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COMBATE AO CRIME ORGANIZADO

A polícia prende 40 suspeitos de integrarem o PCC

Após anos sem uma grande operação, São Paulo identifica líderes da facção que estavam soltos

Dois seguem foragidos nos EUA e no Paraguai

Amarildo Ribeiro da Silva, um dos presos na operação após seis meses de investigação.
Amarildo Ribeiro da Silva, um dos presos na operação após seis meses de investigação.

Após anos sem realizar uma grande operação contra o crime organizado, a Polícia Civil de São Paulo conseguiu prender 40 pessoas suspeitas de serem membros da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Esse foi um dos maiores golpes contra essa organização ilegal, a maior do Brasil, nos últimos tempos.

As prisões aconteceram após seis meses de uma investigação na qual foi possível desarticular, ao menos momentaneamente, dois braços da facção: o da distribuição da droga e o financeiro – que também lavava o dinheiro do tráfico. Fundado por presidiários na década de 1990, o PCC tem como principal fonte de renda a venda de maconha, cocaína e crack. A droga, vinda da Bolívia e do Paraguai é distribuída para pontos de vários Estados brasileiros, mas sua base mais forte é em São Paulo.

A polícia estima que esses presos do PCC movimentavam cerca de 7 milhões de reais ao mês. Os principais detidos foram Amarildo Ribeiro da Silva, Glauce Jorge O’Hara, Renato dos Santos Gomes (conhecido como Casca), Fernando Rasquinho (o Ousadia), Daiane Santos da Silva, Cléber Silva Queiroz e Dimas Josué de Souza (o Macaco).

Conforme as apurações policiais, baseadas em escutas telefônicas, filmagens e análises de bilhetes apreendidos com os líderes dos bandidos, Amarildo Silva era o responsável pelo pagamento da droga que vinha do exterior e por lavar o dinheiro por meio de uma concessionária de veículos. Com ele, a polícia apreendeu cinco veículos de luxo, sendo um Porsche Cayenne. Daiane da Silva, por sua vez, era a chefe das “mulas”, um grupo de mulheres contratadas para transportar a droga entre um centro de produção e um ponto de venda.

As duas primeiras prisões da operação ocorreram em fevereiro e, a partir delas, os policiais descobriram uma série de documentos que levou à identificação dos demais suspeitos. As últimas detenções foram no último final de semana, quando 200 agentes da delegacia de investigação sobre facções criminosas foram a dezenas de endereços na Grande São Paulo em busca dos suspeitos. “Sabemos que nos últimos anos o PCC passou a funcionar de uma maneira empresarial e, como qualquer empresa, esses detidos em breve serão substituídos por outros criminosos”, alertou o delegado Ruy Ferraz Fontes, que coordenou as investigações em parceria com o Ministério Público Estadual.

Sabemos que nos últimos anos o PCC passou a funcionar de uma maneira empresarial e, como qualquer empresa, esses detidos em breve serão substituídos por outros criminosos

Ruy Ferraz Fontes, delegado

Ao contrário do que ocorreu nos últimos anos, quando as investigações acabaram concentradas na Polícia Militar, nenhum suspeito foi ferido ou morto a tiros pelos policiais civis nesta operação. Até esta terça-feira, havia ainda ao menos dois foragidos. Um deles é Wilson José Lima de Oliveira, o Neno, e Fabiano Alves de Souza, o Paca. De acordo com a polícia Oliveira era o responsável por administrar parte do dinheiro da mensalidade paga pelos “irmãos”, nome dado aos criminosos “filiados” ao PCC. Ele estaria em Orlando, nos Estados Unidos. Já Souza é, há anos, um dos principais chefes do grupo criminoso e estava preso até 19 de dezembro do ano passado, quando foi solto após cumprir uma pena de 11 anos e 4 meses de prisão por roubo e associação criminosa. Assim que foi solto, Oliveira se estabeleceu em Pedro Juan Caballero, na fronteira do Paraguai com o Brasil, de onde comanda a compra e distribuição de droga para os principais centros brasileiros. “Demos um alerta vermelho para a Interpol e agora esperamos a prisão deles também”, afirmou o delegado Fontes.

Na mesma operação, os policiais ainda apreenderam mais 120 mil reais em dinheiro, 28 veículos, 102 kg de cocaína, 40 kg de maconha, 300 frascos de lança perfume, um fuzil, uma submetralhadora, quatro pistolas, computadores e farta documentação que mostra a movimentação do dinheiro e das drogas traficadas pelo PCC.

Um grupo de policiais civis e militares passará a ser investigado por se relacionarem com os criminosos

Os investigadores identificaram ainda que além de pagar uma mensalidade de 600 reais (chamada de cebola) ao grupo criminoso, cada responsável pelos pontos de vendas de drogas têm de repassar o valor equivalente a 1,5 kg de cocaína ao comando da organização. “Só depois de vender 1,5kg de cocaína é que o traficante passa a ter lucro”, afirmou o delegado Wagner Giudice, diretor do departamento de investigações criminais.

Esse mesmo diretor ressaltou que um grupo de policiais civis e militares passará a ser investigado por se relacionarem com os criminosos. Sem citar nomes, Giudice disse ter certeza que um grupo de policiais extorquiu por várias vezes traficantes de bocas de fumo (pontos de venda de drogas) de São Paulo e do interior do Estado. Os casos serão encaminhados às corregedorias das polícias.

A reportagem não teve acesso aos detidos e a polícia não informou quem eram seus advogados de defesa.

Líderes presos voltam aos bilhetes para dar ordens

A. B.

É quase senso comum no Brasil dizer que, mesmo presos, os criminosos continuam dando as ordens no lado de fora da prisão. Em alguns casos, isso começa a ser desfeito quando se instalam bloqueadores de sinais de telefone celular nas cadeias. Mas, em São Paulo, os mesmos criminosos que mandavam matar policiais nos últimos anos de dentro dos presídios, voltaram no tempo para organizar seus negócios do lado de fora. As ordens voltaram a ser dadas por meio de bilhetes, entregues principalmente por seus familiares que os encontram em dias de visitas, de acordo com a polícia.

Nos últimos seis meses, centenas de bilhetes e cartas escritos por esses chefes do Primeiro Comando da Capital (PCC) foram interceptados por agentes penitenciários e policiais. Na maioria delas havia uma espécie de código usado para dificultar a identificação dos envolvidos.

Por exemplo, o líder do PCC, Marco Willians Herbas Camacho que está há anos no presídio de Presidente Venceslau, mudou sua assinatura. Agora, ele assina Russo, ao invés de Marcola. Foi após descobrir um desses bilhetes, chamado de bate-bola, que os policiais identificaram quem era o proprietário de um carregamento de 40 kg de cocaína apreendido na Grande São Paulo, o próprio Camacho.

Com as provas em mãos e após prender 40 suspeitos de comporem o PCC, agora o governo paulista vai solicitar a transferência dos chefes que já estavam presos para um presídio com regras mais rígidas. Se a Justiça acatar o pedido de Regime Disciplinar Diferenciado, ao menos quatro detentos, Camacho entre eles, deverão ser transferidos novamente para o presídio de Presidente Bernardes. No local, os presos não têm direito a visita íntima, só conversam com advogados e familiares por meio de um parlatório, não têm acesso a notícias (jornais, rádio ou TV) e só tem direito a duas horas de banho de sol por dia. No meio penal, ficou conhecido como "a fábrica de loucos".

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