Guerra na síria

A batalha subterrânea de Damasco

As catacumbas servem para atacar pontos estratégicos de surpresa

Um soldado em um túnel escavado por rebeldes em Damasco.
Um soldado em um túnel escavado por rebeldes em Damasco.

O soldado Haidar repete um lugar-comum na frente oriental de Damasco quando explica que no bairro de Yobar há “duas cidades, uma na superfície e outra subterrânea”. Ele tem 20 anos, está há oito meses na primeira linha de fogo e já mostra a indiferença perfeita do veterano ao recolher a porção exata de tecido das cortinas para encostar um olho e mostrar os edifícios arrebentados onde ficam os franco-atiradores rebeldes. Estão separados por 50 metros de casebres destruídos e ruas alvejadas pelos morteiros.

Na superfície, as explosões e as balas os tornaram um percurso impossível de ser feito sem forças de combate contundentes. Estancados na superfície, os rebeldes e as tropas do regime de Bashar Assad travam uma intrincada guerra por túneis nos quais brincam de gato e rato. Para os que estão há oito meses nessas galerias subterrâneas, a cidade de baixo é mais real do que os esqueletos de concreto armado que estão de pé na superfície.

Para chegar de um lugar seguro até a entrada dos túneis no lado ocidental da frente leste de Damasco é preciso atravessar algumas vielas sujas onde os gatos passeiam e os soldados se escondem atrás das amoreiras e fingem disparar. Os rebeldes atiram dali. Se começa a descer por uma escada doméstica de alumínio. Uns 20 metros adiante se abre um amplo sótão com luz natural onde o Exército dispôs três monitores tão empoeirados como o resto da casa.

Dali eles acompanham os acontecimentos em três ou quatro túneis esburacados pelos insurgentes. Um soldado sem uniforme chamado Ibrahim explica que os túneis estão repletos de dinamite. Quando veem muito movimento, detonam os explosivos. Diante dos monitores há três sofás estropiados, um forno pequeno e várias chaleiras. Como em todos os postos do exército regular sírio, a madeira e o aço escuro de dezenas de rifles de assalto russos dominavam a cena.

Soldados e insurgentes se encontram às vezes nas galerias

As entradas dos túneis são estreitas: um metro de largura por algo menos de dois metros. Areia cai do teto. O corpulento Wisam convida para entrar em um deles, particularmente bem defendido. Depois de passar por duas barreiras quase impraticáveis de sacos de areia, Wisam se debruça na última que lhe chega ao pescoço para gritar às profundezas um bronco “¡salam aleikum!”, a saudação tradicional árabe. Repete a saudação sem obter resposta. “O que acontece, por que não respondem?”, insiste. Na verdade, o inimigo estava comendo.

Então se entabula um diálogo brutal de insultos, ameaças e provocações que dura uma media hora, até que Wisam se aborrece. Ao fundo, o trovejante voo rasante de um avião Mig do governo, explosões e detonações curtas dos rifles de precisão dos franco-atiradores.

Contam os oficiais de baixo que há vários tipos de túneis. Os que levam à garagem em que eles vivem são túneis perfurados pelos rebeldes para dinamitar o edifício inteiro, que tem uma posição estratégica para entrar na zona governamental.

Um hotel de Alepo foi dinamitado pelos oposicionistas a partir do subsolo

Um coronel que pede anonimato esclarece que o bolsão insurgente que se estende ante seus olhos ao sudeste de Damasco é, por seu lado, a chave para que o Exército recupere o controle das comunicações na parte oriental da capital. Uma vitória na zona significaria, conforme explica, um drástico avanço para o domínio de 80% do país.

Abaixo, os soldados fabricam suas próprias granadas de mão com cabeças explosivas de projéteis antitanque. Colocam uma mecha e as atiram nos túneis onde suspeitam atividades hostis. Os sapadores insurgentes escavam sem parar, explica Ibrahim. Seus colegas os vigiam e tentam surpreendê-los em outros túneis. Às vezes eles se encontram.

Os do Governo dizem ter equipamentos para detectar correntes de ar subterrâneas. Os insurgentes, por seu lado, contam com uma sofisticada maquinaria de perfuração. As mais caras são “made in Germany”, ri Ibrahim. Explicou que “esta não é uma tática de guerra síria, o que demonstra que os rebeldes vêm de fora”.

Outros túneis servem, esclarece o oficial, para atacar pontualmente a partir de um lugar e desaparecer em seguida. Entre outras coisas, os rebeldes os utilizam para disparar seus morteiros portáteis contra as zonas centrais da capital. Mesmo que as câmaras peguem bem quando são visitados por jornalistas nacionais ou estrangeiros, os soldados admitem que o principal é ouvir e ter sorte. As duas partes usam túneis em diferentes niveles. Em alguns, os que se usam para evacuar feridos, tentam a todo custo não se encontrar.

Há um mês, uma forte explosão em Alepo, uma disputada cidade no norte do país, arrasou o hotel Carlton, ocupado por soldados do regime. Os rebeldes o dinamitaram com túneis como os que Ibrahim e seus companheiros vigiam agora em Damasco.