Um milhão de pessoas estão em quarentena na África por causa do ebola

A OMS prevê que a epidemia dure “vários meses”

Um menino prepara o pai, com suspeita de ebola, para ser levado a um centro de isolamento.
Um menino prepara o pai, com suspeita de ebola, para ser levado a um centro de isolamento.John Moore (Getty Images)

O surto de ebola que afeta a Guiné, Serra Leoa, Libéria e Nigéria é maior do que indicam as cifras oficiais, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). “Os números foram muito subestimados”, disse a organização em um comunicado. Essa situação supõe que a epidemia ainda durará “vários meses”, acrescenta, e, portanto, a OMS adaptou seus planos de resposta a tais previsões.

A gravidade do cenário levou os três países mais afetados – Guiné, Serra Leoa e Libéria – a decidir não apenas pelo fechamento das fronteiras entre eles para tentar frear os deslocamentos de pessoas infectadas. Também decretaram medidas internas de contenção. Por isso, o Programa Mundial de Alimentos já está atendendo um milhão de pessoas que estão nas zonas de quarentena (os três países têm cerca de 22 milhões de habitantes), e a OMS fez um apelo para que mais países forneçam provisões. Além disso, é temporada de chuvas na região, período que os camponeses da Libéria, por exemplo, chamam de “temporada de fome”, porque as inundações impedem o trabalho nos campos e, ademais, aumentam os casos de doenças como malária, dengue e cólera.

As medidas se tornam cada vez mais drásticas diante da impossibilidade dos países de conter o vírus seguindo os métodos já testados, de identificar e isolar doentes e suspeitos de ter a doença. O último caso que se soube da Nigéria ilustra bem esses problemas. O país não tem fronteira com os outros três, e o ebola chegou de avião no dia 20 de julho, transportado por Patrick Sawyer, um funcionário liberiano que desobedeceu os médicos de seu país e viajou para uma reunião em Lagos apesar de estar em observação porque sua irmã havia morrido de ebola. Sawyer foi hospitalizado logo depois de aterrissar, mas durante o trajeto e a estada no hospital teve contato com cerca de 70 pessoas, das quais 11 deram positivo para o ebola e quatro já morreram.

Uma enfermeira levou o vírus a 450 quilômetros de Lagos

Uma das infectadas foi uma enfermeira do hospital que o tratou. Na quarta-feira, o ministro da Saúde Pública nigeriano, Oneyebucho Chuwaku contou indignado o caso dela. “Desobedeceu às instruções dos médicos” que a mantinham em observação e viajou para Enugu, uma cidade a 450 quilômetros a leste de Lagos. Lá adoeceu e foi confirmado que tinha ebola. Como consequência dessa viagem — cujas causas são desconhecidas — foram identificadas 21 pessoas que tiveram contato com ela, às quais foi feito um acompanhamento. Na quinta-feira, Chukawu diminuiu o alerta ao afirmar que o número de contatos suspeitos era de seis.

Nessa situação, o presidente de Serra Leoa, Ernest Bai Koroma, pediu ajuda internacional sem rodeios, informa José Naranjo.“Temos muito trabalho a fazer e muito treinamento a receber”, disse. No mesmo sentido, a presidenta liberiana, Ellen Johnson-Sirleaf, afirmou dias atrás que “isso é muito, muito sério”. “Aproximamos-nos de uma catástrofe. Necessitamos de médicos e de toda a ajuda possível. Não é um problema da Guiné, Libéria ou Serra Leoa, é um problema do mundo”.

A ajuda chega pouco a pouco. O Centro de Controle de Doenças (CDC) dos EUA anunciou há alguns dias que vai enviar mais 50 especialistas à região. Além disso, enviou equipes de exames clínicos para acelerar a identificação dos casos positivos. Os EUA anunciaram uma ajuda de 12 milhões de dólares (cerca de 27 milhões de reais) e a China acaba de enviar à Libéria o equivalente a 1,2 milhões de euros (aproximadamente 3,63 milhões de reais), além de um avião com ajuda.

Desde março, a UE destinou 12 milhões de euros à região

Por seu lado, a Comissão Europeia destinou cerca de 12 milhões de euros (cerca de 36,3 milhões de reais) desde março para conter o ebola. A Espanha anunciou na quinta-feira o envio do primeiro avião com 5.400 quilos de material sanitário ao hospital católico de Saint Joseph, em Monróvia, onde foi contagiado o missionário Miguel Pajares. Além dessa contribuição, o Governo espanhol assumiu os custos da remoção do religioso falecido e de uma religiosa não contagiada, Juliana Bonoha Bohé. O Executivo de Mariano Rajoy não informou publicamente o valor dessa operação. Diversas fontes do setor das seguradoras consultadas por este jornal apontam que os gastos oscilam entre 240.000 e 500.000 euros (727.000 reais e 1,5 bilhões de reais). No caso das ONGs, suas seguradoras assumem os gastos de repatriação de seus membros.

Além dessas ajudas, a Espanha contribuiu com outras remessas específicas para o ebola. Foram destinados 100.000 euros (cerca de 300.000 reais) para a estratégia regional da OMS, outros 50.000 (150.000 reais) para a ONG Ação contra a Fome na Guiné e 150.000 euros (cerca de 450.000 reais) para uma unidade de resposta de emergências da Cruz Vermelha em Serra Leoa, segundo dados fornecidos por um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores.

Também foi a Espanha o país a pedir que na reunião de ministros de Relações Exteriores da União Europeia desta quinta fosse acrescentado um ponto na ordem do dia sobre o ebola, informa Ignacio Fariza. Mas suas conclusões se limitaram a manifestar apoio e a necessidade de que haja uma resposta internacional coordenada.

Os EUA ampliarão os vistos de cidadãos dos países afetados

Além da ajuda, os países estão especialmente preocupados com a segurança de seus cidadãos que estão nos países com ebola. O Ministério das Relações Exteriores estima que cerca de 500 espanhóis estejam na região: oito na Libéria, 260 na Nigéria, 160 na Guiné e 30 em Serra Leoa, onde, além disso, está uma equipe de cooperantes da Cruz Vermelha que o ministério calcula em 16 ou 17 pessoas.

O Ministério da Saúde Pública, por meio dos consulados, distribuiu recomendações aos espanhóis que vivem nesses países sobre como evitar o contato direto com o sangue ou os líquidos corporais de um paciente ou um cadáver e com objetos que possam estar contaminados, assim como não tocar em animais selvagens nem consumir sua carne, já que essa é a via pela qual o ebola passou dos morcegos aos humanos. O Ministério das Relações Exteriores os aconselha, desde o dia 8, a pensar em “abandonar temporariamente” a Libéria, Guiné e Serra Leoa. Por seu lado, o Governo dos Estados Unidos anunciou que prolongará os vistos das pessoas dos países com ebola para que possam atrasar a volta.

O COI proíbe três atletas africanos de competir na China

A última prova da internacionalização do medo do ebola foi dada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). Diante da próxima realização dos Jogos da Juventude, na China — uma espécie de Jogos Olímpicos júnior — decidiu excluir três atletas dos países afetados: dois que competiriam em esportes de combate e um nadador. O COI admite que com isso provoca uma dupla dor nos afetados, depois da incerteza de viver em um país com ebola, e afirma que eles serão convidados para uma competição futura.