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O capo que ‘morreu’ duas vezes

Nazario Moreno, também conhecido como El Chayo, era o líder e criador dos Cavaleiros Templários, o cartel de drogas mais poderoso do Estado de Michoacán, no sudoeste do México

Cidade do México
"Nazario sempre viverá em nosso coração", diz o cartaz sobre El Chapo, em 2010.
"Nazario sempre viverá em nosso coração", diz o cartaz sobre El Chapo, em 2010. AP

O homem mais temido em Michoacán, no sudoeste do México, tinha vários nomes. El Más Loco (“O Mais Louco”). El Doctor (“O Doutor”). El Chayo. Mas o seu nome verdadeiro era Nazario Moreno (Guanajuatillo, 1970). Ele era mais que um narcotraficante. Fundou o grupo de crime organizado mais poderoso da região, uma máfia com uma ideologia pseudorreligiosa e regionalista, na qual era mais que seu líder: era o seu deus.

Moreno criou o grupo criminoso La Familia Michoacana, que surgiu faz sete anos quando declarou guerra abertamente a Los Zetas, que então brigavam pelo domínio de Michoacán com o cartel de Sinaloa. Em setembro de 2006, vários homens encapuzados e armados invadiram um bar em Uruapan, a segunda maior cidade de Michoacán, e jogaram na pista de dança cinco cabeças e uma mensagem assinada por “La Familia”.

Como se não tivesse ficado claro, dois meses depois homens armados entraram nas redações dos principais jornais de Morelia, a capital de Michoacán, e exigiram que fosse publicada uma mensagem de ameaça contra seus inimigos. Michoacán assistia aos primeiros episódios da sangrenta guerra que deixou milhares de mortos nos últimos sete anos: 997 somente no ano passado.

Os homens que entravam na Familia Michoacana recebiam um pequeno guia de capa vermelha intitulado: Chamam-me de ‘El Más Loco’. O texto resume a “filosofia” do cartel e se apresenta como “o diário de um idealista”. Em Michoacán contam que Moreno o escreveu em seu esconderijo, na serra michoacana.

Descreve seus tempos de criança, nos quais comia somente “feijões e tortilla”, mas conta que em seus primeiros anos de juventude saiu da pobreza extrema vendendo carros usados. Relata também seus problemas com o alcoolismo (se reabilitou antes de fundar o cartel, afirma) e fez questão de que seu cartel realizasse um “trabalho social”.

Em 2008, dois desconhecidos lançaram granadas contra as pessoas presentes à festa em comemoração à Independência do México em Morelia, dentro de um evento que reúne famílias inteiras nas principais praças de todas as cidades do país. Morreram sete adultos e uma criança e dezenas de pessoas resultaram mutiladas. Os buracos deixados pelos explosivos permanecem no chão. “Que Deus me perdoe!”, disse um dos criminosos segundos antes do atentado, de acordo com o depoimento de testemunhas.

O cartel, que até então tinha assumido a produção local de maconha (Michoacán é um dos principais produtores da droga), começou a expandir sua atividade criminosa. Começaram a extorquir: primeiro empresários, depois agricultores e, por fim, os mais pobres camponeses da região. Assumiram o poder de várias minas ilegais de ferro –o Estado tem as maiores reservas do país–, e construíram centenas de laboratórios clandestinos para produzir metanfetamina, até tornarem-se o principal produtor da droga sintética no México. O carro de um dos narcotraficantes mexicanos que aparece na série norte-americana de TV Breaking Bad tem placas de Michoacán.

O centro de atividades do cartel se assentou em Apatzingán, a maior cidade de Tierra Caliente, a região do país que concentrou a violência que tem assolado Michoacán nos últimos sete anos. Foi aí onde, depois de um espetacular esquema operacional conduzido pelas autoridades federais, o Governo de Felipe Calderón deu Nazario Moreno como morto em 9 de dezembro de 2010 e anunciou a dissolução da Familia Michoacana. Em Michoacán, a morte de El Chayo foi desmentida poucos dias depois do anúncio.

A partir da “primeira morte” do narcotraficante, um dos cofundadores da Familia, José de Jesús Méndez El Chango (detido em 2011), se separou do cartel e manteve um grupo criminoso com o nome original. O restante manteve sua rede de operações, mas mudou de nome: a partir de então se chamariam Os Cavaleiros Templários. O culto ao líder, agora desaparecido, se fortaleceu. Nos povoados michoacanos eram distribuídas folhinhas com orações a Moreno, e em muitos deles encontraram-se altares em honra ao capo, representado como um santo vestido com uma túnica medieval.

O surgimento em 2013 dos grupos de autodefesa, civis armados que declararam guerra aos Cavaleiros Templários, elevou a tensão em Michoacán. As milícias assumiram o controle dos municípios de Tepalcatepec e La Ruana (no noroeste do Estado) e deram início a um lento avanço que terminou por cercar Apatzingán em janeiro passado.

Os narcotraficantes responderam com uma violenta ofensiva que incluiu bloqueios nas principais estradas de Tierra Caliente e a instituição de um autêntico estado de sítio em vários povoados. As crianças permaneceram duas semanas sem ir à escola e os ônibus comerciais e de transporte de carga não se atreviam a ir à região. O Governo mexicano respondeu com o lançamento em 15 de janeiro do Plano para a Segurança e o Desenvolvimento Integral de Michoacán e a nomeação de Alfredo Castillo como comissário federal para gerenciar a estratégia do presidente Enrique Peña Nieto.

Ao longo dos últimos 45 dias, o Governo mexicano aplicou vários golpes ao narcotráfico na região. Há alguns dias Castillo anunciou a apreensão de 119.000 toneladas de ferro no porto de Lázaro Cárdenas, na costa michoacana do Pacífico, e outrora território sob domínio dos Templários. O ato representou um golpe significativo ao financiamento do cartel. Dos sete líderes assinalados pelas autodefesas, dois foram capturados e quatro permanecem foragidos. O sétimo é o homem que morreu hoje. O único que morreu duas vezes: Nazario Moreno El Chayo.

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