasil” torna-se o mantra do velório de Eduardo Campos

A frase usada pelo ex-governador estava estampada na camiseta de milhares de pessoas e se transforma na marca do PSB

Curiosos que se despediam do ex-candidato faziam ‘selfies’ ao lado do caixão

Filhos de Campos no carro dos Bombeiros que levou o corpo do pai. Ampliar foto
Filhos de Campos no carro dos Bombeiros que levou o corpo do pai. EFE

Nem mesmo os mais otimistas marqueteiros políticos poderiam prever que uma frase dita por um candidato como uma protocolar mensagem de despedida no telejornal com maior audiência do Brasil pudesse se tornar um mantra de uma campanha eleitoral. E é exatamente isso que parece ter ocorrido com o discurso de Eduardo Campos em uma de suas últimas entrevistas antes de morrer, no Jornal Nacional da TV Globo, ele disse: Não vamos desistir do Brasil.

Foi a deixa para o seu partido, os militantes, amigos e familiares explorarem a força dessa fala para homenageá-lo e, consecutivamente, marcarem o início da retomada da campanha eleitoral. Disputa que agora terá Marina Silva como candidata à presidência pelo PSB. O primeiro sinal disso foi dado pelos próprios filhos de Campos, que foram até a Base Aérea do Recife com camisetas amarelas com a tal sentença. Carregaram o caixão com o pai e caminharam até o carro dos bombeiros que tinha uma faixa com os mesmos dizeres.

No entorno do Palácio do Campo das Princesas, onde ocorreu o velório dos restos mortais do político, milhares de pessoas usavam camisetas com a frase. Não só a amarela, confeccionada a pedido do PSB pernambucano, mas também outras feitas por conta própria. Havia brancas, pretas, vermelhas, verdes, com e sem fotos de Campos, e outras com charges. “Eu fui convocado a não desistir do Brasil”, estampava uma blusa amarela e verde de militantes de Bonito, cidade pernambucana localizada a 130 quilômetros do Recife. “Não vamos abandonar nosso país. Ele se tornará um mito, não tenho dúvida disso”, afirmou o vendedor Carlos Otávio.

O mantra foi entoado também em faixas escritas por políticos do interior pernambucano e na celebração da missa campal em homenagem às vítimas do acidente aéreo. O arcebispo de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido, que conduziu a missa, comparou Campos a Jesus e disse que “está morto um homem que não vendia a sua consciência”. “Ele tinha a fome e a sede dos justos”, sentenciou o religioso, que minutos antes pediu para que a população não desistisse do país. Foi fortemente aplaudido.

Os cabos eleitorais do PSB, que receberam 30 reais para ficarem dez horas seguidas segurando bandeiras com os nomes de Campos e Marina, também usavam as camisetas. Dos 15 entrevistados pelo EL PAÍS, 14 disseram que usariam a camiseta até de graça. Só um funcionário afirmou que estava ali pelo dinheiro, mas que, como suspeitava da morte por acidente do candidato socialista, agora votaria em Marina, apesar de duvidar de sua capacidade de administração. “Só para calar a boca de todo mundo que queria calar o Eduardo”, afirmou João Pereira.

A suspeita do cabo eleitoral ecoou entre outros admiradores de Campos. Logo após vaiarem a emocionada presidenta Dilma Rousseff (PT) durante o velório, alguns gritaram seguidas vezes a palavra justiça. Cartazes espalhados pela praça da República, em frente à sede do governo, clamavam pelo mesmo.

O irmão do ex-governador, o advogado Antônio Campos, disse que um advogado da família e do partido acompanhará as investigações do acidente. São várias frentes de investigação. A Aeronáutica, a Polícia Civil de São Paulo, a Polícia Federal, técnicos de duas agências dos Estados Unidos (país onde foi fabricada a aeronave) e de uma empresa canadense (que produziu o motor do avião) participam dos trabalhos. A aeronave onde estava Campos e outras seis pessoas caiu em um bairro residencial de Santos, no litoral paulista, no último dia 13, quando ele estava a caminho de um compromisso de campanha.

Comoção e autoridades

As homenagens a Campos começaram na madrugada de domingo e contaram com a presença de grupos culturais, como os blocos de maracatu, de admiradores e de corais religiosos. Seu corpo, juntamente com os de dois assessores, foi levado em um carro aberto que passou por 11 bairros do Recife, onde foi aplaudido mesmo de madrugada. O governo pernambucano estima que 100.000 pessoas passariam pela sede do Executivo estadual até o horário do sepultamento, previsto para as 17h de domingo, no cemitério Santo Amaro. Filas foram formadas por cinco ruas que circundam o Palácio do Campo das Princesas. Grande parte dos que passaram pelo velório paravam e faziam selfies com a imagem do caixão de Campos ao fundo.

Vendedores ambulantes também aproveitaram para ganhar dinheiro com o velório. Apesar de copos de água mineral estarem sendo entregues gratuitamente, havia dezenas de vendedores de água ao lado de comerciantes de amendoim e castanhas. O músico e poeta Felisberto Beto, que também imita Lula, se apresentava ao lado de uma bandeira de Pernambuco e tentava vender seus CDs de fabricação caseira, dois por 10 reais. "Preciso me tornar conhecido. Tenho de aproveitar essa movimentação para que as pessoas me conheçam", afirmou.

Vários políticos de todas as regiões do país estiveram no velório. Entre eles o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que chorou por vários minutos ao lado do caixão de Campos, os presidenciáveis Dilma, Aécio Neves (PSDB), Eduardo Jorge (PV) e Pastor Everaldo (PSC). Governadores como Geraldo Alckmin, do PSDB de São Paulo, e Jacques Wagner, do PT da Bahia também prestaram suas homenagens, além de vários líderes do PSB.