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A experiência Dudamel

O maestro venezuelano, coqueluche mundial da regência, esteve em São Paulo pela terceira vez com a Orquestra Sinfônica Simón Bolívar

Dudamel (no centro), com a Sinfônica Simón Bolívar, em São Paulo.
Dudamel (no centro), com a Sinfônica Simón Bolívar, em São Paulo.

São tantos os superlativos sobre Gustavo Dudamel, o maestro de meros 33 anos que já dirigiu as mais importantes sinfônicas do mundo e detém permanentemente as batutas da Orquestra Sinfônica Simón Bolívar, de seu país, a Venezuela, e da Filarmônica de Los Angeles, sua casa por adoção, que é preciso vê-lo ao vivo – seu vigor, os cachos do seu cabelo – para acreditar que ele existe.

O dado mais impressionante de seu currículo, compreensível para os mais ou menos especialistas na área, talvez seja que, pouco antes de completar 30 anos, já tinha feito 39 exames cardíacos para controlar os iminentes riscos de infarto que rondam sua vida. Não que Dudamel sofra especialmente de doenças de coração. Mas ele tem uma relação tão visceral com a música – parte concreta de sua vida desde os seis anos –, e isso se traduz em emoções e movimentos com a baqueta demasiado fortes para a alma, que é preciso estar sempre atento ao corpo.

Mesmo sem entender ou apreciar o suficiente do que a música clássica tem a oferecer, nas notas musicais – e não nas páginas da mídia, que o adora – é que se pode encontrar o maestro por trás da manchete. Sendo assim, meu encontro com ele acontece em São Paulo, uma das paradas de sua atual turnê latino-americana, que o trouxe de Bogotá e o levará ao Rio de Janeiro, onde fará uma última apresentação no Brasil junto à orquestra Simón Bolívar. Primeiro, para um ensaio matinal aberto a estudantes de música de várias idades e depois, claro, no concerto programado na Sala São Paulo por iniciativa da Sociedade Cultura Artística.

É a terceira visita, sempre com a Simón Bolívar, desse músico formado pela rede venezuelana de conservatórios e orquestras El Sistema, criada em 1975 e aberta a jovens de baixa renda, ao país (as anteriores aconteceram em 2011 e em 2013).

Há muita expectativa, e de todos os presentes. Dos entendidos e eruditos, que toleram sua faceta pop em nome de seu inegável talento e de sua regência precisa; das pessoas comuns, que buscam seu carisma e sua popularidade além das barreiras eruditas; e, especialmente, dos tais estudantes de música – esses, sim, misturando o interesse pelo que fazem com o puro fascínio que exerce o maestro. O que haverá por trás de tanta adoração? Provavelmente, é mesmo o homem comum, que chega vestindo uma calça brim marrom e uma camiseta preta ajustada, muito jovem e boa pinta, com cara de louco e de gênio, e que sorri e faz reverência aos músicos e à plateia num jogo bem equilibrado de proximidades e distâncias.

São três os temas que regirá na ocasião: Bachianas Brasileiras 2, do compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos, Margariteña, do venezuelano Inocente Carreño, e Sinfonia Fantástica, do francês Hector Berlioz. Essa última, um auto-retrato de um jovem apaixonado composto na década de 30, é a que melhor o representa e toma toda a manhã de ensaio.

De baixa estatura e ombros projetados pra frente, numa leve má postura, Dudamel entra sem sobreaviso, interrompendo a aparente baderna dos instrumentos que vão sendo testados. Sem sobressaltar ninguém e cumprimentando todo mundo com acenos aqui e ali, impõe respeito de maneira natural e logo entra em matéria, escolhendo o trecho da sinfonia a repassar e começando o trabalho. Interrompe o treino a todo momento, sempre usando imitações de sons ou metáforas (principalmente de amor e comida) para explicar o tipo de som que deseja alcançar, com coisas do tipo: “Pan, pan, pan!” ou “Toquem como duas crianças apaixonadas correndo num bosque”.

Dispensa partitura, é incisivo com os braços o tempo todo e não consegue controlar (e isso é claro sobretudo para a plateia, que o vê de costas) os cachos de sua cabeça, que funcionam como pequenas molas agitadas pela sua energia. Apresenta a vitalidade dos anos que tem e arranca gargalhadas dos músicos em pelo menos três ocasiões com seus comentários, mas também demonstra a sensatez de alguém em semelhante posição de responsabilidade. “Não quero que seja uma questão de precisão absurda, mas deem o seu melhor", diz ele em certo momento. E, só depois de uma hora de exercitar seus músicos, vira-se para o público e, em português, dá um aguardado “bom dia”.

Chega a hora da apresentação oficial, e o objetivo, além de acompanhar um concerto com toda a pompa e sem interrupções, é comprovar a formalidade da noite versus a informalidade do dia no jeito de ser de Gustavo Dudamel. As duas se fazem presentes. Ao longo de uma apresentação majestosa, que cresce a cada uma das peças, terminando num arrebate de virtuosismo com o fechamento de Sinfonia Fantástica, o maestro se dirige a cada instrumentista com olhos nos olhos, movimentos incisivos sobre algo que deve subir ou descer e uma intimidade em gestos que certamente corresponde ao seus 15 anos à frente da Sinfônica Simón Bolívar. Mas também é controlador, de certa maneira contém os arrebates que ele mesmo provoca, e é até protocolar nos agradecimentos finais. Isso sim: volta quatro vezes ao palco pra corresponder as fortes palmas do público, que não quer parar de aplaudir.

E é assim que fica confirmada, pelas manchetes mas também na pele de uma nova fã, a coqueluche mundial da regência.